terça-feira, 31 de maio de 2022

A constituição do superego : Um enfoque na obra de Melanie Klein no período de 1921 até 1945

 

A constituição do superego : Um enfoque na obra de Melanie Klein no período de 1921 até 1945

The constitution of the superego: An approach to the work of Melanie Klein in the period from 1921 to 1945

SCATOLIN, Henrique Guilherme 1; CINTRA, Elisa Maria de Ulhoa 2

Recibido:28/08/2017 • Aprobado: 25/09/2017


Conteúdo

Introdução

1. Década de 20: o início da construção de sua obra

2. As relações de objetos parciais e o superego primitivo

3. Década de 30 e a Posição Depressiva

4. A Posição Depressiva e suas Características

5. Conclusões

Referencias Bibliográficas


RESUMO:

Este artigo tem como objeto de estudo a constituição do superego na obra de Melanie Klein. A partir de uma pesquisa bibliográfica em sua obra, especificamente entre o período de 1921 até 1945, o autor propõe um estudo sobre a constituição desta instância psíquica a partir das relações objetais parciais. A problemática a que se propõe este estudo seria: como podemos compreender a constituição do superego primitivo a partir das relações objetais parciais na obra kleniana, neste primeiro momento da sua obra? Como resultado, o autor recorre à constituição das relações objetais parciais, recorrendo as heranças de Abraham e Ferenzci (a moralidade esfincteriana, que seria uma espécie de precursor fisiológico do superego) para a construção de sua obra. Os primórdios do superego estariam voltados as primeiras catexias de objeto e identificações, as primeiras introjeções orais. Neste meandro, os mecanismos de introjeção são de extrema relevância para a etiologia desta instância, uma vez que o superego passa a existir durante a fase oral. Como conclusão, o autor propõe que, com o desenvolvimento da sua teoria, a compreensão da formação desta instância foi complementando a visão freudiana, ressaltando o papel das primeiras introjeções (e suas conseqüências) para o psiquismo.
Palavras-chave: relações objetais parciais e totais, superego primitivo, técnica do brincar; posição depressiva; introjeção e projeção.

ABSTRACT:

This paper aims to study the constitution of the superego in the work of Melanie Klein. From a bibliographical search in her work, specifically from 1921 until 1945, the author proposes a study of the constitution of this psychic instance from part-object relations. The question posed in this study would be: how can we understand the constitution of the primitive superego from the part-object relations in Klein’s work, at this early point in her work? As a result, the author refers to the constitution of part-object relations, using the ideas of Abraham and Ferenzci (the sphincter morality, which would be a kind of physiological precursor of the superego) for the construction of her work. The origins of the superego would be oriented to the first cathexis of object and identifications, the first oral introjections. In this path, introjection mechanisms are of utmost relevance to the etiology of this instance, once the superego then exists during the oral stage. As a conclusion, the author proposes that, with the development of his theory, the understanding of the formation of this instance is complementary to the Freudian view, emphasizing the role of the first introjections (and their consequences) for the psychic life.
Keywords: part and whole-object relations, primitive superego, play technique; depressive position; introjection and projection.

Introdução

O superego, na obra freudiana, começa a ganhar destaque a partir da década de 20, quando Freud associa esta instância como o herdeiro do complexo de Édipo. O herdeiro dos valores morais dos pais, como também do contexto onde este sujeito estaria inserido, coincidiria com o início do período de latência. Assim, para os freudianos, o superego estaria associado à resolução edipiana.  

Se a Áustria, no início da década de 20, pulsava conhecimento sobre o Inconsciente, as pulsões e o superego neste primeiro momento, o cenário londrino dava os seus primeiros passos com Ernest Jones. Nesta mesma época, em pleno contexto de pós-guerra, uma autora, de origem judaica, começa a ganhar destaque, pela técnica do brincar, no cenário britânico: Melanie Klein, a grande pioneira da técnica infantil do brincar e da abertura da psicoterapia para psicóticos.

A partir da análise de crianças, Klein vai ganhando cada vez mais espaço na década de 20 e, a convite de Jones, vai até a Inglaterra. Aqui se inicia a jornada contextual deste artigo, a partir desta problemática: como podemos compreender a constituição do superego primitivo, a partir das relações objetais parciais, na obra kleniana, neste primeiro momento da sua obra? Quando este artigo menciona este primeiro momento, esta se referindo aos dois livros clássicos de Melanie Klein: Amor, Culpa e Reparação e A Psicanálise de Crianças.

A partir disso, como os conceitos de objetos parciais e da constituição do superego primitivo irão permear este estudo, gostaria de retomar, primeiramente, a concepção de objetos parciais, entrelaçando-o com a constituição do superego.  Para tal, este artigo irá realizar uma breve retomada destes conceitos na teoria postulada por Melanie Klein, trazendo as interpretações dos seus principais seguidores. Para esta retomada será respeitada a ordem cronológica da construção de sua teoria.

1. Década de 20: o início da construção de sua obra

Melanie Klein parte do pressuposto do objeto parcial de Abraham, decodificando-o. Abraham aponta que “enquanto que as observações que conduziram à descrição da organização sádico-oral encontraram uma consideração especial na literatura psicanalítica [...], o primeiro estágio do desenvolvimento da libido, a fase ‘oral’ aguardava novas investigações (1927/1970, p. 54). Foi neste contexto que, ao analisar uma paciente com demência precoce, Abraham ressaltou a questão da incorporação de objeto, apontando que o impulso canibalesco já se faz presente desde o início da vida. Para Abraham (1927/1970), os objetos parciais (como o pênis e o seio) estão associados a este estágio de ambivalência, bem anterior à conquista do amor objetal total (e que na teoria de Klein este amor será alcançado na posição depressiva).

Klein, ao beber na teoria de Karl Abraham, seu primeiro analista, elabora uma teoria única destes objetos, ressaltando “a importância dos estádios pré-genitais e das relações de objeto parcial no desenvolvimento tanto do complexo de Édipo quanto do superego” (SEGAL, 1964/1975, p. 19). As relações de objeto, na remota infância, remetem as relações de objetos parciais, precedendo a existência de objetos totais (já na posição depressiva) na existência do remoto ego. Neste contexto, na divisão do id, um ego ‘não coeso’ está presente e um superego primitivo, pulsional, tem início a partir das primeiras introjeções orais.

Isto significa que, em seus jogos pulsionais, na remota infância, qualquer objeto que traga gratificação para o bebê realça os movimentos de amor. Por outro lado, aquele que venha a frustrar, provoca movimentos de ódio e paranóia. Neste binômio mãe X bebê, Hinshelwood aponta que “essas concepções primitivas são indicadas pelas notações seio ‘bom’, seio ‘mau’; mãe ‘boa’, mãe ‘má’, e , de modo semelhante, pai [bom e mau], pênis [ bom e mau]” (1992, p. 383). 

2. As relações de objetos parciais e o superego primitivo

Na concepção da teoria kleniana, o objeto primeiro de todas as fantasias é o seio materno, momento este em que o bebê procura suas satisfações imediatas, ocasionando os primeiros movimentos de cisão (seio mau – mãe má/ seio bom – mãe boa). Neste contexto, a incorporação do seio é uma metáfora para a incorporação dos demais objetos, como o pênis. São estes objetos que servirão de pilares identificatórios para o bebê.  Assim, desde a remota infância, temos a equivalência simbólica entre seio, fezes, pênis e bebê. E como isso se traduz na linguagem kleniana?

Na linguagem kleniana, para o bebê, a mãe resguarda os demais objetos. Assim, o seio bom pode dar espaço ao pênis bom, como o seio mal pode dar espaço ao pênis mau, tornando indissociáveis. Neste contexto, ainda é necessário relevar que é na  ausência da mãe ( ou da sua equivalente) que um terceiro começa se fazer presente e dar inicio as relações edípicas precoce.

Em 1928, ao escrever o artigo Estágios Iniciais do Conflito Edipiano, Klein aponta que “as tendências edipianas são liberadas como conseqüências da frustração sentida pela criança com o desmame, e que se manifestam no final do primeiro e início do segundo ano de vida” (KLEIN, 1928/1996, p. 216) [3].  Estas seriam frutos das frustrações anais, momento este em que os impulsos pre-genitais estariam repletos de sentimentos de culpa. Neste momento, Klein recorre a Ferenzci, destacando a ‘moralidade esfincteriana’, ou seja, esta seria uma ‘espécie de precursor fisiológico do superego’  associado aos impulsos uretrais e anais.

