domingo, 10 de novembro de 2019

DICIONARIO LACANIANO (Glossário de lacanês ) (EM AVALIAÇÃO)
( VLADIMIR SAFATLE , Folha , + mais , 8 de abril 2001 )
Sujeito - Longe de engrossar o coro daqueles que defendiam a "morte do sujeito", Lacan sempre acreditou no caráter irredutível da subjetividade. A seu ver, a especificidade da psicanálise vinha exatamente da recusa em admitir que os fatos psíquicos fossem apenas resultados de descargas neuroniais ou distúrbios orgânicos. Mas, por outro lado, o sujeito lacaniano não guarda muitas semelhanças com seus antepassados modernos. Filho de um tempo que não acredita mais na transparência da consciência e na luz natural da razão, o sujeito lacaniano verá sua auto-identidade aparecer irremediavelmente despedaçada. Desprovido de vida interior e de profundidade psicológica, ele será como um personagem de "nouveau roman": vazio, impessoal e incapaz de se apropriar reflexivamente de sua própria história. A esse sujeito restará ser um movimento de fuga que não cessa de não se inscrever, tal como um sintoma que nunca se dissolve.
Desejo - "Por fim, amamos o desejo, e não o desejado." A frase é de Nietzsche, mas cabe em Lacan. Núcleo do ser do sujeito lacaniano, a característica principal do desejo é não ter objeto naturalmente dado. Ele é manifestação de um vazio, de uma pura negatividade que quer consumir os objetos nomeados pela linguagem, passar por eles, mas que não se satisfaz com nenhum. "O desejo é sempre o desejo de Outra coisa." Até porque o homem é o único animal que não deseja exatamente coisas. Ele deseja desejos. Para Lacan, um objeto só se torna desejável a partir do momento em que ele é objeto de desejo do Outro. Daí a frase: "O desejo do homem é o desejo do Outro".
Imaginário, simbólico e real - São os três registros nos quais se desenvolve a experiência humana. O imaginário é aquilo que o homem tem em comum com o comportamento animal. Trata-se de um conjunto de imagens ideais que guiam tanto a relação do indivíduo com seu ambiente próprio quanto o desenvolvimento de sua personalidade. O Simbólico é o domínio da organização estrutural da vida social. Como Lacan subordina a sociedade e a cultura à linguagem, a ordem simbólica será um conjunto de significantes que determina os lugares que cada um pode ocupar na vida social.
Já o Real não é, como poderia parecer, a dimensão da experiência imediata. Sua definição é negativa: ele é aquilo que não pode ser representado por um significante nem pode ser formalizado por uma imagem. Essas três dimensões estão sempre presentes em uma relação de articulação conjunta.
Linguagem - Lacan será lembrado para todo o sempre por ter efetuado uma espécie de "guinada linguística" na psicanálise. Como a clínica analítica é totalmente desmedicalizada e opera apenas por meio da reorientação da palavra do sujeito, nada mais lógico do que pensar a cura como um processo de simbolização e verbalização dos sintomas e desejos inconscientes. Daí a importância da linguagem e de sua dimensão própria: a ordem simbólica. Mas a novidade é que Lacan pensa a linguagem como um sistema fechado de significantes puros sem significado e não como um conjunto de signos que representariam positivamente alguma realidade extralinguística. Uma simbolização que opera só por meio de significantes puros não pode produzir significado e nem ampliar o horizonte de compreensão da consciência. O que muda radicalmente a noção de "interpretação" em psicanálise.
Nome-do-Pai - Para compreender a importância do Nome-do-Pai é necessário lembrar que Lacan transforma o complexo de Édipo na estrutura de passagem da natureza à cultura por meio da introdução do sujeito na ordem simbólica. É no interior da família que o sujeito moderno descobre a existência de uma Lei simbólica baseada em interditos (como o incesto) e lugares fixos de parentesco. O pai, sendo aquele que dá nome ao filho e encarna a autoridade, será o representante da Lei. O Nome-do-Pai é o significante dessa função paterna, como uma chave que abre, ao sujeito, o acesso à estrutura simbólica e que lhe permitirá nomear seu desejo. Daí porque: "A função do pai é unir um desejo à Lei". Não é por outra razão que Lacan vê, no declínio da "imago" paterna, uma fonte privilegiada de neuroses contemporâneas.
Falo - Termo que indica o valor simbólico e imaginário adquirido pelo órgão sexual masculino nas fantasias. Nesse sentido, ele não é o pênis orgânico. Ele é um significante fundamental cujo valor está ligado às representações de potência e força. O Falo ocupa um lugar privilegiado na teoria lacaniana porque todos os sujeitos (masculinos ou femininos) organizam seu desejo a partir da posse do Falo. O universo lacaniano será claramente falocêntrico e por trás de todos os elementos do simbolismo social há sempre o significante fálico. No fundo, isso demonstra que Lacan pensa a sociedade contemporânea como uma espécie de sociedade totêmica em que tudo gira em torno das múltiplas identificações possíveis com um significante primordial. Só que, no lugar do totem, temos o Falo.
