quarta-feira, 6 de abril de 2022

Gilles Deleuze: Duas questões sobre a droga.



 

Gilles Deleuze: Duas questões sobre a droga.

por Gilles Deleuze | Trad.: Guilherme Ivo

São apenas duas questões. Vê-se muito bem que não se sabe o que fazer com as drogas (mesmo os drogados), mas também não se sabe como falar delas. Ora se invocam prazeres, difíceis de descrever e que já supõem a droga. Ora, ao contrário, invocam-se, causalidades demasiadamente gerais, extrínsecas (considerações sociológicas, problemas de comunicação e de incomunicabilidade, situação dos jovens, etc.). A primeira questão seria: Será que há uma causalidade específica da droga, e será possível procurá-la por esse lado?

Causalidade específica não quer dizer “metafísica”, tampouco exclusivamente científica (por exemplo, química). Não é uma infraestrutura cujo resto dependeria como de uma causa. Antes seria traçar um território, ou o contorno de um conjunto-droga, que estaria entrelaçado, por um lado, ao interior, com as diversas espécies de drogas e, por outro, ao exterior, com as causalidades mais gerais. Pego um exemplo de um domínio totalmente outro, o da psicanálise. Tudo o que pode ser dito contra a psicanálise não anula o seguinte fato: que ela buscou estabelecer a causalidade específica de um domínio, não apenas o domínio das neuroses, mas de formações e produções psicossociais de toda sorte (sonhos, mitos…). Pode-se dizer, de maneira bastante sumária, que ela traçou a causalidade específica como sendo o seguinte: mostrar a maneira pela qual o desejo investe um sistema de vestígios mnésicos e de afetos. A questão não é saber se essa causalidade específica era justa; seja como for, a busca por tal causalidade existia, e com ela a psicanálise fez com que abandonássemos as considerações demasiadamente gerais, mesmo que caíssemos em outras mistificações. O fracasso da psicanálise, relativamente aos fenômenos da droga, mostra muito bem que, na droga, trata-se de toda uma outra causalidade. Minha questão, porém, é esta: será possível conceber uma causalidade específica da droga, e em que direções? Por exemplo, na droga haveria algo de muito particular, nela o desejo investiria diretamente o sistema-percepção. Logo, seria totalmente diferente. Por percepção é preciso entender as percepções internas tanto quanto externas e, especialmente, as percepções de espaço-tempo. As distinções entre espécies de drogas são secundárias, interiores a esse sistema. Parece-me que as pesquisas, num certo momento, iam neste sentido: as de Michaux, na França, e, de um outro jeito, as da geração beat, na América, também as de Castañeda etc. Como todas as drogas primeiramente concernem às velocidades, às modificações de velocidade, aos limiares de percepção, às formas e aos movimentos, às micropercepções, à percepção devindo molecular, aos tempos sobre-humanos ou sub-humanos etc. Sim, como o desejo entra diretamente na percepção, investe diretamente a percepção (daí o fenômeno da dessexualização na droga). Tal ponto de vista permitiria achar o liame com as causalidades exteriores mais gerais, todavia sem perder-se nelas: assim, o papel da percepção, a solicitação da percepção nos sistemas sociais atuais, que faz com que Phil Glass diga que, de todo jeito, a droga mudou o problema da percepção, mesmo para os não-drogados. Mas tal ponto de vista também permitiria dar maior importância às pesquisas químicas, sem o risco, no entanto, de cair numa concepção “cientificista”. Ora, se é verdade que se esteve nessa direção, de um sistema autônomo Desejo-Percepção, por que hoje em dia parece que ela foi abandonada, ao menos parcialmente? Especialmente na França? Os discursos sobre a droga, dos drogados e dos não-drogados, dos médicos e dos usuários, recaíram numa confusão enorme. Ou seria então uma falsa impressão e não há como buscar uma causalidade específica? O que me parece importante na ideia de uma causalidade específica é que ela é neutra e vale tanto para o uso das drogas quanto para uma terapêutica.

A segunda questão seria dar conta do “revertério” da droga, em qual momento esse revertério sobrevém. Será que ele sobrevém tão rapidamente e de tal maneira que o fracasso ou a catástrofe façam necessariamente parte do plano-droga? É como um movimento “acotovelado”. O drogado fabrica suas linhas de fuga ativas. Essas linhas, porém, enrolam-se, põem-se a rodopiar em buracos negros, cada drogado em seu buraco, grupo ou indivíduo, como um caramujo. Mais afundado que chapado. Guattari falou disso. As micropercepções são recobertas de antemão, segundo a droga considerada, por alucinações, delírios, falsas percepções, fantasias, acessos paranoicos. Artaud, Michaux, Burroughs – que sabiam do que falavam – odiavam essas “percepções errôneas”, esses “sentimentos ruins”, que de uma só vez lhes pareciam ser uma traição e, no entanto, uma consequência inevitável. É também aí que todos os controles estão perdidos e que se instaura o sistema da dependência abjeta, dependência a respeito do produto, da dose, das produções fantasmáticas, dependência a respeito do traficante etc. Seria preciso, abstratamente, distinguir duas coisas: todo o domínio das experimentações vitais, e o das empreitadas mortíferas. A experimentação vital é quando uma tentativa qualquer lhe pega, se apodera de você, instaurando cada vez mais conexões, abrindo-lhe a conexões: tal experimentação pode comportar um tipo de autodestruição, ela pode passar por produtos de acompanhamento ou de arrebatamento, tabaco, álcool, drogas. Ela não é suicida, porquanto o fluxo destruidor não se assenta sobre si mesmo, mas serve à conjugação de outros fluxos, sejam quais forem os riscos. Porém, a empreitada suicida, pelo contrário, é quando tudo está assentado sobre este único fluxo: “meu” tiro, “minha” sessão, “meu” copo. É o contrário das conexões, é a desconexão organizada. Em vez de um “motivo”, que serve aos verdadeiros temas, às atividades, um único e raso desenvolvimento, como numa intriga estereotipada, onde a droga existe pela droga e suscita um suicídio estúpido. Há somente uma linha única, ritmada pelos segmentos “paro de beber – recomeço a beber”, “não estou mais drogado – logo, posso retomar a coisa”. Bateson mostrou como o “não bebo mais” faz rigorosamente parte do alcoólatra, pois é a prova efetiva de que agora ele pode voltar a beber. Assim é com o drogado, que está sempre parando, pois é a prova de que é capaz de retomar. O drogado, nesse sentido, é o perpétuo desintoxicado. Tudo é assentado sobre uma linha morna suicida, com dois segmentos alternativos: é o contrário das conexões, das linhas múltiplas entremisturadas. Narcisismo, autoritarismo dos drogados, chantagem e veneno: eles se juntam aos neuróticos, em sua empreitada para aborrecer o mundo, para espalhar seu contágio e impor os seus casos (de pronto, mesma empreitada da psicanálise como pequena droga). Ora, por que, como se faz essa transformação de uma experiência, mesmo que autodestrutiva, porém viva, em empreitada mortífera de dependência generalizada, unilinear? Será ela inevitável? Se há um ponto preciso de terapêutica, é aqui que ele deveria intervir.