Ferenzci, ao publicar o artigo Psicanálise dos Hábitos Sexuais em 1925, ressalta que “a identificação da criança com os seus pais passa, como se sabe, por uma primeira fase pré-genital” (1925/2011, p. 365).  Antes de alcançar o plano genital, o menino rivaliza, por meio da identificação pré-genital, com os seus pais por intermédio das “proezas anais e uretrais” (1925/2011, p. 365). Neste plano, “a identificação anal e uretral com os pais [...] parece constituir-se uma espécie de precursor fisiológico do ideal do ego ou do superego no psiquismo da criança” (1925/2011, p. 366).  Neste contexto, a criança pode estabelecer comparações entre elas e os adultos por intermédio de “moral dos esfíncteres muito severa, que não poderia transgredir sem remorsos e escrúpulos intensos”(1925/2011, p. 366). Antes de alcançar o complexo de Édipo, a educação esfincteriana é adotada moralmente pela criança. Essa educação ‘moralista’, de etiologia fisiológica, instintual, seria a mola propulsora da moral do adulto, precursora do superego. Assim, este superego kleniano, respaldado na teoria de Ferenzci, teria uma etiologia mais pulsional, instintiva, e não seria aquele herdeiro do complexo de Édipo, tal como descrito por Freud no início da década de 20.

Se Ferenzci escreve sobre a moralidade esfincteriana em 1925, Klein retoma este postulado em 1928, associando o sentimento de culpa a esta formação precoce, destacando a importância do superego neste contexto, como diz:

A conexão entre a formação do superego e as fases pré-genitais do desenvolvimento é muito importante a partir de dois pontos de vista. Por um lado, o sentimento de culpa se prende às fases sádico-oral e sádico-anal, que ainda são as predominantes; por outro, o superego se forma quando essas fases ainda estão em ascendência, o que explica o seu rigor sádico (1928, p. 217).

Neste contexto, um ego fraco tenta se defender, a custas da repressão, de um superego pulsional primitivo, momento este em que a criança, em sua pré-genitalidade, teme ser devorada pelo seu próprio superego. Por outro lado, as frustrações orais dão origem às ansiedades mais primitivas e ao conflito edipiano mais incipiente.

Neste meandro, a partir da identificação remota com a mãe, o corpo da mãe pode ser compreendido como um cenário de todos os processos de desenvolvimento sexual. Neste há os objetos parciais: o seio bom e mau, as fezes boa e má. A partir do conflito edipiano precoce, a criança quer ser apossar destes objetos devido a sua pulsão epistemofilica, gerando movimentos de agressividade e sentimentos de culpa precoce.

A mãe, que outrora frustrara seu filho oralmente, permite uma nova frustração, mas agora no âmbito da analidade mais remota.  Para Klein “a criança deseja tomar posse das fezes da mãe, penetrando em seu corpo, cortando-o, devorando-o em pedaços e destruindo-o” (1928/1996, p. 218). O grau de alcance para a genitalidade dependerá da intensidade da ansiedade gerada e elaborada neste momento, neste espaço da pré-genitalidade em que os conflitos edipianos já estão presentes. 

É necessário ressaltar que a intensidade das fixações libidinais mais remotas poderão gerar o movimento de ódio que o menino irá sentir em relação a sua mãe, dificultando a ascensão da posição depressiva. “As fixações sádicas também exercem forte influencia sobre a estruturação do superego, que está em processo de formação quando essas fases ainda estão em ascendência” (KLEIN, 1928/1996, p. 219).  Ou seja, quanto maior for a fixação na fase anal-sádica, maior será a intensidade do superego da criança, causando-o temor devido as tendências destrutivas.

O menino, durante a sua pré-genitalidade, também poderá desenvolver um intenso medo relacionado as figuras parentais devido a intensidade da agressividade destinado aos mesmos.  Para Klein, o medo da mãe, que precede o medo do pai, pode estar associado ao desejo “de roubar o pênis do pai (que estaria dentro do corpo materno), os filhos e os órgãos genitais femininos” (1928/1996, p. 220). Assim, a ansiedade seria fruto da tirania de um superego  que pode vir a devorar, mutilar e castrar os genitais do menino como punição, embora  as tendências sádico-anais de roubar, atacar e destruir a mãe  coincide com o processo identificatório mais remoto do menino. 

Segundo Klein:

O menino também deriva da fase feminina um superego materno que o impele, assim como a menina, a criar identificações cruéis primitivas, e ao mesmo tempo, bondosas. Contudo, depois de passar por esta fase, ele retoma [...] a identificação com o pai. Por mais que o lado materno se faça sentir na formação do superego, ainda é o superego paterno que desde o inicio exerce a influencia sobre o homem (1928/1996, p. 223).

Neste contexto, Klein ainda não tinha descrito a posição esquizo-paranoide, mas entendo que as cisões nesta remota fase remontam a esta posição, uma vez que tanto o menino como as meninas poderão criar identificações boas e más nesta fase. Além disso, ressalto a singular percepção de Klein neste momento de construção do superego: embora o superego da mãe tenha o seu devido valor, é o superego paterno que irá exercer a sua influencia nos casos masculinos.

Como o superego apresenta uma condição especial neste artigo, não podemos nos esquecer que Klein já destacava a sua intima relação com a neurose obsessiva. Em sua clínica, vários casos de análise infantil despojaram a sua sensatez e tenuidade desta instância psíquica em suas observações sobre a neurose obsessiva. Ao publicar a Personificação do Brincar das Crianças, Klein (1929/1996) traz o caso Erna, ressaltando sua “grave neurose obsessiva” (1929/1996, p. 229) que ocultava um quadro de paranóia. Em seu brincar, Erna demonstrava um sadismo excessivo do id e do superego, rodeada por perseguidores em suas fantasias lúdicas. Neste mesmo artigo, Klein (1929/1996) ressalta a brincadeira  da pequena Rita, de quase três anos, uma vez que o seu rigor superegoico impedia toda fantasia. Sobre este último caso, diz: “foi só quando o rigor excessivo do superego se tornou menos severo que Rita começou a desenvolver jogos de fantasia”. Assim, o superego de Rita, que anteriormente lhe causava certa inibição, agora, mais brando, possibilitou um avanço na psicoterapia.

Na observação dos casos de Erna e Rita, há dois pilares que precisa ser mencionado: a neurose obsessiva resguardando o quadro de paranóia e o papel do superego sádico, especialmente no caso de Rita que, segundo a nota de rodapé acrescida a este texto, dizia que ela “sofria de uma neurose obsessiva pouco comum a sua idade” (1929/1996, p. 232). Assim, o papel do superego tirânico se constitui com base nas organizações pré-genitais que estão em constituição. Sobre isso, Klein aponta:

Quanto mais o desenvolvimento do superego e o desenvolvimento libidinal avançam em direção ao nível genital, deixando para trás os níveis pré-genitais, mais as identificações fantásticas e realizadoras de desejos (cuja fonte é a imagem de uma mãe que oferece gratificação oral) se aproximam dos pais reais (KLEIN, 1929/1996, p. 233).

 

Neste contexto, Klein ressalta que o abandono da mãe é resultante das frustrações orais que esta impõe ao bebê, propiciando uma cisão entre uma mãe boa, bondosa (que dá atenção, amparo) e uma mãe má, ameaçadora (que frustra) [4], estimulando o sadismo na criança e gerando ansiedade. Aqui a ambivalência, entre amor e ódio, conduziria a uma síntese do superego de suas naturezas contraditórias. Tal fato é ilustrado pela personificação das imagos ameaçadoras paternas de Erna e de Rita em suas brincadeiras [5]. Assim, neste contexto,  a técnica analítica do brincar possibilitava a analise das camadas mais primárias do superego, rodeadas por situações de ansiedade que poderiam gerar ataques ao corpo materno, momento este em que a criança “espera encontrar dentro da mãe o pênis do pai, excrementos e crianças” (1930/1996, p. 251).

São estes ataques que darão alimento as ansiedades mais arcaicas, destinados ao corpo materno. Entretanto, a criança teme receber ataques do objeto atacado. Assim, “é a ansiedade [...] que põe em movimento o mecanismo da identificação” (1930/1996, p. 253), momento este em que o desenvolvimento do ego está diretamente relacionado a sua capacidade  de tolerar as primeiras situações de ansiedade. Neste momento, a criança é rodeada de objetos bons e maus, como os excrementos bons e maus, o seio bom e mau e o pênis bom e mau.