Objeto pequeno a - Esse é o conceito que mais sofreu modificações ao longo da trajetória de Lacan. Mas ele sempre indicará o objeto causa do desejo, e não objeto do desejo, já que o desejo não tem objeto. "Pequeno a" é causa porque funciona como uma espécie de matriz transcendental para a constituição dos objetos nos quais o desejo se alienará. Todos os objetos investidos pelo desejo serão modulações de um único objeto cujo estatuto é o de uma fantasia fundamental. Um bom exemplo é o fetiche -uma matriz para a constituição geral do universo do perverso. Mas dizer que o mundo dos objetos do desejo humano é colonizado por uma fantasia fundamental nos leva longe. É como afirmar que todos os sujeitos estão presos no interior de seus próprios fantasmas. Não é por outra razão que o fim de análise será pensado como a travessia desse mundo fantasmático por meio de uma "crítica ao fetichismo" do objeto pequeno a.
Pulsão - O termo está no singular porque Lacan unifica o dualismo freudiano entre pulsão de vida e de morte. "Toda pulsão é virtualmente pulsão de morte." [ " Aqui Lacan não pensa exatamente na "morte física" e no retorno ao inanimado biológico de Freud, mas em uma "morte simbólica" por meio da qual o sujeito se desvincularia de todos os seus papéis sociais, colocando em cheque a ação organizadora da ordem simbólica. É interessante perceber aqui uma inversão de perspectiva fundamental. Em Freud, a pulsão de morte aparecia como obstáculo à eficácia da clínica, já que era o que resistia aos mecanismos de simbolização. Já Lacan troca os sinais e vê a pulsão de morte como a manifestação criadora de um desejo que não pode ser satisfeito pelo utilitarismo que rege nosso universo simbólico, com imperativos de adaptação, felicidade e sucesso.
Gozo - Há em Lacan uma distinção entre gozo e prazer. O prazer está ligado à repetição de experiências primeiras de satisfação que ocorreram na vida infantil. O gozo está para além do princípio do prazer e sempre indica processos de transgressão de limites que tocam o sofrimento e a morte: "O caminho em direção à morte não é outra coisa que aquilo que chamamos de gozo". Até porque o gozo marcaria o encontro do sujeito com a pulsão de morte. E aqui Lacan pensa em Antígona e Joyce: personagens que destroem seus vínculos com a ordem simbólica (Antígona contra a "pólis", Joyce contra a linguagem) a fim de permanecerem fieis à seus desejos. O problema é pensar uma clínica que tenha Antígona e Joyce como paradigmas.
Mulher - Como todo mundo sabe, "a mulher não existe". Esse enunciado lacaniano só pode ser compreendido à condição de aceitarmos que a diferença sexual não é biologicamente determinada, mas simbolicamente produzida. Um "homem" é o resultado da identificação do sujeito (seja ele masculino ou feminino) com um significante que representa o Falo. O problema é que não há, no universo simbólico falocêntrico lacaniano, um elemento que simbolize o sexo feminino. Por outro lado, Lacan se apóia em Lévi-Strauss para lembrar que as mulheres aparecem na ordem simbólica como objetos de troca, e não como sujeitos agentes. Logo, só há lugar na estrutura para aqueles que se submetem à identificação fálica. O que não impede que a posição feminina possa aparecer "fora" da ordem simbólica. Daí porque Lacan tende a aproximar o feminino de uma posição mística impronunciável e dizer que a mulher é aberta a um gozo mais próximo da verdade inominável do desejo.
Relação sexual - Assim como a mulher, "a relação sexual não existe". Uma das formas de compreender essa impossibilidade é analisá-la como um processo intersubjetivo. Se a relação sexual fosse possível, ela seria uma relação intersubjetiva entre dois sujeitos encarnados em dois corpos. Mas o problema é que o corpo do outro sempre aparece como tela de projeção das fantasias do sujeito. Na relação sexual, o corpo é sempre um corpo fetichizado. Daí porque Lacan afirmar que o amor é, na sua essência, narcísico.
Inconsciente - O inconsciente lacaniano não é uma caixa de Pandora de onde sairiam pulsões não-socializadas e conteúdos recalcados. Todos os desejos e pensamentos latentes podem ser reapropriados pela consciência e, por isso, são pré-conscientes. O que Lacan procura é algo que apareça como limite irredutível ao pensamento consciente. Ele o encontrará em duas vertentes. A primeira está na negatividade da teoria das pulsões. Mas a mais famosa ficou cristalizada na fórmula: "O inconsciente é estruturado como uma linguagem". Não se trata de dizer que há uma espécie de linguagem privada inconsciente, como se existisse uma estação de rádio clandestina interferindo na estação de rádio pública. De uma certa forma, o inconsciente é a linguagem, ou seja, ele é o conjunto de regras estruturais da linguagem que moldam a forma do pensamento consciente. Saímos assim de um registro "arqueológico", no qual o inconsciente é o texto escondido sob o texto da consciência, para transformá-lo na estrutura formal do pensamento.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Exaustos e Correndo