Talvez meus dois problemas se juntem. Talvez seja no nível de uma causalidade específica da droga que se poderia compreender por que as drogas acabam tão mal e desviam sua própria causalidade. Uma vez mais, que o desejo invista diretamente a percepção é algo muito surpreendente, muito belo, uma espécie de terra ainda desconhecida. Mas as alucinações, as falsas percepções, os acessos paranoicos, a longa lista das dependências, isso é por demais conhecido, mesmo que seja renovado pelos drogados, que se arvoram de experimentadores, cavaleiros do mundo moderno, ou doadores universais da má consciência. De um ao outro, o que ocorre? Será que os drogados não se serviriam da ascensão de um novo sistema desejo-percepção para tirar disso o seu proveito e fazer a sua chantagem? Como os dois problemas se entremeiam? Tenho a impressão de que, atualmente, não se avança, não se está fazendo um bom trabalho. O trabalho. O trabalho certamente está em outro lugar que não nessas duas questões, porém, atualmente, nem mesmo se compreende onde poderia estar. Os que conhecem o problema, drogados ou médicos, parecem ter abandonado as pesquisas, para si próprios e para os outros.

Gilles Deleuze


Notas

  1. Texto extraído do livro Dois Regimes de Loucos: textos e entrevistas (1975 – 1995). (São Paulo: Editora 34, 2016, pp. 158-62.)
  2. Título do editor francês para o original “Deux questions”, in François Châtelet, Gilles Deleuze, Erik Genovois, Félix Guattari, Rudolf Ingold, Numa Musard e Claude Olievenstein,… Où il est question de la toxicomanie, Alençon, Bibliothèque des Mots Perdus, 1978.
  3. Este texto servirá a Deleuze e Guattari posteriormente, no platô Devir-intenso, devir-animal, devir-imperceptível de Mil Platôs, mais especificamente nas “Lembranças de uma molécula” (Paris, Éditions de Minuit, 1982, pp. 333-51). Edição brasileira, Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia (São Paulo, Editora 34, 1997, vol. 4, pp. 63-81).



terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Perversão: uma clínica possível

 Perversão: uma clínica possível

 

Alberto Henrique Azeredo CoutinhoI; Ana Cristina Teixeira da Costa SallesII; Berenicy Raelmy SilvaIII; Eliana Maria DelfinoIV; Eliane Mussel da SilvaV; Geraldo de MoraesVI; Marília Brandão Lemos MoraisVII; Suzanne Beaudette DrummondVIII

Círculo Psicanalítico de Minas Gerais

 

 


RESUMO

A clínica da perversão apresenta inúmeras dificuldades à psicanálise, seja pelas características próprias da estrutura perversa, fundada no mecanismo da recusa da castração, seja pela ineficácia da neutralidade e associação livre neste trabalho. Revendo a literatura existente e recorrendo à própria experiência clínica, os autores propõem uma estratégia diferente para o manejo da transferência, buscando viabilizar o trabalho clínico e uma saída para a posição paralisante de moralista e/ou voyeur na qual o analista é colocado pelo perverso a fim de desestabilizar o processo analítico. Propondo uma posição alternativa ao "semblant" de "sujeito-suposto-saber", os autores apostam numa possível clínica da perversão, podendo daí advir um sujeito menos cativo de sua cena fantasmática.

Palavras-Chave: Clínica da perversão, Transferência, Estratégia, Tática, "Sujeito-suposto-saber", "Sujeito-suposto-saber-fazer", Desejo de analista


ABSTRACT

Clinical work with perverse patients presents numerous difficulties to psychoanalysis, be that due to the characteristics typical of the perverse structure, which is founded on the mechanism of disavowal, or be that due to the inefficiency of neutrality and free association in this kind of practice. A study of existent literature on the subject and a thorough examination of their own clinical findings led the authors to propose a different form of strategy for dealing with transference that would make clinical work with these patients plausible and indicate options for the paralyzing position which is imposed on the analyst by the perverse patient in order to derange the analytic process. By proposing an alternative for the "semblance subject-supposed knowledge", the authors defend the idea that clinical work with perverse patients is possible, resulting in a subject less captive of the phantasmagoric scene.

Keywords: Clinical work with perverse patients, Transference, Strategy, Tactics, Subject-Supposed-Knowledge, Subject-Supposed-Knowledge-on-doing, Analyst's wish


 

 

Introdução

A escolha da palavra perversão para nomear uma estrutura clínica caracterizada por um desvio sexual, denota um sentido pejorativo próprio de sua origem em latim: "ato ou efeito de perverter(-se); corrupção, depravação e desmoralização" (Aurélio:1318)1 Embora em psicanálise se fale da perversão apenas em relação à sexualidade, o sentido moral e ético ainda é marcado pelo conceito de perversidade.

No entanto, Freud já dizia (1905) que na vida sexual todos nós transgredimos os estreitos limites do que se considera normal. São suas as palavras: "As perversões não são bestialidades nem degenerações no sentido patético dessas palavras. São o desenvolvimento de germes contidos, em sua totalidade, na disposição sexual indiferenciada criança...". Mais adiante, acrescenta: "Todos os psico-neuróticos são pessoas de inclinações perversas fortemente acentuadas, mas recalcadas e tornadas inconscientes no curso do seu desenvolvimento. Por isso suas fantasias inconscientes exibem um conteúdo idêntico ao das ações documentadas nos perversos"...2

Assim, concluímos que a presença do ato perverso na vida sexual não implica a existência de estrutura perversa. O sujeito neurótico pode apresentar uma montagem perversa para solução do problema edipiano, ou como forma de evitar a dor psíquica revelando com isso traços perversos. O processo analítico com este tipo de paciente difere radicalmente do trabalho realizado com pacientes de estrutura perversa, propósito deste trabalho.

No trabalho clínico com pacientes perversos, deparamos-nos com manifestações hostis e desqualificativas que dificultam nossa função de escuta psicanalítica, pois repetidamente o analista se encontra enlaçado como objeto real de gozo.

Sabe-se, ainda, que o perverso verdadeiro dificilmente busca a psicanálise, mesmo porque a prática perversa lhe garante o acesso ao gozo. Como Freud nos ensina, o objeto fetiche, além de assegurar o prazer sexual, ainda é considerado salutar e propício ao fetichista. Quando, porventura, acon-tece dele procurar um analista, não é em função da sua prática sexual. Se na neurose o sujeito se questiona a respeito do seu desejo - "Que queres?", "Que quero?" -, na perversão não existe uma pergunta, mas uma resposta sobre o desejo.

Na perversão, o desejo aparece como vontade de gozo e o ato é viven-ciado como vitorioso triunfo isento de qualquer sentimento de culpa. O perver-so sabe o que quer e isto é a base da sua arrogância, já que está convencido de saber a verdade sobre o gozo. Desta forma, ele não está à mercê das apreensões, inibições, recriminações, auto-acusações e frustrações que angustiam o sujeito neurótico. Pelo contrário, o perverso não se penaliza e ainda vê o sofrimento do neurótico com desprezo. Para ele o neurótico é um indivíduo que não sabe o que quer, que não sabe gozar.

Jacques-Alain Miller (1989:356-357) ressalta que "o perverso é aquele que tem a resposta que demonstra o real do seu gozo como constante, assegurado e sempre pronto para ser utilizado"3. Ele está constantemente a postos para o ato, agindo sempre na hora certa. Por sua vez, o neurótico mede o tempo e seleciona criteriosamente sua hora de agir, pois ele é um sujeito de falta, de desejo; a ele são impostos os intervalos do véu da alienação.

De acordo com o que foi assinalado, se o que está em jogo é o gozo, não há demanda de análise. O sujeito perverso sabe o que fazer, não se interroga, realiza o ato e o repete reiteradamente. Quando a relação com o gozar é perturbada (como, por exemplo, ocorre com o rompimento de contrato por parte do parceiro ou, ainda, quando se deu o advento da Aids e suas mortais conseqüências), a ruptura da montagem perversa desestabiliza o sujeito possibilitando o surgimento da angústia, da loucura ou da depressão. Nesses momentos o perverso pode buscar um analista, mas como será sua relação com ele? Como se manifesta a transferência no sujeito perverso?