3. Década de 30 e a Posição Depressiva

Como a etiologia do superego é de extrema relevância para a problemática desta pesquisa, gostaria de ressaltar que os textos de Klein escritos na década de 30 apresentam uma singularidade para a compreensão da formação desta instância psíquica.  Em 1933, ao redigir O Desenvolvimento Inicial da Consciência na Criança, Klein destaca que o “superego primitivo é muito mais rigoroso e cruel do que o da criança mais velha ou do adulto, literalmente esmagando o frágil ego da criança pequena” (1933/1996, p. 286). O medo de ser devorado, cortado, está associado às ansiedades mais primitivas, cuja instância psíquica se faz presente. Assim, o superego é formado a partir das imagos paternas e maternas que se voltam contra a própria criança, norteados pelos impulsos agressivos recalcados.

Ressalto que este texto de 1933 traz um avanço, uma vez que Klein traz as questões das pulsões auto-destrutivas para a etiologia desta instância.  Assim, ao se voltar contra o próprio ego, a pulsão de morte cria uma tensão que é deflagrada pela ansiedade, ocasionando a violência excessiva do superego devido as pulsões agressivas que se voltam contra o ego. Aqui o superego teria um componente pulsional, agressivo, que se voltaria contra o ego indefeso da criança, alimentando as fantasias monstruosas das crianças e suas ansiedades ‘persecutórias’, deslocando esta ansiedade para os objetos externos. Assim, o medo, tão freqüente nas obsessões, será proporcional aos seus impulsos sádicos, mediante o deslocamento para o ambiente externo.

Klein aponta que “a formação do superego se inicia ao mesmo tempo em que a criança faz a primeira introjeção oral de seus objetos” (1933/1996, p. 289).  Neste momento da sua obra, o superego começaria a se desenvolver durante o estágio sádico-oral, em íntima ligação com os impulsos edipianos. Entretanto, à medida que a ansiedade vai diminuindo, o sadismo vai sendo amenizado  e as imagos terroríficas vão dando espaço para as imagos  benignas e prestativas. “O superego, que antes era a força despótica e ameaçadora [...] começa a exercer um domínio mais suave e persuasivo, fazendo exigências que podem ser cumpridas” (KLEIN, 1933/1996, p. 289). O superego começa a se transformar na consciência propriamente dita, perdendo seu caráter tirânico e gerando mais sentimento de culpa e valores de sentimento social.

Entretanto, na tirania desta instancia, a fixação da fase sádico-anal é de extrema relevância para a neurose obsessiva. “Nas fantasias uretrais e anais, ela [a criança] procura destruir o interior do corpo materno, empregando as fezes e a urina para atingir esse propósito” (KLEIN, 1933/1996, p. 291).  Os excrementos seriam como substâncias que queimam e corroem, também poderiam simbolizar armas de fogo e etc. Já o sadismo estaria voltado à destruição do corpo da mãe e de todo o conteúdo que estaria ai dentro, como os bebês e o pênis do pai. 

Ao atacar o corpo da mãe, a criança estaria inserida em um mundo hostil, persecutório, mas quando o superego é amenizado, suavizado, um possível ataque poderia desencadear o movimento de reparação que estaria associado ao movimento do desenvolvimento do sentimento de culpa e dos sentimentos morais.

Com base na análise de crianças muito pequenas, Klein (1933) ressalta:

 [...] a análise das camadas mais profundas do superego sempre leva à melhora considerável das relações de objeto da criança, da sua capacidade de sublimação e do seu poder de adaptação social – ela não só deixa a criança mais feliz e saudável, mas a torna mais capaz de sentimentos sociais e éticos (1933, p. 293).

A análise nunca poderia eliminar o núcleo sádico do superego, núcleo este constituído sob a primazia dos níveis pré-genitais, mas poderia suavizá-lo, fortalecendo o seu ego, penetrando  nas camadas mais profundas do superego, alcançando os níveis de ansiedade mais profunda.

Neste contexto, Klein ainda não tinha abordado especificamente a fase esquizo-paranóide, porém, em seus textos, as menções as ansiedades persecutórias começa a criar uma intensidade muito forte. Este contexto é de extrema relevância para este artigo. Por quê? O leitor deve estar se indagando qual seria a relevância destas menções, uma vez que este artigo trata da constituição do superego, tendo como pano de fundo a neurose obsessiva. Ressalto que  as ansiedades mais primitivas formam a base pela qual a neurose obsessiva se apóia, tornando o sintoma obsessivo uma defesa contra os núcleos paranoides, segundo a concepção kleniana.

Assim, a década de 30 e 40 precisa de uma leitura minuciosa, uma vez que, após 1946, segundo Hinshelwood (1992, p. 291). “[...] embora as defesas obsessivas fossem de grande interesse para Klein em seus trabalhos iniciais, como defesas específicas contra sentimentos persecutórios, após a influencia de Fairbain em 1946, elas saem da literatura kleniana”. Assim, vamos ao contexto da posição depressiva.

4. A Posição Depressiva e suas Características

Antes de escrever Uma Contribuição à Psicogênese dos Estados Maníaco-Depressivos em 1935, onde ressalta a posição depressiva pela primeira vez, Klein (1934) destaca a questão das fantasias persecutórias associadas as ansiedades mais primitivas, focando a ambivalência do amor e do ódio, como diz: “através da análise, chegamos aos conflitos mais profundos de onde surgem o ódio e a ansiedade, também encontramos lá o amor” ( KLEIN, 1934/1997, p. 299). Ao analisar a criminalidade, ela aponta que o amor (representante da pulsão de vida) estaria ‘enterrado’ ao lado do ódio (representante da pulsão de morte), sendo a análise a mola propulsora para o seu surgimento.

Essa ambivalência já preparava o terreno para o conceito de posição depressiva, que iria aparecer no ano subseqüente. Assim, os postulados sobre a ansiedade arcaica, a ambivalência, a constituição do superego e as relações objetais parciais são retomados no artigo Uma Contribuição à Psicogênese dos Estados Maníaco-Depressivos, escrito por Klein em 1935.

Neste artigo, clássico de sua obra, pela primeira vez ela traz o termo posição (como já descrito na nota de rodapé da página anterior) [6]. Klein não descarta os princípios das fases descritas por Freud, mas introduz essa concepção, retomando os mecanismos da introjeção e projeção, ressaltando: “desde o início, o ego introjeta objetos ‘bons’ e ‘maus’, sendo que o seio da mãe serve de protótipo para ambos (1935/1996, p. 304). Caso a criança venha possuí-lo, este torna-se um objeto bom; caso venha a perdê-lo, a criança poderá projetar toda a sua agressividade neste objeto, tornando-se um objeto mau, voraz, perigoso, esvaziando o seu mundo interno e ocasionando a destruição promovida pelo seu sadismo. Essa ansiedade, que neste momento ela define como paranóide, pode “ser presa e modificada pelos mecanismos obsessivos, que aparecem muito cedo” (1935/1997, p.304) Assim, as defesas obsessivas recaem no resguardo destes núcleos paranóides.

Com o desenrolar do desenvolvimento do ego, este se torna mais coeso e a ansiedade muda sua intensidade. Ocorre a passagem dos objetos parciais para o objeto total, propiciando o medo da perda como um todo. A identificação com o objeto bom, integral, possibilita  o desenvolvimento do amor e o desejo voraz de devorar o objeto identificado, reforçando a introjeção ( incorporação) do objeto total. A criança poderá preservar o objeto bom em seu interior devido ao medo, a destrutividade, que fora projetada para o exterior e que poderia vir a danificar este objeto.  Caso a criança venha a atacá-lo sadicamente em suas fantasias, este movimento poderá ocasionar a reparação do objeto devido a identificação com o mesmo.

Assim, por intermédio desta identificação com o objeto bom, o ego tem uma noção mais completa da realidade psíquica. Os movimentos reparatórios estão associados ao amor, a pulsão de vida enquanto que os movimentos de ódio estão associados a pulsão de morte, tornando o sadismo e a manifestação da ansiedade arcaica ‘lombadas’ no desenvolvimento mental da criança. Mas como que fica a constituição do superego durante esta posição depressiva?

Para Klein “no que diz respeito à natureza do superego e à história do desenvolvimento individual, minhas conclusões divergem das de Freud” (1940, p. 405). Os mecanismos de projeção e introjeção são fundamentais na constituição desta instância, pois conduzem  ao estabelecimento de objetos amados e odiados dentro de nós mesmos, que se organizam na constituição do ego no decorrer do mundo interior da criança.