“Estamos exaustos e correndo. Exaustos e correndo. Exaustos e correndo. E a má notícia é que continuaremos exaustos e correndo, porque exaustos-e-correndo virou a condição humana dessa época. E já percebemos que essa condição humana um corpo humano não aguenta.
O corpo, então, virou um atrapalho, um apêndice incômodo, um não-dá-conta que adoece, fica ansioso, deprime, entra em pânico. E assim dopamos esse corpo falho que se contorce ao ser submetido a uma velocidade não humana. Viramos exaustos-e-correndo-e-dopados. Porque só dopados para continuarmos exaustos-e-correndo.”
(Eliane Brum)






Benivaldo do Nascimento Junior

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Vamos conversar sobre as Psicologias Gourmet

Dia da Psicóloga(o): vamos conversar sobre as Psicologias Gourmet

ESQUIZOGRAFIAS·DOMINGO, 26 DE AGOSTO DE 2018·READING TIME: 11 MINUTES

(bricolagens de esquizografias nossas sobre as Psicologias Gourmet)

Copiado e bricolado de: 

Hashtag, Hashtag #PsicologiadoAmor... 


Do que adianta #PsicologiadoAmor se não há implicação ético-política?

A Psicologia como uma ciência e profissão recente diante de tantas outras, tendo processos complexos na sua constituição no cenário de práticas nos espaços onde se insere. 

Como toda prática é passível de ser capturada, a Psicologia se vê recortada por vetores do mercado, da moral, de pensamentos de retrocesso, de microfascismos. 

Sim, isso é possível. 

A lembrar do papel da Psicologia na Ditadura Militar, a forma como os saberes Psi reforçaram racismo, machismo, xenofobia, os manicômios, etc. em nome de bons costumes e da tradicional família.

Dentro das matrizes psicológicas do pensamento, há uma inclinação para disputas epistemológicas sobre a Verdade, sobre o melhor posto de conhecimento sobre a Psicologia. Microguerrilhas teóricas e práticas que visam eleger A MELHOR ABORDAGEM/LINHA TEÓRICA. 

Enquanto explodem disputas egóico-epistêmicas que buscam só afirmar pedestais em disputas torpes, há um compromisso social e ético da Psicologia que se esvai. Enquanto a disputa for pela MELHOR ABORDAGEM/ LINHA TEÓRICA e não pelas práticas de produção de cuidado com implicação ético-políticas, COM UMA CRÍTICA SEVERA AOS MÉTODOS E PROCEDIMENTOS, AVALIANDO SISTEMATICAMENTE OS DISCURSOS, AS RELAÇÕES DE PODER ESTABELECIDAS, seremos uma profissão estagnada que ainda vê seu campo de saber-fazer buscando consolidação em meio a processos muito mais complexos do que aqueles pelos quais as/os psicólogas/os disputam.

Devemos nos perguntar: Para quem serve o nosso saber-poder? Temos resistido às nossas amarras egóicas do suposto-saber? E nosso saber, serve para anestesiar a potência micropolítica dos corpos ou para controlá-la, subjugá-la à sua verdade, com a melhor das IN-TENSÕES? Para-que-serve-o-nosso-saber?


Questionamentos muito caros, um pouco raros, sobretudo no contexto da biopolítica contemporânea que vivemos. Onde viver denota um sobreviver, uma sub-vida que se repete em massa como forma maior dos interesses do enfraquecimento da potência dos corpos. . .


Vemos sim uma Psicologia caminhando nas ondas dos saberes hegemônicos, reproduzindo direta ou indiretamente opressão, desrespeito, rotulação em nome de uma práxis com jaleco e salto alto, com linguagem impecavelmente polida e pouco encontro, pouca troca, pouca interferência social!
A redução das discussões psi a consciente x inconsciente, comportamento x mente, édipo x anti-édipo, corpo x mente, social x individual além de reducionista nos faz reproduzir pieguismos doutrinários impotentes. 