 

A posição subjetiva do perverso na relação analítica

O que o perverso quer do analista? Aliviar-se de algum mal-estar momentâneo, sem que esteja disposto a abrir mão de seu gozo mortífero? Utilizar-se da análise como um álibi contra possíveis implicações médico-legais de seus atos eventualmente criminosos, deles fazendo o analista um cúmplice? Como mestre da retórica, apropriar-se do discurso analítico para refinar sua tarefa inesgotável de desafiar a lei, através da busca do gozo a qualquer custo? Reverenciar essa mesma lei (representada pelo analista), confessando-lhe suas condenáveis "encen-ações reais", só para poder desafiá-la novamente a cada relato interminável e, assim, fantasmaticamente triunfar sempre sobre a castração? Formar um par perverso com o analista, deslocando-o do lugar da escuta e reduzindo-o a um mero ouvinte e voyeur de seu monólogo exibicionista?

Em qualquer dessas demandas, a transferência é minada em sua função de suporte para a interpretação, dando lugar a uma relação estéril com o analista, da qual o perverso busca sempre auferir algum lucro que atenda seu propósito de manter o controle. As regras da associação livre e da neutralidade revelam-se inúteis para o trabalho analítico; a primeira por ser sistematicamente desrespeitada pelo analisando e substituída pelo relato compulsivo e inflexível de suas "encenações reais", e a segunda por instalar o analista exatamente no lugar de ouvinte passivo e de cúmplice que o perverso lhe aponta e manobra para mantê-lo. Assim, o perverso desafia o psicanalista em sua práxis e em sua ética, reeditando no real de suas "encen-ações" a recusa à castração que a análise ameaça impor-lhe pela via do simbólico.

Essa recusa é sustentada à custa de um imenso e desgastante investimento psíquico que se defronta porém com uma realidade da qual eventualmente o perverso pode perceber que, mesmo ele, não pode escapar: a inexorabilidade do tempo. A decadência física e a falibilidade do corpo, do qual se utiliza impiedosamente na repetição de suas encenações na busca compulsiva pelo gozo, acabam por confrontá-lo com o horror inconsciente de não poder depender delas indefinidamente para escapar da angústia, da loucura e da melancolia, que a perversão manteve afastadas até então. Este ponto limite - que ocasionalmente pode levar o perverso a procurar um analista ou que pode surgir no curso de sua análise - é exatamente a possível fenda que abala toda sua estrutura defensiva e através da qual pode-se entrever alguma possibilidade de subjetivação e de uma verdadeira demanda de trabalho analítico.

Entretanto, esse trabalho pode ser intolerável para o perverso por implicar sofrimento psíquico, sempre por ele negado por meio do mecanismo da recusa. Quando a crença ilusória é colocada à prova pela realidade, surge uma imensa angústia pois, como disse Flavio Ferraz (2000:98), "não é só sua vida sexual que foi construída sobre o alicerce da clivagem, mas sim toda sua superfície identificatória"4.

O trabalho de subjetivação o obrigará a abandonar, pelo menos parcialmente, o gozo proveniente do seu ato impostor. Como ilusionista, o perverso é mestre em posicionar o outro de forma a se impor ao seu olhar. Seu intento, ao designar ao analista o lugar de espectador, é o de paralisá-lo. O êxito da análise, num primeiro momento, depende de o analista tolerar o discurso de um paciente que se mantém no mundo da ilusão. O sexo explícito e o horror reluzente, próprios do discurso perverso, fascinam e ameaçam quem o ouve, colocando o "desejo de analista" à prova, fazendo com que o analista se sinta questionado em seu saber.

Na relação analítica é comum escutarmos o perverso utilizando o vocabulário psicanalítico, contudo sem a intenção de estabelecer uma interlocução. Sua fala, como bem apontou François Perrier (Clavreul, 1900:154)5, permanece "inarticulável", podendo ser vista como um desafio, uma manobra de redução do terceiro ou uma sedução. A transferência por ele montada é de ordem narcísica, ele nega ao analista o pedestal do "sujeito-suposto-saber". As intervenções do analista que desnudam a clivagem do perverso são declinadas visto que, para ele, é primordial se manter fora do campo do Outro, pois é lá que reside a angústia - portão de entrada do desejo.

O discurso do perverso é uma fala vazia de sentido que exclui a angústia e condena o desejo a circular fora da cadeia discursiva. Ele sustenta seu desejo pelo gozo, sustenta sua vontade de gozo com o ato. No confronto entre a palavra e o ato prevalece, no perverso, "a ostentação demonstrativa da sua aposta em ato"6. Este permite que ele alcance o próprio gozo, ao mesmo tempo em que sustenta o gozo do Outro. Ou seja, o perverso se faz objeto a serviço do gozo do Outro, ele se dedica a tamponar a falta, o furo do Outro para que exista como sujeito não barrado ( aS ). Assim, o gozo do perverso depende do não-consentimento do outro e advém da dor provocada no parceiro.

Da mesma forma como age com seu par, o perverso reedita na cena analítica sua vontade de gozo. Por privilegiar uma Lei recusada que o persegue, uma cultura narcisista que o determina, ele procura definir as regras do jogo e manter o controle do setting analítico. A conjunção dos elementos que caracterizam a relação transferencial na análise do perverso acaba por encurralar o analista entre duas possíveis posições polarizadas, ambas dissonantes com a ética da Psicanálise: a de moralista e regulador (S2) ou a de cúmplice e voyeur (a). Assim, a transgressão e o desafio contumaz à lei por parte do perverso, o sistemático desrespeito à "regra fundamental" da associação livre e sua substituição pela confissão repetitiva e monótona de suas "encen-ações", e o seu absoluto desprezo pelo "sujeito-suposto-saber" dificultam ou impossibilitam ao analista ocupar sua posição. Em vez de semblant de objeto, o analista é tomado pelo perverso como mais um objeto real de gozo (a), ao ser por ele instalado na posição masoquista de ouvinte passivo, cúmplice e voyeur do seu discurso exibicionista. Ou, na tentativa de escapar desta posição paralisante e diante da pobreza simbólica e fantasmática do discurso perverso, o analista pode flagrar-se na posição sádica de moralista e regulador (S2), o que estimula o desafio da transgressão perversa e alimenta a perpetuação do gozo.

Basculando entre estas duas posições, o analista é destituído de seu lugar e portanto de sua função, havendo o risco de estabelecer uma relação dual com o perverso na qual desaparece o "desejo de analista". É precisamente neste ponto que ele desmonta o dispositivo analítico e questiona seu arcabouço teórico.

Assim, o grande desafio que se impõe ao analista no trabalho com o perverso é o de achar uma posição que lhe permita aproveitar aquilo que o sujeito traz além do relato de suas "encen-ações". Desafio que passa necessariamente por um posicionamento teórico e técnico diverso daquele consagrado no trabalho analítico com o neurótico.

