terça-feira, 26 de julho de 2022

Alguns mecanismos neuróticos no ciúme, na paranoia e na homossexualidade

 

— . — .1932 | Alguns mecanismos neuróticos no ciúme, na paranoia e na homossexualidade

De quelques mécanismes névrotiques dans la jalousie, la paranoïa et l’homosexualité ]

Tradução realizada por Jacques Lacan [1901-1981] do artigo “Über einige neurotische Mechanismen bei Eifersucht, Paranoia und Homosexualität”, publicado por Sigmund Freud [1856-1939] no ano de 1922. Trata-se do primeiro — e, até onde se tem notícia, único — texto de Freud integralmente traduzido e publicado por Lacan. De modo a facilitar o cotejo de alguns termos fundamentais, ao longo desta tradução brasileira os vocábulos apresentados entre colchetes dizem respeito à versão francesa e ao original alemão, respectivamente, da seguinte maneira: [tradução lacaniana | original freudiano ].

Revue française de psychanalyse, 1932, vol. V, n. 3, pp. 391-401

Internationale Zeitschrift Psychoanalyse, 1922, vol. VIII, n. 3, pp. 249-258

A| O ciúme pertence a estes estados afetivos que se podem classificar, assim como se faz com a tristeza [tristesse|Trauer],[1] como estados normais. Quando ele parece faltar no caráter e na conduta [conduite|Benehmen] de um homem, é justificado concluir que sucumbiu a um forte recalcamento [refoulement|Verdrängung], e desempenha na vida inconsciente um papel ainda maior. Os casos de ciúme anormalmente reforçado, com os quais a análise lida, mostram-se triplamente estratificados. Essas três camadas ou graus do ciúme merecem as denominações de:

| ciúme de concorrência, ou ciúme normal;
| ciúme de projeção;
| ciúme delirante.

Sobre o ciúme normal há pouco a dizer do ponto de vista da análise. É fácil ver que ele é composto essencialmente pela tristeza ou dor em acreditar que o objeto amado está perdido, bem como pela ferida narcísica, até onde ela se deixa isolar da anterior; estende-se ainda aos sentimentos de hostilidade contra o rival preferido, e, em maior ou menor medida, à autocrítica que quer imputar ao próprio eu [moi|Ich] do sujeito[2] a responsabilidade pela perda amorosa. Esse ciúme, ainda que o denominemos normal, nem por isso é racional — quero dizer, oriundo de situações [situations|Beziehungen][3] atuais; comandado pelo eu consciente, e só por ele, consoante a relações [relations|Verhältnissen][4] reais. Ele, com efeito, se enraíza profundamente no inconsciente; prolonga as primeiríssimas tendências [tendancesRegungen][5] da afetividade infantil e remonta ao complexo de Édipo (392) e[6] ao complexo fraternal, que são do primeiro período sexual. Resta digno de nota que ele seja vivido por muitas pessoas de um modo bissexual; quero dizer que, no homem, para além da dor em relação à mulher amada e o ódio contra o rival masculino, também uma tristeza — que se deve a um amor inconsciente pelo homem — e um ódio contra a mulher — vista como rival — agem nele para reforçar o sentimento. Sei de um homem que sofria muito fortemente de acessos de ciúme, e que, conforme ele dizia, atravessava os mais árduos tormentos em uma consciente substituição imaginativa à mulher infiel. A sensação, que ele então experimentava, de estar privado de todo e qualquer recurso;[7] as imagens que encontrava para o seu estado — retratando-se entregue, feito Prometeu, à voracidade do abutre, ou jogado em um ninho de serpentes acorrentado —, ele próprio as relacionava à impressão deixada por várias agressões homossexuais que havia sofrido quando menino.