Quem supera os calourismos psi, sabe que há em qualquer abordagem/linha teórica profissionais competentes e incompetentes, práticas potentes e reducionistas. Sim, há um romantismo no discurso psi nas figuras de linguagens comuns como "acolhimento" "psicologia do Amor", "ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana", "revelações aconteceram após a intervenção" clichês esgotados que não dão conta da implicação ético-política das práticas psi. Ético-Políticas que por vezes sequer são compreendidas num universo povoado pelo senso comum que acha que Ética é aquilo que tem no código de Ética e que Política não é assunto de psicóloga/o. 

Enquanto isso, cenários de exclusão, violência continuam acontecer debaixo dos nossos olhos, respaldadas por práticas constituídas fora do campo social.  É sim, exclusão, opressão acontecendo por meio de NOSSAS INTERVENÇÕES! 

O romantismo da PsicologiadoAmor impede a criticidade de perceber como as práticas psi podem produzir ou reproduzir mecanismos de dominação e exclusão e microviolências subjetivas e sociais, instituídos  e institucionalizados dentro da sociedade na figura da família, do psicólogo, da escola, e dos serviços de saúde, protegidos pela maquiagem de procedimentos psi com o rótulo de paz e amor.

Cabe questionar quais as implicações de determinadas intervenções na escuta, nos diagnósticos, nos métodos e nas atitudes professorais e pastorais que aparecem em várias psicoterapias. 

Sim, é preciso acordar! 

Não há Psicologia que esteja livre da possibilidade de, mesmo com toda boa intenção, rotular e enquadrar em seus diagnósticos, oprimir e normatizar nas intervenções clínicas, reproduzir processos de vulnerabilização, reforçar violências (ativamente ou coniventemente) nas políticas públicas, etc.

É preciso descer de pedestais, desromantizar a discussão das hashtags e afinar nosso compromisso ético-político. Senão seremos reprodutores de lógicas hegemônicas e violentas, crendo que nossa máscara Patch Adams salvará a Psicologia, repleta de reducionismos e reducionistas.

Certa feita li um texto bem bacana com o título "meu psicólogo disse que racismo não existe" e fiquei impressionado. Como pode? Depois de algumas reflexões, isso tem feito muito sentido. 

A Psicologia tem dificuldade de elencar/acolher/considerar aspectos sociais, políticos, econômicos, de gênero enquanto categorias de análise-intervenção de produção de subjetividade e, por consequência, de produção de sofrimento psíquico.

Quando considerados, são sub-categorizados como elementos secundários ou terciários diante do que importa para a Psicologia: um suposto sujeito psicológico, intrapsíquico, interiorizado, na busca das "substâncias psicológicas" (com todo perdão à expressão anedótica), ou ainda pior metapsicológicas.

A(o) psicóloga(o) opera sua escuta como garimpeira ou como um arqueóloga, procurando seus focos-teórico-analíticos aprioristicamente definidos: pensamento disfuncional, complexo, sintoma,  relações do amor, incongruência, má-fé, transfer, sombra, édipo, ordens, traços, comportamentos, como quem procura ouro ou um fóssil, descartando as poeiras e pedras que julga não ter preciosidade alguma porque não se encaixa no que está pré-parado.

A complexidade da multiplicidade da realidade ou realteridade, fica a cargo desses conceitos, como um "essas coisas até podem existir", mas só são tomadas enquanto categoria de análise se/quando virarem "coisas psicológicas" ao rigor desse sotaque psi ultrapassado. 

Numa dissecação neocartesiana a construção de um tal sujeito psico-lógico como condição sine qua non para sua ação, opera um recorte, uma desconexão. Não sei se por incompetência teórico-metodológico, por imaturidade ou por puro egocentrismo epistêmico. "Isso aqui não me cabe - vai conversar com o cientista social, com a assistente social."

Assim, as discussões sobre caixinhas, rótulos e práticas reducionistas viram meras repetições de um hino/oração que nos obriga a cantar/repetir sem nem entender/praticar a letra. E assim vamos reproduzindo psicologias gourmet com suas dietas mentais, seus detox comportamentais, suas ordens amorosas,  sem se questionar a implicação ético-política, histórico e social de nossa profissão.

E há toda uma comoção de menino ferido travestida de criticidade por parte dos profissionais da Psicologia ao falar “a sociedade não entende o que a Psicologia faz ou tem preconceito da(o) psicóloga(o)”. Se eu achasse que psicólogo é apenas o cara que se senta e busca apenas coisas psis a partir de suas lentes epistemológicas, eu também teria preconceito (risos).