Segundo Klein “esse mundo interior é formado por inúmeros objetos absorvidos pelo ego, que correspondem em parte à profusão de aspectos, bons e maus [...]” (1940/1996, p. 405). Na constituição do superego, temos a introjeção das figuras parentais, como também das pessoas reais internalizadas nas diversas situações oferecidas pelas experiências externas.

A constituição do superego é retomada em 1945, quando escreve O Complexo de Édipo à luz das Ansiedades Arcaicas. Neste contexto, segundo a nota do editorial inglês, Klein não associa a frustração oral do desmame como o ponto central da liberação dos impulsos edipianos e “nem que o complexo de Édipo começa principalmente sob o impulso do ódio” (1945/1996, p. 414). Ao contrário dos postulados anteriores, o complexo de Édipo coincide com o começo da posição depressiva, momento este em que ocorre uma diminuição das ansiedades persecutórias  e as tendências amorosas vem a um primeiro plano, norteados pela culpa e pelas reparações.  E como que Klein compreende a constituição do superego neste momento de sua obra?  Ela ainda associa a constituição desta instância a remota infância, associada a presença dos objetos parciais – ao seio, primordialmente.

Para Klein, “em ambos os sexos, o superego passa a existir durante a fase oral. Sob o domínio da vida de fantasia e de emoções conflitantes, a criança introjeta seus objetos - antes de mais nada, os pais -  em cada estágio de sua organização libidinal [...]” (1945/1996, p. 461). O superego é construído a partir destas introjeções que irão alimentar as fantasias primárias das crianças. Estas fantasias, devido a estas incorporações, nem sempre correspondem as pessoas reais no mundo da criança, conduzindo o superego a refletir os vários componentes e características das imagens introjetadas. Assim, todos os fatores que exercem uma influência sobre as relações de objeto da criança estão presentes deste o início da construção do superego.

Segundo Klein “o primeiro objeto introjetado, o seio da mãe, forma a base do superego” (1945, p. 461) Como a relação com o seio da mãe precede a relação como pênis do pai, a relação com a mãe introjetada vem a afetar todo o curso do desenvolvimento do superego.  Muitas das características mais importantes do superego, como as características amorosas ou destrutivas, são frutos dos componentes maternos iniciais do superego.

Em minha compreensão, no deslize do seio para o pênis, podemos encontrar as características sádicas projetadas no seio materno sendo deslocadas para o pênis, interferindo diretamente na problemática identificatória. Para me aprofundar nesta questão da problemática identificatória, especificamente da incorporação do pênis sádico, gostaria de recorrer a compreensão de Hanna Segal sobre os estádios primitivos do complexo de Édipo.

Na compreensão de Hanna Segal:

Tanto o menino quanto para a menina, o primeiro objeto de desejo é o seio da mãe, sendo o pai percebido inicialmente como rival. Contudo, em vista das ansiedades persecutórias e depressivas experimentadas pela criança em relação à mãe e seu seio, o pênis do pai se torna rapidamente, tanto para o menino quanto para a menina, um objeto alternativo de desejo oral, para o qual se pode voltar, afastando-se do seio (1964/1975, p. 124).

Na compreensão desta psicanalista sobre a obra kleniana, para o menino, a aproximação do pênis de seu pai como uma alternativa para o seio da mãe é primariamente um movimento para a homossexualidade passiva, ao mesmo tempo em que a incorporação do pênis paterno, via oralidade, permite a identificação com este, fortalecendo o caminho rumo à heterossexualidade. O desejo oral de incorporação logo dá espaço para a situação genital, em um desejo de cópula e de receber bebês dele.

Entretanto, a relação com o seio materno denota uma outra relação com a agressividade e com o sentimento de culpa. Na compreensão de Klein, os primeiros sentimentos de culpa, tanto nos meninos quanto nas meninas, tem a sua origem nos desejos sádico-orais de devorar a mãe, tendo origem no início da infância. A culpa seria a mola  que propicia o desenvolvimento e afeta o seu resultado.  Isto significa que ansiedade, culpa e sentimentos depressivos são pilares intrínsecos  do desenvolvimento emocional da criança e que estão presentes nas relações de objetos iniciais, que “consistem da relação com pessoais reais e com seus representantes no mundo interior “ (1945/1996, p. 463).

5. Conclusões

Primeiramente, gostaria de retomar a proposta deste artigo que versava sobre a constituição do superego primitivo, a partir das relações objetais parciais, na obra kleniana. A partir desta problemática, podemos trazer algumas características das três décadas estudadas.

Na década de 20, a técnica analítica do brincar possibilitava a análise das camadas mais primárias do superego, rodeadas por situações de ansiedade que poderiam gerar ataques ao corpo materno. Nos casos masculinos, o superego da mãe teria o seu devido valor, mas é o superego paterno que irá exercer a sua devida influencia. 

Nesta conjuntura, a ansiedade seria fruto da tirania de um superego, momento este em que a gênese deste superego primitivo seria um fator de extrema relevância para a compreensão das psicoses. Isto significa que o superego teria um componente pulsional, agressivo, que se voltaria contra o ego indefeso da criança, reforçando as fantasias monstruosas das crianças e suas ansiedades ‘persecutórias’, sendo esta deslocadas para os objetos externos.

Na década de 30, Klein dá um passo a mais, ressaltando a introjeção. Para esta autora, a formação do superego se inicia ao mesmo tempo em que a criança faz a primeira introjeção oral de seus objetos. Se a intensidade da ansiedade ganhou destaque na década de 20, na década de 30 é a sua amenização que chama a atenção de Klein. Ou seja, com a diminuição da ansiedade, as imagos terroríficas vão dando espaço para as imagos benignas e prestativas. O superego começa a se transformar na consciência propriamente dita, perdendo seu caráter tirânico e gerando mais sentimento de culpa e valores de sentimento social. Assim, quando o superego é amenizado, suavizado, um possível ataque poderia desencadear o movimento de reparação que estaria associado ao movimento do desenvolvimento do sentimento de culpa e dos sentimentos morais.

Ainda nesta mesma década, o fato de introjetar imagos mais amistosas, e não tão cindidas, possibilita observar uma mudança no caráter do superego. Isso se deve a superação da ansiedade primitiva, graças ao desenvolvimento da criança em direção ao estágio genital. Assim, as ameaças do superego tornam-se abrandadas por médio de advertências e censuras. Se, de um lado, temos a introjeção, e o papel da projeção na constituição do superego?

A projeção possibilita dissipar a ansiedade arcaica, propiciando a internalização de um objeto bom que vem a fortalecer o superego infantil. Tais mecanismos são retomados no início da década de 40, na constituição do superego, momento este em que temos a introjeção das figuras parentais, como também das pessoas reais internalizadas nas diversas situações oferecidas pelas experiências externas. O primeiro objeto introjetado, o seio da mãe, forma a base do superego. Assim, todo o desenvolvimento do superego vem a ser afetado pela relação com mãe. Como conseqüência, muitas das características mais importantes do superego, como as características amorosas ou destrutivas, são frutos dos componentes maternos iniciais do superego.

Por último, este artigo ressalta que os postulados mencionados acima tecem um olhar impar sobre a formação e a etiologia do superego a partir da visão desta psicanalista, uma vez que a compreensão da formação desta instância foi complementando a visão freudiana, ressaltando o papel das primeiras introjeções (e suas conseqüências) para a formação do psiquismo.

Referencias Bibliográficas

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1. Pós doutorando pelo Núcleo de Psicologia Clínica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Possui graduação em Psicologia pela Universidade Metodista de Piracicaba, mestrado e doutorado pela PUC-SP. email: henriquescatolin@hotmail.com

2. Supervisora do estágio pos-doutoral. Possui graduação em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Apresenta mestrado e doutorado em Psicologia Clínica por esta mesma instituição.

3. Esta concepção será alterada ao longo da sua obra, associando o início do complexo de Édipo a posição depressiva.

4. Entretanto, na origem do conflito edipiano, o superego teria um caráter tirânico

5. Klein (1929)  destaca que a gênese deste superego primitivo seria um fator de extrema relevância para a compreensão das psicoses.

6. Em 1952, ao final do seu artigo Algumas Conclusões Teóricas Relativas à Vida Emocional do Bebê, Klein afirma: “Escolhi o termo posição em relação às fases paranoide e depressiva porque esse agrupamento de ansiedades e defesas, embora surjam primeiramente durante os estágios iniciais, não se restringem a eles, mas ocorrem e recorrem durante os primeiros anos de infância e, em certas circunstancias, posteriormente na vida” (1952, p. 118).