 

Uma clínica possível

Lacan teorizou que a direção do tratamento psicanalítico, em analogia às guerras, comporta os níveis da política, da estratégia e da tática. Neste sentido, ética, manejo da transferência e interpretação são, respectivamente, os princípios que devem nortear o analista no embate que se trava, no setting analítico, entre o "desejo de analista" e as resistências do paciente. Se para a análise do neurótico obtemos uma satisfatória eficácia clínica, no trabalho com o perverso as questões técnicas são frontalmente questionadas e minadas pela posição ocupada pelo paciente e por aquela na qual ele busca manter o analista. Este, se for aprisionado pelo discurso perverso nas posições de moralista/regulador ou de cúmplice/voyeur, se verá incapaz de interpretar e será manejado na transferência, incorrendo no risco de perder até mesmo o princípio ético central de seu trabalho: o amor à verdade.

Qual seria a estratégia adequada à análise na perversão?

Se para o neurótico a estratégia analítica se baseia na instalação de uma neurose de transferência que permite a interpretação ao longo do deslizamento da cadeia significante, na análise do perverso a estratégia é outra. No lugar do material simbólico (sintomas, sonhos, associações), ele oferece ao analista o real de suas "encen-ações", que carecem do duplo sentido que propicia a intervenção interpretativa pela palavra. Intitulando-se mestre do gozo e lutando por manter a angústia no campo do Outro, o perverso recusa ao analista o pedestal do "sujeito-suposto-saber". Esse paciente não busca uma cura para seu sintoma, tampouco um saber sobre seu desejo, a ele só interessa fazer o outro gozar. Portanto, a "moeda de troca" na relação transferencial com perversos não pode se situar preferencial ou exclusivamente no plano simbólico como na análise com neuróticos.

A perspicaz observação de Jean Claude Maleval (1998:22), ao confrontar as estruturas clínicas em suas relações com o gozo, nos indica um caminho para o manejo da transferência com perversos. Esse autor pontuou que, se o psicótico tem uma relação de certeza quanto ao gozo do Outro e o neurótico mantém uma posição de suposição sobre esse gozo, o perverso testemunha um saber fazer so-bre o gozo em sua interação com o outro7.

A idéia, aqui defendida, é de se buscar, na análise do perverso, a instalação do "Sujeito-suposto-saber-fazer". A atribuição de um "saber fazer" propiciaria ao analista intervir do lugar de detentor de um saber sobre o que o perverso deseja: gozar. Tal atribuição possibilitaria a emergência de uma relação transferencial que, se configurada, permitiria ao perverso supor que há um sujeito para além do seu "saber fazer". Conseqüentemente, haveria uma transformação da posição do sujeito com seu saber, até então absoluto. Um efeito da instalação da transferência seria a de levantar a suspeição sobre seu ato, deslocando para o que há de verdade no sujeito - a falta, desta maneira possibilitando-lhe o ingresso no campo do Outro.

As situações especialmente difíceis impostas ao trabalho analítico com o perverso exigem recursos táticos, diferentes da interpretação, que visem instaurar o "sujeito-suposto-saber-fazer" na posição do analista. Embora a Psicanálise seja uma clínica do singular, a experiência adquirida com a clínica da perversão permite prever uma gama de desafios endereçados ao analista pelo paciente, aos quais se deveria sempre responder de forma a sustentar a posição estratégica aqui defendida. Entre os possíveis recursos táticos para o manejo da transferência com perversos apontamos: a trivialização, a "douta ironia", o paradoxo, o humor, o ato analítico, o desvelamento da angústia, a atribuição de sentido e a restauração histórica.

As respostas do analista ao perverso na direção da cura dependem diretamente da posição que este ocupa em relação ao Outro. Assim, quando o perverso se posiciona enquanto encarnação do saber fazer gozar, é necessário que o analista suporte o jogo perverso no qual ele é chamado como parceiro, acolhendo o relato de suas encen-ações sexualizadas e violentas, confrontando o horror do gozo a partir do que podemos chamar da "trivialização na transferência". Recurso utilizado para atestar o caráter "prosaico" de suas encen-ações, levando o perverso a se questionar sobre este saber rígido e implacável que o escuda da desilusão, da angústia e, ainda lhe garante fazer o Outro gozar.

A mensagem que se pretende transmitir ao perverso, ao remeter seu discurso reluzente de horror à triviali-dade, é a de que seus atos não comportam a originalidade que ele lhes atribui, seja por sua repetição monótona denunciada pelo analista, seja porque este os escuta com o aparente desinteresse de quem "já sabe" sobre o que é relatado. Só se pode tratar como trivial aquilo que se domina. Agindo desta maneira em relação ao gozo, o analista esvazia o caráter precioso que o perverso dá às suas encen-ações, convidando-o a se questionar sobre elas e a perceber sua função de defesa contra a angústia.

A ironia pode constituir para o analista um valioso instrumento para lidar com o discurso paralisante do perverso. Proveniente do grego eiróneia e significando 'interrogação', a palavra denota um "modo de exprimir-se que consiste em dizer o contrário daquilo que se está pensando ou sentindo, ou por pudor em relação a si próprio ou com intenção sarcástica e depreciativa em relação a outrem" (Aurélio: 969). Porém, o sentido que pretendemos aqui utilizar se encontra na expressão ironia socrática, definida como um "modo de interrogar pelo qual Sócrates levava o interlocutor ao reconhecimento de sua própria ignorância" (idem), técnica que passou a ser conhecida como socratismo.

Lacan postulou que o analista escutasse o neurótico com "douta ignorância" sobre o que é dito. Tomando-lhe emprestado a expressão, sugerimos que na perversão o analista escute e construa suas intervenções sobre o conceito de "douta ironia" em relação ao ato perverso. Sem responder ao escárnio desafiante com que o paciente trata o saber do analista, o que se pretende, na mesma direção apontada pela "trivialização", é deslocar o discurso perverso da repetição de suas "encenações", abrindo espaço para um saber além do fazer gozar e para a verdade do sujeito.

Para que se vença o impasse analítico entre uma escuta acolhedora e conivente e a atitude moralista de denúncia de uma prática, propomos que o analista opere com um paradoxo: quando localizado pelo perverso na posição de cumplicidade, o analista deve fazer semblant do grande Outro, assim representando um saber fazer, porém com um poder que não subjugue o perverso e nem dele goze. Por outro lado, quando o perverso localizar o analista como moralista, detentor da lei, estrategicamente, este faria semblant do objeto, causa de desejo. Da posição de objeto, o analista apontaria para Outra cena, buscando a instalação do duplo sentido da dimensão simbólica: "o que quer com isso?".

Em se falando de recursos táticos, não podemos nos esquecer do humor, que por sua própria natureza é extremamente adequado ao trabalho com o perverso. Como bem apontou Freud, o humor utiliza o mecanismo de recusa para propiciar um deslocamento da dor. Intervir com humor, além de desarmar o confronto analítico, interpela a relação imaginária de cumplicidade do perverso, introduzindo uma relação outra de parceria. Ao compartilharem da jocosidade inerente ao humor, ocorre um reposicionamento do par e, conseqüentemente, um certo redimensionamento da angústia que se transfere em parte ao campo do paciente por não ser mais exclusiva do campo do outro. O dispositivo humorístico bem demonstra que a interdição do gozo não é decorrência de qualquer tipo de proibição por parte do analista; ela está articulada à função de regulação da lei na própria dimensão discursiva. A lei da qual falamos é a lei que regula o desejo; naturalmente ela barra o acesso do sujeito ao gozo, pois é o prazer como ligação à vida que barra o gozo.