Para além de uma necessidade precisar ampliar sua compreensão sobre a atuação das(os) Psis, a Psicologia em si precisa ampliar seu escopo, por vezes desfazendo práticas gourmetizadas que só reforça determinados processos e só empobrecem a profissão e sua capacidade de produzir transformações subjetivas (nos níveis singulares e plurais, “individuais” e coletivas, como processos indissociáveis) até porque Psicologia sem interferências sociais é apenas indústria de produção de cyborgs de acolher coisas-psi.

É delicado ver como o processo de gourmetização das psicologias segue o baile da lógica neoliberalista. 

Uma redução da potência psi a processos corporativistas, aos partidarismos epistêmicos ou a processos que centram a práxis psi numa perspectiva de substancialização dos múltiplos objetos de estudo da Psicologia numa coisa-psi intrapsíquica que faz aprisionar uma gama ampla de processos complexos numa quididade recortada à luz de uma pretensa "identidade profissional". 

Dicotomizações entre individual x social de uma paupérrima maturidade epistêmica, fazem do individual a única esfera pertencente ao universo psi com suas coisinhas psicologizadas enquanto apropriação específica irredutível (mente, comportamento, afetos, pensamento, etc), até porque em muitos muitos casos o grupo (enquanto categoria de análise-intervenção) nada mais é do que uma soma de individualidades ou de sistemas familiares. 

O social vira, em muitos casos, um terreno movediço relegado a um estrangeirismo percorrido apenas por outras ciências, ou habitada pela Psicologia enquanto agremiações encaixotadas em especialismos esquartejantes. "Isso é coisa da Psicologia Social", "Já isso é do pessoal da Psicologia Organizacional, meu negócio é atender", etc.

Desconsiderar enquanto categoria de análise-intervenção os processos que fogem às cercas-psicologizadas das coisas-psi só produz reducionismos de uma profissão. 

Questionar-Tensionar acerca da implicação ético-política nunca é mero debate teórico que se esvazia numa problematização inócua. Sim, isso é um processo que transversaliza a formação das(os) psis, os sistemas conselho e num nível mais particular, um processo autocrítico da práxis psicológica a partir de questionamentos basilares.

O escudo argumentativo da neutralidade científica esconde, ora uma fragilidade técnico-assistencial, teórica e política, ora uma conivência com a manutenção do status quo de processos amplos de dominação e da Psicologia como profissão da tradicional família burguesa. 

Um certo afã pela imaginária (e irreal) postura a-política da Psicologia faz reverberar, por meio de seu silenciamento, a necessidade de ter o questionamento "qual a implicação ético-política da Psicologia?" como um norte sempre a nos guiar em nossa disposição à potência de transformação e na nossa des-posição ao poder de manutenção do status quo. 


Se afunda em seu próprio marketing

Dia desses tirei um tempo para acessar perfis profissionais de psicólogas(os) em redes sociais como Instagram, Facebook e Youtube. Comecei a perceber a maneira que a Psicologia é repassada nesses meios de comunicação para além da dureza normativa dos códigos de ética, pensei nas implicações do marketing da Psicologia.

Que tipo de Psicologia é passada nesses meios de comunicação? 

A tentativa de retirar a Psicologia de um pedestal e torná-la mais palatável por vezes é capturada por gourmetização que transforma a Psicologia num arsenal de frases prontas que pouco ou nada se diferencia da AUTOAJUDA.

Em alguns dos canais, o foco nos aspectos sintomatológicos como uma isca-marketing para conseguir novos clientes (no sentido mais econômico e menos rogeriano da palavra); “Veja esses sintomas, se você se identificar com a maioria você pode estar com depressão.#façapsicoterapia”.

É tênue o limiar entre a propaganda que aproxima a psicologia do mundo virtual e a banalização das técnicas psi ademais, há um recorte da psicologia a partir da esfera da clínica tradicional, visto que a resposta para os “problemas” colocados é #façaterapia

Pensando nos atravessamentos econômicos e sociais do sofrimento enquanto categoria biopolítica e não meramente como acessório intrapsíquico inscrito numa região acessível apenas ao psicólogo via terapia. “Propaganda é a alma do negócio”, mas quando a Psicologia vira mero negócio se perde o aspecto ético-político com a sociedade em nome de mais likes, mais compartilhamentos, mais clientes.

Diante da banalização da esfera psi e seus atravessamentos diversos, por vezes silenciados, me pergunto o que diferencia a psicologia autoajuda das redes sociais e um coach ou um youtuber que faz um vídeo copiando sintomas do google e no final fala “procure um psicólogo”.

Mais importante do que as pessoas irem ao Psicólogo é a Psicologia ir às pessoas, SEMPRE se questionando como a Psicologia chega nas pessoas.