Revista ESPACIOS. ISSN 0798 1015
Vol. 38 (Nº 50) Año 2017

quarta-feira, 6 de abril de 2022

Gilles Deleuze: Duas questões sobre a droga.



 

Gilles Deleuze: Duas questões sobre a droga.

por Gilles Deleuze | Trad.: Guilherme Ivo

São apenas duas questões. Vê-se muito bem que não se sabe o que fazer com as drogas (mesmo os drogados), mas também não se sabe como falar delas. Ora se invocam prazeres, difíceis de descrever e que já supõem a droga. Ora, ao contrário, invocam-se, causalidades demasiadamente gerais, extrínsecas (considerações sociológicas, problemas de comunicação e de incomunicabilidade, situação dos jovens, etc.). A primeira questão seria: Será que há uma causalidade específica da droga, e será possível procurá-la por esse lado?

Causalidade específica não quer dizer “metafísica”, tampouco exclusivamente científica (por exemplo, química). Não é uma infraestrutura cujo resto dependeria como de uma causa. Antes seria traçar um território, ou o contorno de um conjunto-droga, que estaria entrelaçado, por um lado, ao interior, com as diversas espécies de drogas e, por outro, ao exterior, com as causalidades mais gerais. Pego um exemplo de um domínio totalmente outro, o da psicanálise. Tudo o que pode ser dito contra a psicanálise não anula o seguinte fato: que ela buscou estabelecer a causalidade específica de um domínio, não apenas o domínio das neuroses, mas de formações e produções psicossociais de toda sorte (sonhos, mitos…). Pode-se dizer, de maneira bastante sumária, que ela traçou a causalidade específica como sendo o seguinte: mostrar a maneira pela qual o desejo investe um sistema de vestígios mnésicos e de afetos. A questão não é saber se essa causalidade específica era justa; seja como for, a busca por tal causalidade existia, e com ela a psicanálise fez com que abandonássemos as considerações demasiadamente gerais, mesmo que caíssemos em outras mistificações. O fracasso da psicanálise, relativamente aos fenômenos da droga, mostra muito bem que, na droga, trata-se de toda uma outra causalidade. Minha questão, porém, é esta: será possível conceber uma causalidade específica da droga, e em que direções? Por exemplo, na droga haveria algo de muito particular, nela o desejo investiria diretamente o sistema-percepção. Logo, seria totalmente diferente. Por percepção é preciso entender as percepções internas tanto quanto externas e, especialmente, as percepções de espaço-tempo. As distinções entre espécies de drogas são secundárias, interiores a esse sistema. Parece-me que as pesquisas, num certo momento, iam neste sentido: as de Michaux, na França, e, de um outro jeito, as da geração beat, na América, também as de Castañeda etc. Como todas as drogas primeiramente concernem às velocidades, às modificações de velocidade, aos limiares de percepção, às formas e aos movimentos, às micropercepções, à percepção devindo molecular, aos tempos sobre-humanos ou sub-humanos etc. Sim, como o desejo entra diretamente na percepção, investe diretamente a percepção (daí o fenômeno da dessexualização na droga). Tal ponto de vista permitiria achar o liame com as causalidades exteriores mais gerais, todavia sem perder-se nelas: assim, o papel da percepção, a solicitação da percepção nos sistemas sociais atuais, que faz com que Phil Glass diga que, de todo jeito, a droga mudou o problema da percepção, mesmo para os não-drogados. Mas tal ponto de vista também permitiria dar maior importância às pesquisas químicas, sem o risco, no entanto, de cair numa concepção “cientificista”. Ora, se é verdade que se esteve nessa direção, de um sistema autônomo Desejo-Percepção, por que hoje em dia parece que ela foi abandonada, ao menos parcialmente? Especialmente na França? Os discursos sobre a droga, dos drogados e dos não-drogados, dos médicos e dos usuários, recaíram numa confusão enorme. Ou seria então uma falsa impressão e não há como buscar uma causalidade específica? O que me parece importante na ideia de uma causalidade específica é que ela é neutra e vale tanto para o uso das drogas quanto para uma terapêutica.

A segunda questão seria dar conta do “revertério” da droga, em qual momento esse revertério sobrevém. Será que ele sobrevém tão rapidamente e de tal maneira que o fracasso ou a catástrofe façam necessariamente parte do plano-droga? É como um movimento “acotovelado”. O drogado fabrica suas linhas de fuga ativas. Essas linhas, porém, enrolam-se, põem-se a rodopiar em buracos negros, cada drogado em seu buraco, grupo ou indivíduo, como um caramujo. Mais afundado que chapado. Guattari falou disso. As micropercepções são recobertas de antemão, segundo a droga considerada, por alucinações, delírios, falsas percepções, fantasias, acessos paranoicos. Artaud, Michaux, Burroughs – que sabiam do que falavam – odiavam essas “percepções errôneas”, esses “sentimentos ruins”, que de uma só vez lhes pareciam ser uma traição e, no entanto, uma consequência inevitável. É também aí que todos os controles estão perdidos e que se instaura o sistema da dependência abjeta, dependência a respeito do produto, da dose, das produções fantasmáticas, dependência a respeito do traficante etc. Seria preciso, abstratamente, distinguir duas coisas: todo o domínio das experimentações vitais, e o das empreitadas mortíferas. A experimentação vital é quando uma tentativa qualquer lhe pega, se apodera de você, instaurando cada vez mais conexões, abrindo-lhe a conexões: tal experimentação pode comportar um tipo de autodestruição, ela pode passar por produtos de acompanhamento ou de arrebatamento, tabaco, álcool, drogas. Ela não é suicida, porquanto o fluxo destruidor não se assenta sobre si mesmo, mas serve à conjugação de outros fluxos, sejam quais forem os riscos. Porém, a empreitada suicida, pelo contrário, é quando tudo está assentado sobre este único fluxo: “meu” tiro, “minha” sessão, “meu” copo. É o contrário das conexões, é a desconexão organizada. Em vez de um “motivo”, que serve aos verdadeiros temas, às atividades, um único e raso desenvolvimento, como numa intriga estereotipada, onde a droga existe pela droga e suscita um suicídio estúpido. Há somente uma linha única, ritmada pelos segmentos “paro de beber – recomeço a beber”, “não estou mais drogado – logo, posso retomar a coisa”. Bateson mostrou como o “não bebo mais” faz rigorosamente parte do alcoólatra, pois é a prova efetiva de que agora ele pode voltar a beber. Assim é com o drogado, que está sempre parando, pois é a prova de que é capaz de retomar. O drogado, nesse sentido, é o perpétuo desintoxicado. Tudo é assentado sobre uma linha morna suicida, com dois segmentos alternativos: é o contrário das conexões, das linhas múltiplas entremisturadas. Narcisismo, autoritarismo dos drogados, chantagem e veneno: eles se juntam aos neuróticos, em sua empreitada para aborrecer o mundo, para espalhar seu contágio e impor os seus casos (de pronto, mesma empreitada da psicanálise como pequena droga). Ora, por que, como se faz essa transformação de uma experiência, mesmo que autodestrutiva, porém viva, em empreitada mortífera de dependência generalizada, unilinear? Será ela inevitável? Se há um ponto preciso de terapêutica, é aqui que ele deveria intervir.

Talvez meus dois problemas se juntem. Talvez seja no nível de uma causalidade específica da droga que se poderia compreender por que as drogas acabam tão mal e desviam sua própria causalidade. Uma vez mais, que o desejo invista diretamente a percepção é algo muito surpreendente, muito belo, uma espécie de terra ainda desconhecida. Mas as alucinações, as falsas percepções, os acessos paranoicos, a longa lista das dependências, isso é por demais conhecido, mesmo que seja renovado pelos drogados, que se arvoram de experimentadores, cavaleiros do mundo moderno, ou doadores universais da má consciência. De um ao outro, o que ocorre? Será que os drogados não se serviriam da ascensão de um novo sistema desejo-percepção para tirar disso o seu proveito e fazer a sua chantagem? Como os dois problemas se entremeiam? Tenho a impressão de que, atualmente, não se avança, não se está fazendo um bom trabalho. O trabalho. O trabalho certamente está em outro lugar que não nessas duas questões, porém, atualmente, nem mesmo se compreende onde poderia estar. Os que conhecem o problema, drogados ou médicos, parecem ter abandonado as pesquisas, para si próprios e para os outros.

