Bropamida: Estrutura, Mecanismo de Ação e Aplicações
1. Introdução
A Bromoprida é uma substância pertencente à classe das benzamidas substituídas, estruturalmente relacionada à metoclopramida e outras substâncias com ação sobre o trato gastrointestinal. Sua principal indicação é no tratamento de distúrbios digestivos, particularmente em condições associadas a disfunções da motilidade gástrica.
2. Estrutura Química e Propriedades Físico-Químicas
-
Nome químico: N-(4-bromobenzil)-3-metoxi-4-hidroxibenzamida
-
Fórmula molecular: C14H14BrNO3
-
Massa molar: 324,17 g/mol
-
Solubilidade: Moderada em solventes orgânicos, baixa solubilidade em água.
A bropamida é um derivado da benzamida, apresentando uma estrutura com um grupo bromobenzil e um anel fenólico substituído, o que influencia sua atividade biológica.
3. Mecanismo de Ação
A bropamida atua predominantemente como um antagonista dos receptores de dopamina D2 no trato gastrointestinal. Seu mecanismo pode ser comparado ao de outros pró-cinéticos, como a metoclopramida:
-
Bloqueio dos receptores dopaminérgicos D2:
-
A dopamina exerce um efeito inibitório sobre a motilidade do trato digestivo. Ao bloquear esses receptores, a bropamida facilita a liberação de acetilcolina, resultando em aumento da atividade colinérgica.
-
-
Efeito pró-cinético:
-
A estimulação colinérgica promove um aumento da motilidade gástrica, acelerando o esvaziamento do estômago e reduzindo a estase gástrica.
-
-
Ação antiemética:
-
Como antagonista D2, a bropamida pode também reduzir náuseas e vômitos ao bloquear os receptores dopaminérgicos na zona de gatilho quimiorreceptora no sistema nervoso central.
-
4. Indicações Clínicas
A bropamida tem sido utilizada para tratar distúrbios gastrointestinais funcionais, incluindo:
-
Dispepsia funcional
-
Gastroparesia
-
Refluxo gastroesofágico (como adjuvante)
-
Náuseas e vômitos de origem digestiva
5. Farmacocinética
-
Absorção: Boa absorção por via oral.
-
Distribuição: Atravessa barreiras biológicas, incluindo a barreira hematoencefálica.
-
Metabolismo: Hepático, através de processos de conjugação e oxidação.
-
Excreção: Renal, majoritariamente na forma de metabólitos inativos.
6. Efeitos Adversos e Precauções
Os efeitos adversos são semelhantes aos de outros antagonistas dopaminérgicos, incluindo:
-
Sintomas extrapiramidais (discinesia tardia, acatisia, distonia aguda) em uso prolongado.
-
Sedação e sonolência, devido à ação no SNC.
-
Sintomas gastrointestinais como diarreia ou constipação.
-
Hiperprolactinemia, podendo levar a galactorreia e ginecomastia.
Contraindicações incluem:
-
Pacientes com doença de Parkinson (devido ao antagonismo dopaminérgico).
-
Histórico de discinesia tardia induzida por neurolépticos.
-
Hipertensão ou doenças cardiovasculares severas.
7. Comparação com Outros Pró-Cinéticos
A bropamida tem um perfil semelhante ao da metoclopramida, porém com menor penetração no SNC e possivelmente menor incidência de efeitos extrapiramidais. Também se diferencia de domperidona, que tem menor biodisponibilidade e menor risco de efeitos adversos centrais.
8. Considerações Finais
A bropamida é um agente pró-cinético eficaz, utilizado principalmente no tratamento de distúrbios gástricos funcionais. Embora tenha vantagens em relação a outros fármacos, seus efeitos adversos extrapiramidais limitam seu uso prolongado. Seu perfil farmacológico sugere que seja utilizada com cautela, especialmente em pacientes suscetíveis a efeitos colaterais dopaminérgicos.
9. Referências Bibliográficas
-
Brunton, L., Knollmann, B., & Hilal-Dandan, R. (2018). Goodman & Gilman’s: The Pharmacological Basis of Therapeutics (13th ed.). McGraw-Hill.
-
Del Tacca, M., et al. (2002). "Gastrointestinal prokinetic agents: The old and new." Acta Pharmacologica Sinica, 23(3), 195-202.
-
Camilleri, M. (2016). "Pharmacology and clinical experience with prokinetic agents." Gastroenterology Clinics, 45(2), 191-212.
Sintomas Extrapiramidais (SEP) induzidos pela administração intravenosa de Bromoprida e Cloridrato de Metoclopramida: Mecanismos Bioquímicos, Celulares e Neuronais
1 Introdução
A bromoprida e o cloridrato de metoclopramida pertencem à classe farmacológica dos antagonistas dopaminérgicos periféricos e centrais, sendo comumente utilizados por via intravenosa em contextos clínicos ambulatoriais e hospitalares para o controle de náuseas, vômitos e distúrbios motores do trato gastrointestinal. Entretanto, ambos possuem a capacidade de desencadear sintomas extrapiramidais (SEP), em especial quando administrados rapidamente ou em doses elevadas (Stahl, 2021; Katzung & Trevor, 2022).
2 Mecanismos Bioquímicos
2.1 Bloqueio Dopaminérgico Central (Via Nigroestriatal)
Tanto a bromoprida quanto a metoclopramida são antagonistas seletivos dos receptores dopaminérgicos D₂, situados predominantemente na via nigroestriatal do sistema nervoso central. Esta via conecta neurônios dopaminérgicos localizados na substância negra pars compacta aos neurônios GABAérgicos médios espinhosos localizados no corpo estriado (núcleo caudado e putâmen) (Kandel et al., 2021).