Porque não é suficiente dizer por um lado “Psicologia não é coisa de louco” sem se questionar que tipo de narrativas se produz sobre a Loucura, nem tampouco interferir na indústria da loucura, na psicopatologização da sociedade.

De que adianta dizer “PSICOLOGIA NÃO É COISA DE LOUCO” e ser conivente ou ser mais um vetor da medicalização e psicologização da sociedade, buscando encarar fatos complexos por uma via da saúde mental ora nosológica ora por categorias individualizantes e mercadológicas como a famigerada RESILIÊNCIA ou ainda pior #PsicologiadoAmor.

Mais importante do que investir na PROPAGANDA é investir na implicação ético-política da Psicologia com a sociedade.

Neutralidade: Toda Psicologia Gourmet se crê como Neutra

Não acredito numa Psicologia que não se posiciona diante de um projeto político que desrespeita a democracia, que imprime nítidas ações de retrocesso na saúde, na educação, nos direitos humanos, na previdência social. Colocar citação do código de ética de maneira descontextualizada, reduzindo a situação política atual a um plano puramente partidário é de uma ignorância política preocupante. Se é para citar o Código de Ética da Psicóloga(o), então: “O psicólogo atuará com responsabilidade social, analisando crítica e historicamente a realidade política, econômica, social e cultural.” 

Qual a responsabilidade social das(os) profissionais que veem direitos sendo desrespeitados e se negam a se posicionar em nome de uma dita neutralidade, uma independência.

Acredito numa Psicologia de implicação política, que tem compromisso social e interfere diante das questões que afetam a sociedade e produzem sofrimento, segregação, violência e morte de maneira velada ou direta. 

Afinal, dissociar elementos sociais, econômicos, políticos, culturais da produção dos processos de saúde e de sofrimento é uma das questões mais ultrapassadas (no entanto, ainda muito comuns). Na Contemporaneidade, me é difícil crer numa Psicologia que se volta apenas para elementos individualizantes, intrapsíquicos de um questionável “sujeito psicológico” e negligencia todos os outros vetores que atravessam a produção de subjetividades. Quando o plano político passa a interferir na qualidade da educação, da saúde, dos direitos humanos deixa de ser um território meramente partidário e passa a ser um compromisso com a cidadania, com a sociedade. E se esconder atrás de uma neutralidade (que não passa de um mito) é subterfúgio para endossar discurso de opressor. Não há neutralidade, quando você se furta de posicionar já está do lado do poder dominante!

As psicologias dóceis e a medicalização da vida


Paira erroneamente no imaginário das(os) psicólogas(os) a ideia de que existe uma Psicologia neutra, que trata apenas dos fatos psi.

Desconsiderando de forma incipiente que:
a) os fatos psi não existem por si, ou seja, não há subjetividade intrapsíquica dissociada de fatores sociais, culturais, econômicos, étnicorraciais, de gênero e sexualidade. Sendo o que se chama subjetividade algo que nunca cessa de se transmutar, tendo esses vetores supracitados como produtores de processos de mutação.
b) é simplesmente impossível ter uma postura neutra diante do cuidado com esses fenômenos, processos psicossociais.
Assim, há que se pensar no posicionamento político que a Psicologia vem tendo em suas práticas. A lembrar que a história da Psicologia tem marcas de um passado (e de um presente) muito atrelado às capturas dos setores majoritários, reforçando práticas de tortura na ditadura, sendo conivente com racismo, machismo, lgbtfobia e o genocídio de pessoas em manicômios bem como a manutenção do status quo da tradicional família burguesa.

E quando se fala em política, evidentemente não se trata da política partidária. Todo ato é político. Dessa forma, existem atos (inclusive os atos de permanecer indiferente) que reforçam processos de opressão, violência, desrespeito ou, por outro lado, lutam contra eles.

Historicamente as Psicologias tem focado seu campo de ação em esferas reduzidas e derivadas, como a clínica ~individual~, as terapias familiares. Tendo como foco um "problema" já constituído. Problema este que muito geralmente ganha o NOME de Transtorno Mental. Já nos é sabido que o ato de decalcar um processo multifatorial na ordem de um desequilíbrio químico e, por meio de uma concatenação de signos sintomatológicos, é transformado numa: ~doença~.

Assim, o psiquismo se transforma em cérebro e o sofrimento se resume a uma oscilação de dopamina, serotonina, etc. Essa análise simplista é como fotografar em preto e branco um processo que se movimenta e se retroalimenta por diversas mãos, cores, processos.

Reduzir elementos de produção de subjetivação com suas interferências sociais, políticas, econômicas, étnicorraciais, de sexualidade é uma forma interesseira e interessada de operar com a vida tornada um poço de niilismo.

