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terça-feira, 17 de março de 2020

Nós dizemos revolução

Por Beatriz Preciado | Trad.: Bárbara Szaniecki
Parece que os gurus da velha Europa se obstinam ultimamente a querer explicar aos ativistas dos movimentos Occupy, Indignados, handi-trans-gays-lésbicas-intersex e postporn que não poderemos fazer a revolução porque não temos uma ideologia. Eles dizem “uma ideologia” como minha mãe dizia “um marido”. Pois bem, não precisamos nem de ideologia nem de marido. As novas feministas, não precisamos de marido porque não somos mulheres. Assim como não precisamos de ideologia porque não somos um povo. Nem comunismo nem liberalismo. Nem o refrão católico-muçulmuno-judeu. Falamos uma outra linguagem. Eles dizem representação. Nós dizemos experimentação. Eles dizem identidade. Nós dizemos multidão. Eles dizem controlar a periferia. Nós dizemos mestiçar a cidade. Eles dizem dívida. Nós dizemos cooperação sexual e interdependência somática. Eles dizem capital humano. Nós dizemos aliança multi-espécies. Eles dizem carne de cavalo nos nossos pratos. Nós dizemos montemos nos cavalos para fugir juntos do abatedouro global. Eles dizem poder. Nós dizemos potência. Eles dizem integração. Nós dizemos código aberto. Eles dizem homem-mulher, Branco-Negro, humano-animal, homossexual-heterossexual, Israel-Palestina. Nós dizemos você sabe que teu aparelho de produção de verdade já não funciona mais… Quanto de Galileu precisaremos desta vez para re-aprender a nomear as coisas, nós mesmos? Eles nos fazem a guerra econômica a golpe de facão digital neo-liberal. Mas nós não choraremos a morte do Estado-providência, porque o Estado-providência era também o hospital psiquiátrico, o centro de inserção das pessoas com deficiência, a prisão, a escola patriarcal-colonial-heterocentrada. Está na hora de pôr Foucault na dieta handi-queer e de escrever a morte da Clínica. Está na hora de convidar Marx para um ateliê eco-sexual. Não vamos adotar o estado disciplinar contra o mercado neoliberal. Esses dois já travaram um acordo: na nova Europa, o mercado é a única razão governamental, o Estado se tornou o braço punitivo cuja única função será aquela de re-criar a ficção da identidade nacional por meio do medo securitário. Nós não desejamos nos definir como trabalhadores cognitivos nem como consumidores farmacopornográficos. Nós não somos Facebook, nem Shell, nem Nestlé, nem Pfizer-Wyeth. Não desejamos produzir francês, e tampouco europeu. Não desejamos produzir. Nós somos a rede viva decentralizada. Nós recusamos uma cidadania definida por nossa força de produção ou nossa força de reprodução. Nós queremos uma cidadania total definida pelo compartilhamento das técnicas, dos fluidos, das sementes, da água, dos saberes… Eles dizem que a guerra limpa se fará com drones. Nós queremos fazer amor com os drones. Nossa insurreição é a paz, o afeto total. Eles dizem crise, nós dizemos revolução.

terça-feira, 20 de agosto de 2019

A IDÉIA DE DESEJO DE DELEUZE E GUATTARI:
  1. o Desejo é o que anima um processo que não é próprio de uma instância, sistema ou território do sujeito, senão da realidade mesma e de sua realização.
  2. esse processo é o que pre-cede (não lógica nem cronologicamente, senão ontologicamente) a tudo o que reconhecemos como territórios, ou entidades reais circunscritas e definidas (natureza, sociedade, linguagem e, inclusive, sujeitos) . 
  3. a este processo, não lhe falta nada, não pode ser completo nem incompleto porque não é totalizável,  mas sim, infinito, e transcorre intempestivamente. 
  4. este processo está protagonizado por elementos que são: intensidades, diferenças , multiplicidades, "estidades" (depois explicaremos estes termos), puros.
  5. este processo (que a partir do ponto de vista de que estamos tratando pode ser chamado de desejante), "não é outra coisa", "nada mais é", "não é diferente", é imanente, com o que em outras aulas conceitualizamos como processo produtivo – "essência da realidade e de sua auto-realização permanente" ou ser do devir.
  6. Em consequência, talvez se possa entender melhor a ideia Esquizoanalítica de introduzir o Desejo (assim redefinido) na Produção, e a Produção (redefinida, como já fizemos) no Desejo.
Baremblitt, Gregório [2003]. Introdução à Esquizoanálise 2. Ed., Belo Horizonte: Biblioteca Instituto Félix Guattari, 2003,  p81

segunda-feira, 19 de agosto de 2019


Lacan diferenciou com precisão DEMANDA, de DESEJO, e de NECESSIDADE. A demanda é uma formulação verbal que leva implícito um pedido de amor e sua decepção se chama FRUSTRAÇÃO. O desejo anseia a reativação alucinatória de um fantasma, na qual, de uma forma ou de outra, se tenta apagar a separação entre sujeito e objeto, restaurando, assim, um estado narcísico; sua decepção se chama CASTRAÇÃO. A necessidade exige os objetos materiais específicos capazes de satisfazê-la, e sua insatisfação se chama PRIVAÇÃO. 