Gilles Deleuze


Notas

  1. Texto extraído do livro Dois Regimes de Loucos: textos e entrevistas (1975 – 1995). (São Paulo: Editora 34, 2016, pp. 158-62.)
  2. Título do editor francês para o original “Deux questions”, in François Châtelet, Gilles Deleuze, Erik Genovois, Félix Guattari, Rudolf Ingold, Numa Musard e Claude Olievenstein,… Où il est question de la toxicomanie, Alençon, Bibliothèque des Mots Perdus, 1978.
  3. Este texto servirá a Deleuze e Guattari posteriormente, no platô Devir-intenso, devir-animal, devir-imperceptível de Mil Platôs, mais especificamente nas “Lembranças de uma molécula” (Paris, Éditions de Minuit, 1982, pp. 333-51). Edição brasileira, Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia (São Paulo, Editora 34, 1997, vol. 4, pp. 63-81).



terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Perversão: uma clínica possível

 Perversão: uma clínica possível

 

Alberto Henrique Azeredo CoutinhoI; Ana Cristina Teixeira da Costa SallesII; Berenicy Raelmy SilvaIII; Eliana Maria DelfinoIV; Eliane Mussel da SilvaV; Geraldo de MoraesVI; Marília Brandão Lemos MoraisVII; Suzanne Beaudette DrummondVIII

Círculo Psicanalítico de Minas Gerais

 

 


RESUMO

A clínica da perversão apresenta inúmeras dificuldades à psicanálise, seja pelas características próprias da estrutura perversa, fundada no mecanismo da recusa da castração, seja pela ineficácia da neutralidade e associação livre neste trabalho. Revendo a literatura existente e recorrendo à própria experiência clínica, os autores propõem uma estratégia diferente para o manejo da transferência, buscando viabilizar o trabalho clínico e uma saída para a posição paralisante de moralista e/ou voyeur na qual o analista é colocado pelo perverso a fim de desestabilizar o processo analítico. Propondo uma posição alternativa ao "semblant" de "sujeito-suposto-saber", os autores apostam numa possível clínica da perversão, podendo daí advir um sujeito menos cativo de sua cena fantasmática.

Palavras-Chave: Clínica da perversão, Transferência, Estratégia, Tática, "Sujeito-suposto-saber", "Sujeito-suposto-saber-fazer", Desejo de analista


ABSTRACT

Clinical work with perverse patients presents numerous difficulties to psychoanalysis, be that due to the characteristics typical of the perverse structure, which is founded on the mechanism of disavowal, or be that due to the inefficiency of neutrality and free association in this kind of practice. A study of existent literature on the subject and a thorough examination of their own clinical findings led the authors to propose a different form of strategy for dealing with transference that would make clinical work with these patients plausible and indicate options for the paralyzing position which is imposed on the analyst by the perverse patient in order to derange the analytic process. By proposing an alternative for the "semblance subject-supposed knowledge", the authors defend the idea that clinical work with perverse patients is possible, resulting in a subject less captive of the phantasmagoric scene.

Keywords: Clinical work with perverse patients, Transference, Strategy, Tactics, Subject-Supposed-Knowledge, Subject-Supposed-Knowledge-on-doing, Analyst's wish


 

 

Introdução

A escolha da palavra perversão para nomear uma estrutura clínica caracterizada por um desvio sexual, denota um sentido pejorativo próprio de sua origem em latim: "ato ou efeito de perverter(-se); corrupção, depravação e desmoralização" (Aurélio:1318)1 Embora em psicanálise se fale da perversão apenas em relação à sexualidade, o sentido moral e ético ainda é marcado pelo conceito de perversidade.

No entanto, Freud já dizia (1905) que na vida sexual todos nós transgredimos os estreitos limites do que se considera normal. São suas as palavras: "As perversões não são bestialidades nem degenerações no sentido patético dessas palavras. São o desenvolvimento de germes contidos, em sua totalidade, na disposição sexual indiferenciada criança...". Mais adiante, acrescenta: "Todos os psico-neuróticos são pessoas de inclinações perversas fortemente acentuadas, mas recalcadas e tornadas inconscientes no curso do seu desenvolvimento. Por isso suas fantasias inconscientes exibem um conteúdo idêntico ao das ações documentadas nos perversos"...2

Assim, concluímos que a presença do ato perverso na vida sexual não implica a existência de estrutura perversa. O sujeito neurótico pode apresentar uma montagem perversa para solução do problema edipiano, ou como forma de evitar a dor psíquica revelando com isso traços perversos. O processo analítico com este tipo de paciente difere radicalmente do trabalho realizado com pacientes de estrutura perversa, propósito deste trabalho.

No trabalho clínico com pacientes perversos, deparamos-nos com manifestações hostis e desqualificativas que dificultam nossa função de escuta psicanalítica, pois repetidamente o analista se encontra enlaçado como objeto real de gozo.

Sabe-se, ainda, que o perverso verdadeiro dificilmente busca a psicanálise, mesmo porque a prática perversa lhe garante o acesso ao gozo. Como Freud nos ensina, o objeto fetiche, além de assegurar o prazer sexual, ainda é considerado salutar e propício ao fetichista. Quando, porventura, acon-tece dele procurar um analista, não é em função da sua prática sexual. Se na neurose o sujeito se questiona a respeito do seu desejo - "Que queres?", "Que quero?" -, na perversão não existe uma pergunta, mas uma resposta sobre o desejo.

Na perversão, o desejo aparece como vontade de gozo e o ato é viven-ciado como vitorioso triunfo isento de qualquer sentimento de culpa. O perver-so sabe o que quer e isto é a base da sua arrogância, já que está convencido de saber a verdade sobre o gozo. Desta forma, ele não está à mercê das apreensões, inibições, recriminações, auto-acusações e frustrações que angustiam o sujeito neurótico. Pelo contrário, o perverso não se penaliza e ainda vê o sofrimento do neurótico com desprezo. Para ele o neurótico é um indivíduo que não sabe o que quer, que não sabe gozar.

Jacques-Alain Miller (1989:356-357) ressalta que "o perverso é aquele que tem a resposta que demonstra o real do seu gozo como constante, assegurado e sempre pronto para ser utilizado"3. Ele está constantemente a postos para o ato, agindo sempre na hora certa. Por sua vez, o neurótico mede o tempo e seleciona criteriosamente sua hora de agir, pois ele é um sujeito de falta, de desejo; a ele são impostos os intervalos do véu da alienação.

De acordo com o que foi assinalado, se o que está em jogo é o gozo, não há demanda de análise. O sujeito perverso sabe o que fazer, não se interroga, realiza o ato e o repete reiteradamente. Quando a relação com o gozar é perturbada (como, por exemplo, ocorre com o rompimento de contrato por parte do parceiro ou, ainda, quando se deu o advento da Aids e suas mortais conseqüências), a ruptura da montagem perversa desestabiliza o sujeito possibilitando o surgimento da angústia, da loucura ou da depressão. Nesses momentos o perverso pode buscar um analista, mas como será sua relação com ele? Como se manifesta a transferência no sujeito perverso?

 

A posição subjetiva do perverso na relação analítica

O que o perverso quer do analista? Aliviar-se de algum mal-estar momentâneo, sem que esteja disposto a abrir mão de seu gozo mortífero? Utilizar-se da análise como um álibi contra possíveis implicações médico-legais de seus atos eventualmente criminosos, deles fazendo o analista um cúmplice? Como mestre da retórica, apropriar-se do discurso analítico para refinar sua tarefa inesgotável de desafiar a lei, através da busca do gozo a qualquer custo? Reverenciar essa mesma lei (representada pelo analista), confessando-lhe suas condenáveis "encen-ações reais", só para poder desafiá-la novamente a cada relato interminável e, assim, fantasmaticamente triunfar sempre sobre a castração? Formar um par perverso com o analista, deslocando-o do lugar da escuta e reduzindo-o a um mero ouvinte e voyeur de seu monólogo exibicionista?

Em qualquer dessas demandas, a transferência é minada em sua função de suporte para a interpretação, dando lugar a uma relação estéril com o analista, da qual o perverso busca sempre auferir algum lucro que atenda seu propósito de manter o controle. As regras da associação livre e da neutralidade revelam-se inúteis para o trabalho analítico; a primeira por ser sistematicamente desrespeitada pelo analisando e substituída pelo relato compulsivo e inflexível de suas "encenações reais", e a segunda por instalar o analista exatamente no lugar de ouvinte passivo e de cúmplice que o perverso lhe aponta e manobra para mantê-lo. Assim, o perverso desafia o psicanalista em sua práxis e em sua ética, reeditando no real de suas "encen-ações" a recusa à castração que a análise ameaça impor-lhe pela via do simbólico.