Há, de forma politicamente inscrita e posta, uma ilusão de NORMALIDADE que por parâmetros diferentes define o que deve ser considerado NORMAL (e logo saudável) e o que deve ser considerado ANORMAL (logo doente).

E assim, essa lógica embriagada por uma UNIVERSALIDADE risível vem produzindo cada vez mais pessoas fora da CURVA, DA BORDA, DO ENTORNO, DA FÔRMA.

Os trans-bordos da existência, os trans-en-tornos mentais.

Da forma mais rudimentar que o pareça, às vezes a Psicologia se situa como um tapa buracos que ela mesma colabora em criar (por suas atitudes ou pela falta delas). Na definição de um transtorno, há uma produção de (des)lugares enorme. Então o psicólogo se tornou (nas palavras de Estamira) um copiador, um copia-dor! Que vive de fazer cópia de um modelo tido como universal, que desconsidera a pluralidade da subjetividade em nome da norma. Ficando preso a ~resolver, ajustar, renormatizar o que já perdeu~.

No entanto, a Psicologia se mostra um animalzinho dócil diante dos processos de produção de sofrimento. Cruza seus braços diante da política, cala-se diante das máquinas capitalísticas (e por sua vez machistas, racistas, microfascistas). Protegidos pelo escudo da ~neutralidade~ e empenhados em concentrar suas forças numa briguinha epistemológica que alcança tudo, menos as vidas.

Assim, há que se pensar no compromisso social da Psicologia enquanto saber que se articula com a sociedade, pensar nos processos que permeiam a medicalização, a psicopatologização e a medicamentalização, das quais a Psicologia tem se tornado não só bem aprisionada como também produtora de processos de psicologização.

Muito mais importante do que CORRIGIR o que DISSERAM que É uma doença são as formas de resistir ao que produz processos de sofrimento, violação e opressão!

Não precisamos mais de pedestais e caras-de-paisagem, enquanto tem pessoas sendo violentadas (física e emocionalmente), enquanto não existe justiça social, enquanto a desigualdade grita, enquanto a precarização do trabalho se apresentar como um processo multidimensional de institucionalização da instabilidade, enquanto há microfascismos por todos os lados.

Antes de qualquer coisa, nós psicólogas(os), precisamos nos perguntar: a serviço de quem direciono a minha atuação?




Benivaldo do Nascimento Junior

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Percepção - Hyppolite

Assim, nossa percepção exterior é um sonho de dentro que se encontra em harmonia com as coisas de fora; e, ao invés de dizer que alucinação é uma percepção exterior falsa, é preciso dizer que a percepção é uma alucinação verdadeira (p. 13)54 

TAINE, Hyppolite. (1870) De l’intelligence. Tome Premier. Paris, Librarie Hachette, 1892a. Disponível em www.gallica.bnf.fr
Aqui estou antes de lançar minha 'Causa Freudiana'; sou freudiano; por isso, creio ser bem-vindo lhes dizer algumas palavras sobre o debate que mantenho com Freud há algum tempo; vou lhes resumir
isso. 

[...] Pois bem, meus três não são os de vocês. Meus três são o real, o simbólico e o imaginário. Situei-os numa topologia – a do nó dito borromeano, o qual coloca em evidência a função do ao-menos-três:
aquele um ata os outros desatados. Dei isso aos meus; dei-lhes para que o reencontrem na prática – mas será que o reencontrarão melhor do que na tópica legada por Freud aos seus? 

[...]É preciso dizê-lo: o que Freud esboçou com sua tópica (dita segunda) é muito desajeitado; imagino que era para se fazer entender, dados os limites de seu tempo; mas, de preferência, não podemos nos
aproveitar do que lá é representado, aproximando-o de meu nó?

Lacan, J. Seminário de Caracas, 1980


quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Multiplicidade e Duração

É, por estes cristais bem recortados e este congelamento superficial, uma continuidade que se escoa de maneira diferente de tudo o que já vi escoar-se. É uma sucessão de estados em que cada um anuncia aquele que o segue e contém o que o precedeu. A bem dizer, eles só constituem estados múltiplos quando, uma vez tendo-os ultrapassado, eu me volto para observar-lhe os traços. Enquanto os experimentava, eles estavam tão solidamente organizados, tão profundamente animados com uma vida comum, que eu não teria podido dizer onde qualquer um deles termina, onde começa o outro. Na realidade, nenhum deles acaba ou começa, mas todos se prolongam uns nos outros (BERGSON, 1974, p. 22).