O ato analítico é outro recurso indispensável à análise do perverso, pois por se situar praticamente fora do simbólico, no registro do real, o perverso manifesta em atos (encen-ações) aquilo que teria que ser dito em palavras. Considerando a primazia da clínica do real na perversão, faz-se necessário o trabalho com o tempo lógico e o corte de sessões a fim de deslocar o controle, privando o perverso do domínio da relação, tão essencial a ele. Sugerimos, ainda, o estabelecimento de um contrato flexível, com o uso opcional e/ou alternado do divã, procedimento que visa retificar a presença ou ausência do olhar do analista enquanto objeto fetichizado. Quando o perverso se posiciona enquanto objeto que instrumentaliza o nosso gozo e nos convoca como sujeito barrado para garantir - com a presença de nosso olhar - o seu gozo, devemos produzir um corte com nosso ato, criando um espaço vazio de qualquer significação, sustentando uma posição ética para fazer emergir algo da verdade encoberta por seu saber fazer. Contudo, a fragilidade da borda representacional exige que esse corte seja muito bem calculado a fim de evitar um colapso de seus limites de identidade e/ou uma fuga da análise.

Buscamos, com os recursos mencionados, uma subjetivação da posição perversa, ao preço da eclosão da angústia e de sua própria fragmentação, pois o risco de desmontagem da sua recusa fundamental sinaliza o perigo iminente de se haver com o desamparo absoluto vivenciado diante do "não saber".

De acordo com os princípios éticos que norteiam o nosso trabalho, enfatizamos que a posição do analista não é de mestria. Ao contrário, para a instalação da transferência na sua dimensão real, cabe ao analista emprestar palavras, boca e corpo - distintos do conjunto de órgãos com o qual o perverso costuma gozar - para delinear uma borda de contenção ao gozo mortal. É necessário que o analista, em seu trabalho, desempenhe o papel de escriba, ou seja: de registrar e testemunhar o trabalho que realiza o paciente para além da narrativa de suas encen-ações, resgatando a função da escuta. Enquanto escriba e testemunha, o analista deve religar os cacos da história relatada, construir juntamente com o sujeito e acompanhá-lo nessa construção para atribuição de um sentido. Para sustentar o desejo de analista, é imprescindível que se ofereça a via discursiva e um laço social que permita circunscrever o gozo do perverso, possibilitando, assim, um trabalho com o Inconsciente. Isto poderá levá-lo a construções que regulem, de certa forma, seu dilema com o gozo, o que não significa trocar o modo de gozar.

Podemos dizer que a estratégia do analista deve ser, além de desfazer a dessimetria da relação, a de devolver ao perverso uma certa autonomia ao libertar o sujeito de sua certeza quanto ao Outro que goza de pleno poder sobre ele. Diante do perverso que vem à análise contabilizar seu gozo, o analista deve administrar, em doses pequenas e suportáveis, o sentido de suas "encenações", costurando em sua história algo da sua verdade. Se o analista conseguir acenar-lhe com a possibilidade do desejo, que é uma articulação entre o gozo e o amor, pode ser que ele faça valer o "desejo de analista".

O trabalho analítico com o perverso deve propiciar uma saída pela vertente do amor: uma mudança na sua posição subjetiva que acarrete um movimento do pólo de gozo em direção ao pólo de amor. A circunscrição do gozo abre uma janela em seu cárcere gozoso, permitindo o advento de um sujeito não mais cativo de sua cena fantasmática.

 

Bibliografia

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BRAUNSTEIN, Nestor A (org.) .La reflexión de los conceptos de Freud en la obra de Lacan. México: Siglo Veintiuno Editores S.A., 1993.        [ Links ]

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_________. Além do princípio do prazer. ESB. v. XVIII.        [ Links ]

_________. Fetichismo.ESB. v. XXI.        [ Links ]

_________. Observações sobre o amor transferencial.ESB. v. XII.        [ Links ]

_________. Recodar, repetir e perlaborar. ESB. v. XII.        [ Links ]

_________. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. ESB. v. VII.        [ Links ]

_________. Uma criança é espancada: uma contribuição ao estudo da origem das perversões sexuais. ESB. v. XVII.        [ Links ]

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MILLER, Jacques Alain.Lacan Elucidado - Palestras no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997. p. 153-220; 329-388.        [ Links ]

SLAYUTZKY, Abrão (org.). Transferências. São Paulo: Escuta, 1991.        [ Links ]

TENDLARZ, Silvia Elena. La constitución del sujeto. In: De qué sufren los niños? La psicosis en la infancia. Buenos Aires: Lugar Editorial, 1996.        [ Links ]

 

I Médico. Participante do Fórum de Psicanálise do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais - CPMG.
II Psicóloga. Psicanalista. Membro do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais - CPMG.
III Psicóloga. Participante do Forum de Psicanálise do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais - CPMG.
IV Psicóloga. Participante do Forum de Psicanálise do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais - CPMG.
V Médica. Psicanalista. Membro do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais - CPMG.
VI Engenheiro. Participante do Fórum de Psicanálise do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais - CPMG.
VII Médica. Psicanalista. Membro do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais - CPMG.
VIII Médica. Psicanalista. Membro do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais - CPMG.
1 FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicioná-rio Aurélio Básico da Língua Portuguesa, 1995, p. 501.
2 FREUD, Sigmund. Fragmento da análise de um caso de histeria, ESB, v. VII, 1989, P. 53-54.
3 MILLER, Jacques Alain. Patologia da ética. In Lacan Elucidado - Palestras no Brasil, 1997, p. 356-357.
4 FERRAZ, Flávio Carvalho. Perversão. Coleção Clínica Psicanalítica. São Paulo: Casa do Psicó-logo, 2000. p. 98.
5 CLAVREUL, Jean et al. O desejo e a perversão. Campinas: Papirus, 1990. p. 154.
6 GEREZ-AMBERTÍN, Marta et al. Supereu: clínica diferencial neurose-perversão. In Rev. Letra Freudiana - Pulsão e gozo, ano XI, n. 10/11/12, p. 192. Publicação da Escola Letra Freudiana. Rio de Janeiro: Dumará.
7 MALEVAL, Jean Claude. Lógica Del delírio. Barcelona: Ediciones Del Serbal, 1998. p. 22.

domingo, 16 de janeiro de 2022

Fosar e Bludorf - Teorias da Conspiração

Franz Bludorf
Grazyna Fosar

Grazyna Fosar e Franz Bludorf são dois autores de obras esotéricas - pseudocientíficas e vivem em Berlim. Eles administram um fórum na Internet e vários sites sobre tópicos esotéricos e de conspiração . Franz Bludorf é editor-chefe da revista Matrix 3000 , Grazyna dirige o departamento de ciências da mesma revista. Você também é autor de várias outras revistas, como Raum & Zeit , ZeitGeist e Wetter-Boden-MenschOs autores parecem empenhados em emprestar uma aparente complexidade científica aos temas esotéricos ou da teoria da conspiração em seus livros, sem, no entanto, sobrecarregar demais o intelecto do leitor. É por isso que os autores também se referem às suas obras como livros de não-ficção, que são escritos em uma linguagem de fácil compreensão para um público amplo. Universidades e institutos de pesquisa agora também apreciam seus trabalhos e são a base de palestras, afirma a propaganda de seus livros.

Biográfico

Grazyna Fosar afirma ter estudado física e astrofísica, Franz Bludorf teria estudado matemática e física e afirma ser um não médico . No entanto, nada se sabe sobre os locais de estudo e graus. A busca de artigos técnicos pelos autores em bases de dados de literatura científica não obteve sucesso; deve-se supor que eles nunca publicaram cientificamente.