Em um sujeito psíquico, já não se pode especificar as exigências de sua necessidade (como em um animal) sem considerar a influência que a demanda e o desejo têm sobre ela. Como pode ser apreciado, tanto no discurso filosófico como no psicanalítico, como no sentido comum, é bastante possível encontrar o termo Desejo dotado dos seguintes atributos: 

  1. É uma força impulsora ou animadora de processos em um indivíduo-sujeita-pessoa. 
  2. Essa força induz o sujeito a obter objetos (que ainda que também sejam reais ou simbólicos, no fundo, são imaginários, ou seja, que em um sentido específico, não existem). 
  3. Os objetos procurados tentam reencontrar um objeto supostamente tido e perdido, ou seja, anseiam reativar a marca com a qual esse objeto ficou na memória (consciente ou inconsciente). A vivência que caracteriza o Desejo é uma espécie de nostalgia. 
  4. A aparente obtenção de um objeto de Desejo dá um prazer transitório, mas, como o Desejo não tem, a rigor, objeto, é insaciável.  
  5. Tais características fazem com que o Desejo continue interminavelmente sua busca do objeto, e que essa procura, processada por outras instâncias do sujeito, se transforme em animadora de outros rendimentos psíquicos e culturais superiores.

Quando Freud descreve as características das instâncias, espaços e sistemas pré-conscientes e inconscientes, constata que em cada um deles acontecem funcionamentos, que são chamados de PROCESSOS, que funcionam com peculiaridades diferentes.

O pré-consciente – consciente funciona segundo o Processo Secundário. 

Neste funcionamento, as forças animam representações de acordo com uma lógica que coincide com a lógica aristotélica, que todos costumamos reconhecer como sendo A ÚNICA LÓGICA POSSÍVEL. Esta se caracteriza pelo Princípio de Identidade (A =  A), Princípio de Contradição ( A não é = B), Princípio de Terceiro Excluído ( se A não é = B e B não é = C, C não é = A). Como se pode ver, no Processo Secundário, existe afirmação ou positividade, mas também existe negação ou negatividade. É em função disso que existe ideia e sentimento de falta, de ausência, de morte, de diferenças quantitativas e qualitativas, de sucessão temporal, etc.

A partir de uma leitura Esquizoanalítica, é possível distinguir na Obra de Freud duas caracterizações diversas de Inconsciente e de Processos Primários. Uma delas (que chamaremos estrutural ou edipiana), parece mostrar algumas peculiaridades originais que não são as mesmas que as do pré-consciente – consciente e do processo secundário, mas também outras bastante parecidas. Por exemplo, A pode ser A e NÃO/A, assim como certa Ordem que lhe é própria. Mas também em Freud (em suas teorizações a respeito na primeira Tópica e na Segunda – Conceito de Id, Ello ou Isso), encontramos uma conceitualização segundo a qual o Inconsciente – Processo Primário é DRASTICAMENTE diferente do outro. 

O inconsciente – Id – Processo Primário tem a seguinte composição e
funcionamento: 
  1. Compõe-se de um conjunto infinito de positividades, não tem negação nem negatividade.
  2. Não reconhece falta, ausência, nem nostalgia alguma.
  3. Não tem Ordem alguma, é um "caos" que Freud compara a um "caldeirão fervente de estímulos".
  4. Cada um de seus elementos constitutivos é uma "unidade" absolutamente diferente das outras, que se caracteriza por sua INTENSIDADE (não por sua qualidade nem por sua quantidade), sendo que sua intensidade pode se definir como a potência que tem de gerar, a partir dela e de suas combinações com as outras, algo COMPLETAMENTE NOVO. Essas unidades nem "são" nem "existem", são puro devir e pura diferença. 
  5. Não funciona de acordo com um tempo cronológico, nem com uma lógica aristotélica, nem com nenhuma outra das já conhecidas e aceitas.
  6. Se se quer relacionar esse processo com o DESEJO, só se pode dizer (alegoricamente) que seu único "desejo" é o de PRODUZIR O NOVO.




Baremblitt, Gregório [2003]. Introdução à Esquizoanálise 2. Ed., Belo Horizonte: Biblioteca Instituto Félix Guattari, 2003, p79-80.