Essa recusa é sustentada à custa de um imenso e desgastante investimento psíquico que se defronta porém com uma realidade da qual eventualmente o perverso pode perceber que, mesmo ele, não pode escapar: a inexorabilidade do tempo. A decadência física e a falibilidade do corpo, do qual se utiliza impiedosamente na repetição de suas encenações na busca compulsiva pelo gozo, acabam por confrontá-lo com o horror inconsciente de não poder depender delas indefinidamente para escapar da angústia, da loucura e da melancolia, que a perversão manteve afastadas até então. Este ponto limite - que ocasionalmente pode levar o perverso a procurar um analista ou que pode surgir no curso de sua análise - é exatamente a possível fenda que abala toda sua estrutura defensiva e através da qual pode-se entrever alguma possibilidade de subjetivação e de uma verdadeira demanda de trabalho analítico.

Entretanto, esse trabalho pode ser intolerável para o perverso por implicar sofrimento psíquico, sempre por ele negado por meio do mecanismo da recusa. Quando a crença ilusória é colocada à prova pela realidade, surge uma imensa angústia pois, como disse Flavio Ferraz (2000:98), "não é só sua vida sexual que foi construída sobre o alicerce da clivagem, mas sim toda sua superfície identificatória"4.

O trabalho de subjetivação o obrigará a abandonar, pelo menos parcialmente, o gozo proveniente do seu ato impostor. Como ilusionista, o perverso é mestre em posicionar o outro de forma a se impor ao seu olhar. Seu intento, ao designar ao analista o lugar de espectador, é o de paralisá-lo. O êxito da análise, num primeiro momento, depende de o analista tolerar o discurso de um paciente que se mantém no mundo da ilusão. O sexo explícito e o horror reluzente, próprios do discurso perverso, fascinam e ameaçam quem o ouve, colocando o "desejo de analista" à prova, fazendo com que o analista se sinta questionado em seu saber.

Na relação analítica é comum escutarmos o perverso utilizando o vocabulário psicanalítico, contudo sem a intenção de estabelecer uma interlocução. Sua fala, como bem apontou François Perrier (Clavreul, 1900:154)5, permanece "inarticulável", podendo ser vista como um desafio, uma manobra de redução do terceiro ou uma sedução. A transferência por ele montada é de ordem narcísica, ele nega ao analista o pedestal do "sujeito-suposto-saber". As intervenções do analista que desnudam a clivagem do perverso são declinadas visto que, para ele, é primordial se manter fora do campo do Outro, pois é lá que reside a angústia - portão de entrada do desejo.

O discurso do perverso é uma fala vazia de sentido que exclui a angústia e condena o desejo a circular fora da cadeia discursiva. Ele sustenta seu desejo pelo gozo, sustenta sua vontade de gozo com o ato. No confronto entre a palavra e o ato prevalece, no perverso, "a ostentação demonstrativa da sua aposta em ato"6. Este permite que ele alcance o próprio gozo, ao mesmo tempo em que sustenta o gozo do Outro. Ou seja, o perverso se faz objeto a serviço do gozo do Outro, ele se dedica a tamponar a falta, o furo do Outro para que exista como sujeito não barrado ( aS ). Assim, o gozo do perverso depende do não-consentimento do outro e advém da dor provocada no parceiro.

Da mesma forma como age com seu par, o perverso reedita na cena analítica sua vontade de gozo. Por privilegiar uma Lei recusada que o persegue, uma cultura narcisista que o determina, ele procura definir as regras do jogo e manter o controle do setting analítico. A conjunção dos elementos que caracterizam a relação transferencial na análise do perverso acaba por encurralar o analista entre duas possíveis posições polarizadas, ambas dissonantes com a ética da Psicanálise: a de moralista e regulador (S2) ou a de cúmplice e voyeur (a). Assim, a transgressão e o desafio contumaz à lei por parte do perverso, o sistemático desrespeito à "regra fundamental" da associação livre e sua substituição pela confissão repetitiva e monótona de suas "encen-ações", e o seu absoluto desprezo pelo "sujeito-suposto-saber" dificultam ou impossibilitam ao analista ocupar sua posição. Em vez de semblant de objeto, o analista é tomado pelo perverso como mais um objeto real de gozo (a), ao ser por ele instalado na posição masoquista de ouvinte passivo, cúmplice e voyeur do seu discurso exibicionista. Ou, na tentativa de escapar desta posição paralisante e diante da pobreza simbólica e fantasmática do discurso perverso, o analista pode flagrar-se na posição sádica de moralista e regulador (S2), o que estimula o desafio da transgressão perversa e alimenta a perpetuação do gozo.

Basculando entre estas duas posições, o analista é destituído de seu lugar e portanto de sua função, havendo o risco de estabelecer uma relação dual com o perverso na qual desaparece o "desejo de analista". É precisamente neste ponto que ele desmonta o dispositivo analítico e questiona seu arcabouço teórico.

Assim, o grande desafio que se impõe ao analista no trabalho com o perverso é o de achar uma posição que lhe permita aproveitar aquilo que o sujeito traz além do relato de suas "encen-ações". Desafio que passa necessariamente por um posicionamento teórico e técnico diverso daquele consagrado no trabalho analítico com o neurótico.

 

Uma clínica possível

Lacan teorizou que a direção do tratamento psicanalítico, em analogia às guerras, comporta os níveis da política, da estratégia e da tática. Neste sentido, ética, manejo da transferência e interpretação são, respectivamente, os princípios que devem nortear o analista no embate que se trava, no setting analítico, entre o "desejo de analista" e as resistências do paciente. Se para a análise do neurótico obtemos uma satisfatória eficácia clínica, no trabalho com o perverso as questões técnicas são frontalmente questionadas e minadas pela posição ocupada pelo paciente e por aquela na qual ele busca manter o analista. Este, se for aprisionado pelo discurso perverso nas posições de moralista/regulador ou de cúmplice/voyeur, se verá incapaz de interpretar e será manejado na transferência, incorrendo no risco de perder até mesmo o princípio ético central de seu trabalho: o amor à verdade.

Qual seria a estratégia adequada à análise na perversão?

Se para o neurótico a estratégia analítica se baseia na instalação de uma neurose de transferência que permite a interpretação ao longo do deslizamento da cadeia significante, na análise do perverso a estratégia é outra. No lugar do material simbólico (sintomas, sonhos, associações), ele oferece ao analista o real de suas "encen-ações", que carecem do duplo sentido que propicia a intervenção interpretativa pela palavra. Intitulando-se mestre do gozo e lutando por manter a angústia no campo do Outro, o perverso recusa ao analista o pedestal do "sujeito-suposto-saber". Esse paciente não busca uma cura para seu sintoma, tampouco um saber sobre seu desejo, a ele só interessa fazer o outro gozar. Portanto, a "moeda de troca" na relação transferencial com perversos não pode se situar preferencial ou exclusivamente no plano simbólico como na análise com neuróticos.

A perspicaz observação de Jean Claude Maleval (1998:22), ao confrontar as estruturas clínicas em suas relações com o gozo, nos indica um caminho para o manejo da transferência com perversos. Esse autor pontuou que, se o psicótico tem uma relação de certeza quanto ao gozo do Outro e o neurótico mantém uma posição de suposição sobre esse gozo, o perverso testemunha um saber fazer so-bre o gozo em sua interação com o outro7.

A idéia, aqui defendida, é de se buscar, na análise do perverso, a instalação do "Sujeito-suposto-saber-fazer". A atribuição de um "saber fazer" propiciaria ao analista intervir do lugar de detentor de um saber sobre o que o perverso deseja: gozar. Tal atribuição possibilitaria a emergência de uma relação transferencial que, se configurada, permitiria ao perverso supor que há um sujeito para além do seu "saber fazer". Conseqüentemente, haveria uma transformação da posição do sujeito com seu saber, até então absoluto. Um efeito da instalação da transferência seria a de levantar a suspeição sobre seu ato, deslocando para o que há de verdade no sujeito - a falta, desta maneira possibilitando-lhe o ingresso no campo do Outro.

As situações especialmente difíceis impostas ao trabalho analítico com o perverso exigem recursos táticos, diferentes da interpretação, que visem instaurar o "sujeito-suposto-saber-fazer" na posição do analista. Embora a Psicanálise seja uma clínica do singular, a experiência adquirida com a clínica da perversão permite prever uma gama de desafios endereçados ao analista pelo paciente, aos quais se deveria sempre responder de forma a sustentar a posição estratégica aqui defendida. Entre os possíveis recursos táticos para o manejo da transferência com perversos apontamos: a trivialização, a "douta ironia", o paradoxo, o humor, o ato analítico, o desvelamento da angústia, a atribuição de sentido e a restauração histórica.