Atividades

Como foco de suas atividades, eles afirmam uma "física pós-quântica da consciência", geomancia , poluição ambiental através de " frequências eletromagnéticas " ( HAARP ) e teorias da conspiração sobre a suposta elite mundial dos Bilderbergers . Eles também acreditam na reencarnação e desenvolveram o que é conhecido como "processo de retenção" para acessar os Registros Akáshicos . Interesses também são mostrados na genética de ondas de base pseudocientífica .

círculos nas plantações

Fosar e Bludorf tornaram-se conhecidos nacionalmente através de suas descobertas pseudocientíficas em um chamado círculo nas plantações a leste de Berlim, que havia sido criado artificialmente para um programa de Günther Jauch na RTL-TV. O modelo para o padrão do círculo na plantação era uma pizza mordida. Fosar e Bludorf, como "cereologistas", queriam provar que o círculo de plantação correspondente não poderia ter sido criado por mãos humanas e assumiram um OVNI-Aterrissando. Quando suas suposições se tornaram cada vez mais insustentáveis, eles apagaram seu site sobre este círculo na plantação e iniciaram uma disputa com RTL e Jauch, que ficou conhecida como a disputa "Pizza Connection". Mesmo depois de resolver o mistério do círculo nas plantações, eles permaneceram na opinião de que um fenômeno fisicamente inexplicável estava presente.

Transmissor ELF em Berlim-Tempelhof

Uma teoria da conspiração apresentada por Fosar e Bludorf afirma que existe uma instalação de transmissão ELF secreta , de frequência extremamente baixa, mas de alta potência , sob o antigo Aeroporto Tempelhof em Berlim, codinome Teddybär . Eles tentaram provar isso com métodos completamente inadequados e alegaram em suas especulações que dali eram enviados sinais que poderiam influenciar o cérebro e desencadear doenças. No entanto, todos os fatos sobre o aeroporto de Tempelhof e as contradições nos argumentos falam contra a existência de tal instalação, que nunca foi observada por mais ninguém.

fator TLR

Uma hipótese apresentada por pesquisadores amadores diz respeito a supostos acidentes de avião que ocorrem com mais frequência em termos de tempo e localização: a hipótese do fator TLR .

Software de troca de hiperestoque

Um programa de computador comercialmente disponível que seria baseado em um princípio de "acaso perturbado" inventado por Fosar e Bludorf. O resultado são "informações para investidores que não podem ser obtidas por meio de nenhuma carta convencional de mercado ou análise econômica". Os autores ainda anunciam seu software da seguinte forma:

Basicamente, o que torna o mercado de ações tão atraente é que mesmo o profissional mais astuto precisa de uma certa dose de instinto, além de conhecimento econômico, para antecipar os desenvolvimentos completamente irracionais do mercado de ações que ocorrem repetidamente. É claro que isso está associado a riscos consideráveis, uma vez que tais decisões irracionais não são mensuráveis ​​nem repetíveis em um sentido científico. Pelo menos foi assim até agora. Os autores estão agora apresentando um método recém-desenvolvido que torna possível examinar matematicamente essas tendências até então imponderáveis ​​nos negócios do mercado de ações - por assim dizer, o clima geral que está "no ar" sem ser racionalmente justificável. Com ele você pode - para qualquer dia - criar análises de tendências,

links da web

  • http://www.fosar-bludorf.com/Tempelhof/index.htm
  • http://web.archive.org/web/20041207011125/http://www.fosar-bludorf.com/kornkreis/index.htm

 

sábado, 1 de janeiro de 2022

O OVO E A GALINHA - Clarice Lispector

 