Bergson, segundo Deleuze (1989, p. 29), chega à noção de multiplicidade qualitativa não somente por oposição à multiplicidade numérica, mas a partir da distinção entre sujeito e objeto. O objeto é aquele que pode ser dividido infinitas vezes, sem se desnaturar, conseqüentemente, um objeto ao dividir-se somente muda de grandeza, não muda de natureza. Este objeto será chamado, então, de multiplicidade numérica, porque segue o modelo do número que se divide sem mudar de natureza. Mesmo que estas divisões não cheguem a se realizar, mas somente sejam pensadas como possíveis, o aspecto total do objeto não muda, pois somente o seu grau varia. Por outro lado, podemos pensar um tipo de "divisão" da duração psicológica ocorrendo no sujeito, num sentido metafórico e não espacial de divisão. A vida psíquica, apesar de contínua, é múltipla em seus aspectos, portanto, e de certa forma, divide-se para formar uma multiplicidade. Entretanto, esta divisão é muito especial porque a duração ao dividir-se muda de natureza; se não mudasse permaneceria homogênea e seria, então, uma multiplicidade numérica. A verdadeira duração é heterogênea e a cada divisão podemos no momento considerá-la como indivisível. Nesta divisão, que na realidade é uma mudança essencial, surge "o outro" sem que com isto venham a existir "muitos" no sentido numérico, porque os "muitos" estados fundem-se num só e cada novo estado de consciência toma conta da alma inteira, resultando num mesmo e único estado que dura. Assim, a multiplicidade qualitativa consegue conciliar características aparentemente divergentes da duração psicológica: a heterogeneidade e a continuidade.

ROSSETTI, Regina. Bergson e a Natureza Temporal da Vida Psíquica. Psicol. Reflex. Crit., Porto Alegre , v. 14, n. 3, p. 617-623, 2001 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-79722001000300017&lng=en&nrm=iso>. access on 15 Nov. 2019. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79722001000300017.

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

The post-orgasmic prolactin increase following intercourse is greater than following masturbation and suggests greater satiety

The post-orgasmic prolactin increase following intercourse is greater than following masturbation and suggests greater satiety

Abstract

Research indicates that prolactin increases following orgasm are involved in a feedback loop that serves to decrease arousal through inhibitory central dopaminergic and probably peripheral processes. The magnitude of post-orgasmic prolactin increase is thus a neurohormonal index of sexual satiety. Using data from three studies of men and women engaging in masturbation or penile–vaginal intercourse to orgasm in the laboratory, we report that for both sexes (adjusted for prolactin changes in a non-sexual control condition), the magnitude of prolactin increase following intercourse is 400% greater than that following masturbation. The results are interpreted as an indication of intercourse being more physiologically satisfying than masturbation and discussed in light of prior research reporting greater physiological and psychological benefits associated with coitus than with any other sexual activities.
Stuart Brody, Tillmann H.C. Krugers. Brody, T.H.C. Kruger / Biological Psychology 71 (2006) 312–315
Simultaneous Penile–Vaginal Intercourse Orgasm is Associated with Satisfaction (Sexual, Life, Partnership, and Mental Health)


Introduction.
Previous multivariate research found that satisfaction was associated positively with frequency of
specifically penile–vaginal intercourse (PVI; as opposed to other sexual activities) as well as with vaginal orgasm. The contribution to satisfaction of simultaneous orgasm produced by PVI merited direct examination in a large representative sample.
Aims.
To examine the associations of aspects of satisfaction (sexual, life, own mental health, partner relationship) with consistency of simultaneous orgasm produced by PVI (as well as with PVI frequency and vaginal orgasm consistency).
Methods.
A representative sample of Czechs (N=1,570) aged 35–65 years completed a survey on aspects of
satisfaction, PVI frequency, vaginal orgasm consistency, and consistency of simultaneous orgasm produced by PVI (the latter being a specially timed version of vaginal orgasm for women).
Main Outcome Measures.
Analysis of variance of satisfaction components (LiSat scale items) from age and the
sexual behaviors.
Results.
For both sexes, all aspects of satisfaction were associated with simultaneous PVI orgasm consistency and with PVI frequency (except female life satisfaction). All aspects of satisfaction were also associated with vaginal orgasm consistency. Multivariate analyses indicated that PVI frequency and simultaneous orgasm consistency make independent contributions to the aspects of satisfaction for both sexes.
Conclusions.
For both sexes, PVI frequency and simultaneous orgasm produced by PVI (as well as vaginal orgasm
for women) are associated with greater life, sexual, partnership, and mental health satisfaction. Greater support for these specific aspects of sexual activity is warranted.

Brody S and Weiss P. Simultaneous penile–vaginal intercourse orgasm is associated with satisfaction (sexual, life, partnership, and mental health). J Sex Med 2011;8:734–741.