As respostas do analista ao perverso na direção da cura dependem diretamente da posição que este ocupa em relação ao Outro. Assim, quando o perverso se posiciona enquanto encarnação do saber fazer gozar, é necessário que o analista suporte o jogo perverso no qual ele é chamado como parceiro, acolhendo o relato de suas encen-ações sexualizadas e violentas, confrontando o horror do gozo a partir do que podemos chamar da "trivialização na transferência". Recurso utilizado para atestar o caráter "prosaico" de suas encen-ações, levando o perverso a se questionar sobre este saber rígido e implacável que o escuda da desilusão, da angústia e, ainda lhe garante fazer o Outro gozar.

A mensagem que se pretende transmitir ao perverso, ao remeter seu discurso reluzente de horror à triviali-dade, é a de que seus atos não comportam a originalidade que ele lhes atribui, seja por sua repetição monótona denunciada pelo analista, seja porque este os escuta com o aparente desinteresse de quem "já sabe" sobre o que é relatado. Só se pode tratar como trivial aquilo que se domina. Agindo desta maneira em relação ao gozo, o analista esvazia o caráter precioso que o perverso dá às suas encen-ações, convidando-o a se questionar sobre elas e a perceber sua função de defesa contra a angústia.

A ironia pode constituir para o analista um valioso instrumento para lidar com o discurso paralisante do perverso. Proveniente do grego eiróneia e significando 'interrogação', a palavra denota um "modo de exprimir-se que consiste em dizer o contrário daquilo que se está pensando ou sentindo, ou por pudor em relação a si próprio ou com intenção sarcástica e depreciativa em relação a outrem" (Aurélio: 969). Porém, o sentido que pretendemos aqui utilizar se encontra na expressão ironia socrática, definida como um "modo de interrogar pelo qual Sócrates levava o interlocutor ao reconhecimento de sua própria ignorância" (idem), técnica que passou a ser conhecida como socratismo.

Lacan postulou que o analista escutasse o neurótico com "douta ignorância" sobre o que é dito. Tomando-lhe emprestado a expressão, sugerimos que na perversão o analista escute e construa suas intervenções sobre o conceito de "douta ironia" em relação ao ato perverso. Sem responder ao escárnio desafiante com que o paciente trata o saber do analista, o que se pretende, na mesma direção apontada pela "trivialização", é deslocar o discurso perverso da repetição de suas "encenações", abrindo espaço para um saber além do fazer gozar e para a verdade do sujeito.

Para que se vença o impasse analítico entre uma escuta acolhedora e conivente e a atitude moralista de denúncia de uma prática, propomos que o analista opere com um paradoxo: quando localizado pelo perverso na posição de cumplicidade, o analista deve fazer semblant do grande Outro, assim representando um saber fazer, porém com um poder que não subjugue o perverso e nem dele goze. Por outro lado, quando o perverso localizar o analista como moralista, detentor da lei, estrategicamente, este faria semblant do objeto, causa de desejo. Da posição de objeto, o analista apontaria para Outra cena, buscando a instalação do duplo sentido da dimensão simbólica: "o que quer com isso?".

Em se falando de recursos táticos, não podemos nos esquecer do humor, que por sua própria natureza é extremamente adequado ao trabalho com o perverso. Como bem apontou Freud, o humor utiliza o mecanismo de recusa para propiciar um deslocamento da dor. Intervir com humor, além de desarmar o confronto analítico, interpela a relação imaginária de cumplicidade do perverso, introduzindo uma relação outra de parceria. Ao compartilharem da jocosidade inerente ao humor, ocorre um reposicionamento do par e, conseqüentemente, um certo redimensionamento da angústia que se transfere em parte ao campo do paciente por não ser mais exclusiva do campo do outro. O dispositivo humorístico bem demonstra que a interdição do gozo não é decorrência de qualquer tipo de proibição por parte do analista; ela está articulada à função de regulação da lei na própria dimensão discursiva. A lei da qual falamos é a lei que regula o desejo; naturalmente ela barra o acesso do sujeito ao gozo, pois é o prazer como ligação à vida que barra o gozo.

O ato analítico é outro recurso indispensável à análise do perverso, pois por se situar praticamente fora do simbólico, no registro do real, o perverso manifesta em atos (encen-ações) aquilo que teria que ser dito em palavras. Considerando a primazia da clínica do real na perversão, faz-se necessário o trabalho com o tempo lógico e o corte de sessões a fim de deslocar o controle, privando o perverso do domínio da relação, tão essencial a ele. Sugerimos, ainda, o estabelecimento de um contrato flexível, com o uso opcional e/ou alternado do divã, procedimento que visa retificar a presença ou ausência do olhar do analista enquanto objeto fetichizado. Quando o perverso se posiciona enquanto objeto que instrumentaliza o nosso gozo e nos convoca como sujeito barrado para garantir - com a presença de nosso olhar - o seu gozo, devemos produzir um corte com nosso ato, criando um espaço vazio de qualquer significação, sustentando uma posição ética para fazer emergir algo da verdade encoberta por seu saber fazer. Contudo, a fragilidade da borda representacional exige que esse corte seja muito bem calculado a fim de evitar um colapso de seus limites de identidade e/ou uma fuga da análise.

Buscamos, com os recursos mencionados, uma subjetivação da posição perversa, ao preço da eclosão da angústia e de sua própria fragmentação, pois o risco de desmontagem da sua recusa fundamental sinaliza o perigo iminente de se haver com o desamparo absoluto vivenciado diante do "não saber".

De acordo com os princípios éticos que norteiam o nosso trabalho, enfatizamos que a posição do analista não é de mestria. Ao contrário, para a instalação da transferência na sua dimensão real, cabe ao analista emprestar palavras, boca e corpo - distintos do conjunto de órgãos com o qual o perverso costuma gozar - para delinear uma borda de contenção ao gozo mortal. É necessário que o analista, em seu trabalho, desempenhe o papel de escriba, ou seja: de registrar e testemunhar o trabalho que realiza o paciente para além da narrativa de suas encen-ações, resgatando a função da escuta. Enquanto escriba e testemunha, o analista deve religar os cacos da história relatada, construir juntamente com o sujeito e acompanhá-lo nessa construção para atribuição de um sentido. Para sustentar o desejo de analista, é imprescindível que se ofereça a via discursiva e um laço social que permita circunscrever o gozo do perverso, possibilitando, assim, um trabalho com o Inconsciente. Isto poderá levá-lo a construções que regulem, de certa forma, seu dilema com o gozo, o que não significa trocar o modo de gozar.

Podemos dizer que a estratégia do analista deve ser, além de desfazer a dessimetria da relação, a de devolver ao perverso uma certa autonomia ao libertar o sujeito de sua certeza quanto ao Outro que goza de pleno poder sobre ele. Diante do perverso que vem à análise contabilizar seu gozo, o analista deve administrar, em doses pequenas e suportáveis, o sentido de suas "encenações", costurando em sua história algo da sua verdade. Se o analista conseguir acenar-lhe com a possibilidade do desejo, que é uma articulação entre o gozo e o amor, pode ser que ele faça valer o "desejo de analista".

O trabalho analítico com o perverso deve propiciar uma saída pela vertente do amor: uma mudança na sua posição subjetiva que acarrete um movimento do pólo de gozo em direção ao pólo de amor. A circunscrição do gozo abre uma janela em seu cárcere gozoso, permitindo o advento de um sujeito não mais cativo de sua cena fantasmática.

 

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I Médico. Participante do Fórum de Psicanálise do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais - CPMG.
II Psicóloga. Psicanalista. Membro do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais - CPMG.
III Psicóloga. Participante do Forum de Psicanálise do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais - CPMG.
IV Psicóloga. Participante do Forum de Psicanálise do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais - CPMG.
V Médica. Psicanalista. Membro do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais - CPMG.
VI Engenheiro. Participante do Fórum de Psicanálise do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais - CPMG.
VII Médica. Psicanalista. Membro do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais - CPMG.
VIII Médica. Psicanalista. Membro do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais - CPMG.
1 FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicioná-rio Aurélio Básico da Língua Portuguesa, 1995, p. 501.
2 FREUD, Sigmund. Fragmento da análise de um caso de histeria, ESB, v. VII, 1989, P. 53-54.
3 MILLER, Jacques Alain. Patologia da ética. In Lacan Elucidado - Palestras no Brasil, 1997, p. 356-357.
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