O OVO E A GALINHA

QUARTA-FEIRA, NOVEMBRO 28, 2007


De manhã na cozinha sobre a mesa vejo o ovo.
Olho o ovo com um só olhar. Imediatamente percebo que não se pode estar vendo um ovo. Ver o ovo nunca se mantêm no presente: mal vejo um ovo e já se torna ter visto o ovo há três milênios. – No próprio instante de se ver o ovo ele é a lembrança de um ovo. – Só vê o ovo quem já o tiver visto. – Ao ver o ovo é tarde demais: ovo visto, ovo perdido. – Ver o ovo é a promessa de um dia chegar a ver o ovo. – Olhar curto e indivisível; se é que há pensamento; não há; há o ovo. – Olhar é o necessário instrumento que, depois de usado, jogarei fora. Ficarei com o ovo. – O ovo não tem um si-mesmo. Individualmente ele não existe.
Ver o ovo é impossível: o ovo é supervisível como há sons supersônicos. Ninguém é capaz de ver o ovo. O cão vê o ovo? Só as máquinas vêem o ovo. O guindaste vê o ovo. – Quando eu era antiga um ovo pousou no meu ombro. – O amor pelo ovo também não se sente. O amor pelo ovo é supersensível. A gente não sabe que ama o ovo. – Quando eu era antiga fui depositária do ovo e caminhei de leve para não entornar o silêncio do ovo. Quando morri, tiraram de mim o ovo com cuidado. Ainda estava vivo. – Só quem visse o mundo veria o ovo. Como o mundo o ovo é óbvio.
O ovo não existe mais. Como a luz de uma estrela já morta, o ovo propriamente dito não existe mais. – Você é perfeito, ovo. Você é branco. – A você dedico o começo. A você dedico a primeira vez.
Ao ovo dedico a nação chinesa.
O ovo é uma coisa suspensa. Nunca pousou. Quando pousa, não foi ele quem pousou. Foi uma coisa que ficou embaixo do ovo. – Olho o ovo na cozinha com atenção superficial para não quebrá-lo. Tomo o maior cuidado de não entendê-lo. Sendo impossível entendê-lo, sei que se eu o entender é porque estou errando. Entender é a prova do erro. Entendê-lo não é o modo de vê-lo. – Jamais pensar no ovo é um modo de tê-lo visto. – Será que sei do ovo? É quase certo que sei. Assim: existo, logo sei. – O que eu não sei do ovo é o que realmente importa. O que eu não sei do ovo me dá o ovo propriamente dito. – A Lua é habitada por ovos.
O ovo é uma exteriorização. Ter uma casca é dar-se.- O ovo desnuda a cozinha. Faz da mesa um plano inclinado. O ovo expõe. – Quem se aprofunda num ovo, quem vê mais do que a superfície do ovo, está querendo outra coisa: está com fome.
O ovo é a alma da galinha. A galinha desajeitada. O ovo certo. A galinha assustada. O ovo certo. Como um projétil parado. Pois ovo é ovo no espaço. Ovo sobre azul. – Eu te amo, ovo. Eu te amo como uma coisa nem sequer sabe que ama outra coisa. – Não toco nele. A aura de meus dedos é que vê o ovo. Não toco nele – Mas dedicar-me à visão do ovo seria morrer para a vida mundana, e eu preciso da gema e da clara. – O ovo me vê. O ovo me idealiza? O ovo me medita? Não, o ovo apenas me vê. É isento da compreensão que fere. – O ovo nunca lutou. Ele é um dom. – O ovo é invisível a olho nu. De ovo a ovo chega-se a Deus, que é invisível a olho nu. – O ovo terá sido talvez um triângulo que tanto rolou no espaço que foi se ovalando. – O ovo é basicamente um jarro? Terá sido o primeiro jarro moldado pelos etruscos ? Não. O ovo é originário da Macedônia. Lá foi calculado, fruto da mais penosa espontaneidade. Nas areias da Macedônia um homem com uma vara na mão desenhou-o. E depois apagou-o com o pé nu.
O ovo é coisa que precisa tomar cuidado. Por isso a galinha é o disfarce do ovo. Para que o ovo atravesse os tempos a galinha existe. Mãe é para isso. – O ovo vive foragido por estar sempre adiantado demais para a sua época. – O ovo por enquanto será sempre revolucionário. – Ele vive dentro da galinha para que não o chamem de branco. O ovo é branco mesmo. Mas não pode ser chamado de branco. Não porque isso faça mal a ele, mas as pessoas que chamam ovo de branco, essas pessoas morrem para a vida. Chamar de branco aquilo que é branco pode destruir a humanidade. Uma vez um homem foi acusado de ser o que ele era, e foi chamado de Aquele Homem. Não tinham mentido: Ele era. Mas até hoje ainda não nos recuperamos, uns após outros. A lei geral para continuarmos vivos: pode-se dizer “um rosto bonito”, mas quem disser “O rosto”, morre; por ter esgotado o assunto.
Com o tempo, o ovo se tornou um ovo de galinha. Não o é. Mas, adotado, usa-lhe o sobrenome. – Deve-se dizer “o ovo da galinha”. Se eu disser apenas “o ovo”, esgota-se o assunto, e o mundo fica nu. – Em relação ao ovo, o perigo é que se descubra o que se poderia chamar de beleza, isto é, sua veracidade. A veracidade do ovo não é verossímil. Se descobrirem, podem querer obrigá-lo a se tornar retangular. O perigo não é para o ovo, ele não se tornaria retangular. (Nossa garantia é que ele não pode: não poder é a grande força do ovo: sua grandiosidade vem da grandeza de não poder, que se irradia como um não querer.) Mas quem lutasse por torná-lo retangular estaria perdendo a própria vida. O ovo nos expõe, portanto, em perigo. Nossa vantagem é que o ovo é invisível. E quanto aos iniciados, os iniciados disfarçam o ovo.
Quanto ao corpo da galinha, o corpo da galinha é a maior prova de que o ovo não existe. Basta olhar para a galinha para se tornar óbvio que o ovo é impossível de existir.
E a galinha? O ovo é o grande sacrifício da galinha. O ovo é a cruz que a galinha carrega na vida. O ovo é o sonho inatingível da galinha. A galinha ama o ovo. Ela não sabe que existe o ovo. Se soubesse que tem em si mesma o ovo, perderia o estado de galinha. Ser galinha é a sobrevivência da galinha. Sobreviver é a salvação. Pois parece que viver não existe. Viver leva a morte. Então o que a galinha faz é estar permanentemente sobrevivendo. Sobreviver chama-se manter luta contra a vida que é mortal. Ser galinha é isso. A galinha tem o ar constrangido.
É necessário que a galinha não saiba que tem um ovo. Senão ela se salvaria como galinha, o que também não é garantido, mas perderia o ovo. Então ela não sabe. Para que o ovo use a galinha é que a galinha existe. Ela era só para se cumprir, mas gostou. O desarvoramento da galinha vem disso: gostar não fazia parte de nascer. Gostar de estar vivo dói. – Quanto a quem veio antes, foi o ovo que achou a galinha. A galinha não foi sequer chamada. A galinha é diretamente uma escolhida. – A galinha vive como em sonho. Não tem senso de realidade. Todo o susto da galinha é porque estão sempre interrompendo o seu devaneio. A galinha é um grande sono. – A galinha sofre de um mal desconhecido. O mal desconhecido é o ovo. – Ela não sabe se explicar: “ sei que o erro está em mim mesma”, ela chama de erro a vida, “não sei mais o que sinto”, etc.
“Etc., etc., etc.,” é o que cacareja o dia inteiro a galinha. A galinha tem muita vida interior. Para falar a verdade a galinha só tem mesmo é vida interior. A nossa visão de sua vida interior é o que chamamos de “galinha”. A vida interior na galinha consiste em agir como se entendesse. Qualquer ameaça e ela grita em escândalo feito uma doida. Tudo isso para que o ovo não se quebre dentro dela. Ovo que se quebra dentro de galinha é como sangue.
A galinha olha o horizonte. Como se da linha do horizonte é que viesse vindo um ovo. Fora de ser um meio de transporte para o ovo, a galinha é tonta, desocupada e míope. Como poderia a galinha se entender se ela é a contradição de um ovo? O ovo ainda é o mesmo que se originou na Macedônia. A galinha é sempre tragédia mais moderna. Está sempre inutilmente a par. E continua sendo redesenhada. Ainda não se achou a forma mais adequada para uma galinha. Enquanto meu vizinho atende ao telefone ele redesenha com lápis distraído a galinha. Mas para a galinha não há jeito: está na sua condição não servir a si própria. Sendo, porém, o seu destino mais importante que ela, e sendo o seu destino o ovo, a sua vida pessoal não nos interessa.
Dentro de si a galinha não reconhece o ovo, mas fora de si também não o reconhece. Quando a galinha vê o ovo pensa que está lidando com uma coisa impossível. É com o coração batendo, com o coração batendo tanto, ela não o reconhece.
De repente olho o ovo na cozinha e vejo nele a comida. Não o reconheço, e meu coração bate. A metamorfose está se fazendo em mim: começo a não poder mais enxergar o ovo. Fora de cada ovo particular, fora de cada ovo que se come, o ovo não existe. Já não consigo mais crer num ovo. Estou cada vez mais sem força de acreditar, estou morrendo, adeus, olhei demais um ovo e ele me foi adormecendo.