O bloqueio farmacológico excessivo e abrupto desses receptores D₂ reduz a ação inibitória da dopamina sobre os neurônios estriatais, resultando em uma hiperatividade relativa dos sistemas neuronais excitatórios colinérgicos estriatais, o que é considerado o mecanismo primário para a ocorrência dos SEP (Carlsson & Carlsson, 2006; Stahl, 2021).
2.2 Desequilíbrio Dopamina-Acetilcolina
A ação antagônica sobre receptores D₂ resulta em desequilíbrio significativo entre os neurotransmissores dopamina (inibitório) e acetilcolina (excitadora). Com a redução da influência dopaminérgica, prevalece a ação excitatória da acetilcolina nos neurônios motores estriatais, causando aumento da excitabilidade neuronal e contrações musculares involuntárias, como observado nas distonias e acatisias (Katzung & Trevor, 2022).
3 Mecanismos Celulares e Neuronais
3.1 Neurofisiologia da Via Nigroestriatal
Na via nigroestriatal, neurônios dopaminérgicos da substância negra regulam negativamente a excitabilidade dos neurônios médios espinhosos do estriado, que são predominantemente GABAérgicos. Esses neurônios estriatais constituem o principal alvo celular dos efeitos colaterais extrapiramidais. Sob bloqueio dopaminérgico induzido por bromoprida e metoclopramida, há diminuição da inibição dopaminérgica, provocando aumento significativo na atividade colinérgica e gabaérgica, o que resulta em sinais motores patológicos como rigidez, tremor, movimentos involuntários, distonias, bradicinesia e acatisia (Bear, Connors & Paradiso, 2021).
3.2 Adaptação Neuronal e Plasticidade Sináptica
O bloqueio persistente dos receptores D₂ pode levar à plasticidade neuronal maladaptativa, com aumento compensatório na densidade e na sensibilidade dos receptores dopaminérgicos pós-sinápticos. Essa regulação ascendente ("up-regulation") constitui um mecanismo celular subjacente à discinesia tardia, sintoma extrapiramidal crônico que pode surgir após exposição prolongada à bromoprida e metoclopramida (Stahl, 2021; Lieberman & Stroup, 2022).
3.3 Mecanismos de SEP Agudos e Transitórios
Especialmente após a administração intravenosa rápida desses fármacos, há um pico plasmático abrupto que gera rápido bloqueio central de receptores D₂, resultando em sintomas extrapiramidais agudos transitórios como distonias agudas (torcicolo, trismo, crises oculógiras), acatisia aguda (sensação intensa e urgente de inquietação psicomotora), ansiedade, e sensação de pânico. Esses sintomas são geralmente intensos, porém reversíveis após a interrupção do agente farmacológico ou administração de antagonistas colinérgicos (biperideno) (Meltzer & Stahl, 2021; Fleet et al., 2020).
4 Mecanismo Farmacocinético Específico da Administração Intravenosa
A via intravenosa produz concentração plasmática imediata e elevada do fármaco, resultando em acesso rápido e intenso ao sistema nervoso central. Esta concentração rápida e elevada aumenta significativamente a probabilidade de ocorrerem SEP agudos, uma vez que os receptores D₂ são ocupados abruptamente, sem tempo suficiente para adaptação neuronal compensatória gradual (Fleet et al., 2020).
5 Comparação entre Bromoprida e Metoclopramida
Tanto bromoprida quanto metoclopramida possuem mecanismos semelhantes quanto ao antagonismo dopaminérgico. Contudo, estudos sugerem que a bromoprida pode apresentar incidência discretamente menor de SEP em comparação com a metoclopramida, embora ambas apresentem perfil semelhante de risco extrapiramidal quando administradas intravenosamente e em alta velocidade (Consultaremedios, 2024; Stahl, 2021).
6 Referências Bibliográficas Técnicas Atualizadas
Bear, M. F., Connors, B. W., & Paradiso, M. A. (2021). Neuroscience: Exploring the Brain (5ª ed.). Wolters Kluwer Health.
LinkCarlsson, M. L., & Carlsson, A. (2006). Interactions between glutamatergic and monoaminergic systems within the basal ganglia—Implications for schizophrenia and Parkinson's disease. Trends in Neurosciences, 29(10), 537-543.
LinkKatzung, B. G., & Trevor, A. J. (2022). Basic and Clinical Pharmacology (15ª ed.). McGraw-Hill.
LinkKandel, E. R., Schwartz, J. H., Jessell, T. M., Siegelbaum, S. A., & Hudspeth, A. J. (2021). Princípios de Neurociências (6ª ed.). McGraw-Hill Education.
LinkLieberman, J. A., & Stroup, T. S. (2022). The American Psychiatric Publishing Textbook of Schizophrenia (3ª ed.). APA Publishing.
LinkMeltzer, H. Y., & Stahl, S. M. (2021). Serotonin and Dopamine Interactions in Psychosis and Extrapyramidal Symptoms. CNS Spectrums, 26(5), 394-405.
LinkStahl, S. M. (2021). Stahl’s Essential Psychopharmacology (5ª ed.). Cambridge University Press.
LinkFleet et al. (2020). Management of extrapyramidal reactions: Clinical aspects and prevention. American Journal of Emergency Medicine, 38(2), 279-285.
Link