A galinha não queria sacrificar a sua vida. A que optou por querer ser “feliz”. A que não percebia que, se passasse a vida desenhando dentro de si como numa iluminura o ovo, ela estaria servindo. A que não sabia perder-se a si mesma. A que pensou que tinha penas de galinha para se cobrir por possuir pele preciosa, sem entender que as penas eram exclusivamente para suavizar, a travessia ao carregar o ovo, porque o sofrimento intenso poderia prejudicar o ovo. A que pensou que o prazer lhe era um dom, sem perceber que era para que ela se distraísse totalmente enquanto o ovo se faria. A que não sabia que “eu” é apenas uma das palavras que se desenham enquanto se atende ao telefone, mera tentativa de buscar forma mais adequada. A que pensou que “eu” significa ter um si-mesmo. As galinhas prejudiciais ao ovo são aquelas que são um “eu” sem trégua. Nelas o “eu” é tão constante que elas já não podem mais pronunciar a palavra “ovo”. Mas, quem sabe, era disso mesmo que o ovo precisava. Pois se elas não estivessem tão distraídas, se prestassem atenção à grande vida que se faz dentro delas, atrapalhariam o ovo.
Comecei a falar da galinha e há muito já não estou falando mais da galinha. Mas ainda estou falando do ovo.
E eis que não entendo o ovo. Só entendo o ovo quebrado: quebro-o na frigideira. É deste modo indireto que me ofereço à existência do ovo: meu sacrifício é reduzir-me à minha própria vida pessoal. Fiz do meu prazer e da minha dor o meu destino disfarçado. E ter apenas a própria vida é, para quem viu o ovo, um sacrifício. Como aqueles que, no convento, varrem o chão e lavam a roupa, servindo sem a glória de função maior, meu trabalho é o de viver os meus prazeres e as minhas dores. É necessário que eu tenha a modéstia de viver.
Pego mais um ovo na cozinha, quebro-lhe a casca e forma. E a partir deste instante exato nunca existiu um ovo. É absolutamente indispensável que eu seja uma ocupada e uma distraída. Sou indispensavelmente um dos que renegam. Faço parte da maçonaria dos que viram uma vez o ovo e o renegam como forma de protegê-lo. Somos os que se abstêm de destruir, e nisso se consomem. Nós, agentes disfarçados e distribuídos pelas funções menos reveladoras, nós às vezes nos reconhecemos. A um certo modo de olhar, há um jeito de dar a mão, nós nos reconhecemos e a isto chamamos de amor. E então, não é necessário o disfarce: embora não se fale, também não se mente, embora não se diga a verdade, também não é necessário dissimular. Amor é quando é concedido participar um pouco mais. Poucos querem o amor, porque o amor é a grande desilusão de tudo o mais. E poucos suportam perder todas as outras ilusões. Há os que voluntariam para o amor, pensando que o amor enriquecerá a vida pessoal. É o contrário: amor é finalmente a pobreza. Amor é não ter. Inclusive amor é a desilusão do que se pensava que era amor. E não é prêmio, por isso não envaidece, amor não é prêmio, é uma condição concedida exclusivamente para aqueles que, sem ele, corromperiam o ovo com a dor pessoal. Isso não faz do amor uma exceção honrosa; ele é exatamente concedido aos maus agentes, àqueles que atrapalhariam tudo se não lhes fosse permitido adivinhar vagamente.
A todos os agentes são dadas muitas vantagens para que o ovo se faça. Não é o caso de se ter inveja pois, inclusive algumas das condições, piores do que as dos outros, são apenas as condições ideais para o ovo. Quanto ao prazer dos agentes, eles também o recebem sem orgulho. Austeramente vivem todos os prazeres: inclusive é o nosso sacrifício para que o ovo se faça. Já nos foi imposta, inclusive uma natureza adequada a muito prazer. O que facilita. Pelo menos torna menos penoso o prazer.
Há casos de agentes que se suicidam: acham insuficientes as pouquíssimas instruções recebidas e se sentem sem apoio. Houve o caso do agente que revelou publicamente ser agente porque lhe foi intolerável não ser compreendido, e ele não suportava mais não ter o respeito alheio: morreu atropelado quando saía de um restaurante. Houve um outro que nem precisou ser eliminado: ele próprio se consumiu lentamente na sua revolta, sua revolta veio quando ele descobriu que as duas ou três instruções recebidas não incluíam nenhuma explicação. Houve outro também eliminado, porque achava que “a verdade deve ser corajosamente dita”, e começou em primeiro lugar a procurá-la; dele se disse que morreu em nome da verdade com sua inocência; sua aparente coragem era tolice, e era ingênuo o seu desejo de lealdade, ele compreendera que ser leal não é coisa limpa, ser leal é ser desleal para com todo o resto. Esses casos extremos de morte não são por crueldade. É que há um trabalho, digamos cósmico, a ser feito, e os casos individuais infelizmente não podem ser levados em consideração. Para os que sucumbem e se tornam individuais é que existem as instituições, a caridade, a compreensão que não discrimina motivos, a nossa vida humana enfim.
Os ovos estalam na frigideira, e mergulhada no sonho preparo o café da manhã. Sem nenhum senso da realidade, grito pelas crianças que brotam de várias camas, arrastam cadeiras e comem, e o trabalho do dia amanhecido começa, gritado e rido e comido, clara e gema, alegria entre brigas, dia que é o nosso sal e nós somos o sal do dia, viver é extremamente tolerável, viver ocupa e distrai, viver faz rir.
E me faz sorrir no meu mistério. O meu mistério é que eu ser apenas um meio, e não um fim, tem-me dado a mais maliciosa das liberdades: não sou boba e aproveito. Inclusive, faço um mal aos outros que, francamente. O falso emprego que me deram para disfarçar a minha verdadeira função, pois aproveito o falso emprego e dele faço o meu verdadeiro; inclusive o dinheiro que me dão como diária para facilitar a minha vida de modo a que o ovo se faça, pois esse dinheiro eu tenho usado para outros fins, desvio de verba, ultimamente comprei ações na Brahma e estou rica. A isso tudo ainda chamo de ter a necessária modéstia de viver. E também o tempo que me deram, e que nos dão apenas para que no ócio honrado o ovo se faça, pois tenho usado esse tempo para prazeres ilícitos e dores ilícitas, inteiramente esquecida do ovo. Esta é a minha simplicidade.
Ou é isso mesmo que eles querem que me aconteça, exatamente para que o ovo se cumpra? É liberdade ou estou sendo mandada? Pois venho notando que tudo que é erro meu tem sido aproveitado. Minha revolta é que para eles eu não sou nada, eu sou apenas preciosa: eles cuidam de mim segundo por segundo, com a mais absoluta falta de amor; sou apenas preciosa. Com o dinheiro que me dão, ando ultimamente bebendo. Abuso de confiança? Mas é que ninguém sabe como se sente por dentro aquele cujo emprego consiste em fingir que está traindo, e que termina acreditando na própria traição. Cujo emprego consiste em diariamente esquecer. Aquele de quem é exigida a aparente desonra. Nem meu espelho reflete mais um rosto que seja meu. Ou sou um agente, ou é a traição mesmo.
Mas durmo o sono dos justos por saber que minha vida fútil não atrapalha a marcha do grande tempo. Pelo contrário: parece que é exigido de mim que eu seja extremamente fútil, é exigido de mim inclusive que eu durma como justo. Eles me querem preocupada e distraída, e não lhes importa como. Pois, com minha atenção errada e minha tolice grave, eu poderia atrapalhar o que se está fazendo através de mim. É que eu própria, eu propriamente dita, só tenho mesmo servido para atrapalhar. O que me revela que talvez eu seja um agente é a idéia de que meu destino me ultrapassa: pelo menos isso eles tiveram mesmo que me deixar adivinhar, eu era daqueles que fariam mal o trabalho se ao menos não adivinhassem um pouco; fizeram-me esquecer o que me deixaram adivinhar, mas vagamente ficou-me a noção de que meu destino me ultrapassa, e de que sou instrumento do trabalho deles. Mas de qualquer modo era só instrumento que eu poderia ser, pois o trabalho não poderia ser mesmo meu. Já experimentei me estabelecer por conta própria e não deu certo; ficou-me até hoje essa mão trêmula. Tivesse eu insistido um pouco mais e teria perdido para sempre a saúde. Desde então, desde essa malograda experiência, procuro raciocinar desse modo: que já me foi dado muito, que eles já me concederam tudo o que pode ser concedido; e que os outros agentes, muito superiores a mim, também trabalharam apenas para o que não sabiam. E com as mesmas pouquíssimas instruções. Já me foi dado muito; isto, por exemplo: uma vez ou outra, com o coração batendo pelo privilégio, eu pelo menos sei que não estou reconhecendo! Com o coração batendo de emoção, eu pelo menos não compreendo! Com o coração batendo de confiança, eu pelo menos não sei.
Mas e o ovo? Este é um dos subterfúgios deles: enquanto eu falava sobre o ovo, eu tinha esquecido do ovo. “Falai, falai”, instruíram-me eles. E o ovo fica inteiramente protegido por tantas palavras. Falai muito, é uma das instruções, estou tão cansada.
Por devoção ao ovo, eu o esqueci. Meu necessário esquecimento. Meu interesseiro esquecimento. Pois o ovo é um esquivo. Diante de minha adoração possessiva ele poderia retrair-se e nunca mais voltar. Mas se ele for esquecido. Se eu fizer o sacrifício de esquecê-lo. Se o ovo for impossível. Então – livre, delicado, sem mensagem alguma para mim – talvez uma vez ainda ele se locomova do espaço até esta janela que desde sempre deixei aberta. E de madrugada baixe no nosso edifício. Sereno até a cozinha. Iluminando-a de minha palidez.