O ciúme do segundo grau, ciúme de projeção,[8] provém, tanto no homem como na mulher, da própria infidelidade do sujeito,[9] realizada na vida, ou de impulsos [impulsions|Antriebe] à infidelidade que caíram no recalcamento. É um fato de experiência cotidiana que a fidelidade, sobretudo a que se exige no casamento, só se mantém à custa de uma luta contra constantes tentações. E, no entanto, aquele que as nega em si sente a pressão por elas exercidas com tamanha força que irá inclinar-se a adotar um mecanismo inconsciente para se aliviar. Ele atingirá esse alívio — digo, a absolvição da sua consciência — projetando os seus próprios impulsos à infidelidade para a parte oposta, a quem ele deve fidelidade. Esse potente mote pode então se servir dos dados imediatos da observação [données immédiates de l’observation|Wahrnehmungsmaterials][10] que dão a ver as tendências inconscientes de mesma sorte da outra parte, e ainda encontraria justificativas na reflexão de que o parceiro ou a parceira muito provavelmente não vale muito mais do que a própria pessoa.[11]

Os costumes sociais deram um jeito nesse comum estado de coisas com muita sabedoria, dando certa margem ao gosto da mulher casada em agradar e à queda do marido pela conquista. Através dessa licença, tende-se a drenar a irreprimível tendência [tendance|Neigung][12] à infidelidade e a torná-la inofensiva. A convenção estabelece que as duas partes (393) não devem, mutuamente, levar em conta esses passinhos miúdos em direção à infidelidade; e acontece, no mais das vezes, que o desejo [désir|Begierde] provocado por um objeto estranho [étranger|fremd] se sacie — em um repatriamento [retour au bercail|Rückkehr] à fidelidade — com o objeto que é o seu. Mas o ciumento não quer reconhecer essa tolerância convencional; ele não acredita que haja parada nem volta nessa via, uma vez que ela tenha sido tomada. Nem que esse jogo social, que é o próprio “flerte”, possa ser uma garantia contra a realização da infidelidade. No tratamento de um ciumento como esse, deve-se se abster de discutir os dados de fato nos quais ele se apoia; só se pode visar a determinação de que ele os aprecie de outro modo.

O ciúme que tem origem em uma projeção como essa já tem quase um caráter delirante, mas ele não se opõe ao trabalho analítico que revelará as fantasias [fantasmes|Phantasien] inconscientes da própria infidelidade do sujeito.[13]

É pior com o ciúme da terceira espécie, ciúme verdadeiramente delirante.[14] Ele também vem de tendências [tendances|Strebungen] à infidelidade reprimidas [réprimées|verdrängte], mas os objetos de suas fantasias são de natureza homossexual. O ciúme delirante responde a uma homossexualidade “fermentada” [tournée à l’aigre|vergorenen][15] e tem o seu lugar inteiramente designado entre as formas clássicas da paranoia. Tentativa de defesa contra uma tendência homossexual demasiadamente forte, ela se poderia deixar circunscrever (no homem) por esta fórmula: “Eu[16] não o amo, quem o ama é ela”.[17]

Em um dado caso de delírio de ciúme cumpre esperar ver o ciúme tirando a sua fonte do conjunto dessas três camadas, nunca somente da terceira.

| A paranoia – Por razões conhecidas, os casos de paranoia subtraem-se, no mais das vezes, ao exame analítico. Contudo, nesses últimos tempos pude tirar, do estudo intensivo de dois paranoicos, algo que para mim era novo.

O primeiro caso foi o de um jovem que apresentava, plenamente desabrochada, uma paranoia de ciúme cujo objeto era a sua esposa, de uma fidelidade acima de qualquer reparo. Ele estava saindo de um período tempestuoso no qual havia sido implacavelmente dominado (394) pelo seu delírio. Quando o vi, ainda apresentava acessos [accès|Anfälle] bem isolados que duravam vários dias, e, ponto interessante, principiavam regularmente no dia seguinte a um ato sexual — que se dava, aliás, de modo satisfatório para ambas as partes. Está-se no direito de concluir disso que, a cada vez, depois de ser saciada a libido heterossexual, o componente homossexual com ela despertado achava por onde expressar-se através do acesso de ciúme.

O doente tirava os fatos, de cujos dados se valia o seu acesso, da observação dos menores sinais por onde, para ele, o coquetismo plenamente inconsciente da mulher se denunciava, ali onde nenhum outro teria visto nada. Ora ela havia roçado a mão, por descuido, no senhor que estava ao lado; ora havia pendido demais o rosto em direção a ele e lhe havia dirigido um sorriso mais familiar do que se estivesse só com o marido. Para todas essas manifestações do inconsciente dela ele mostrava uma atenção extraordinária e era bom em interpretá-las com rigor, de modo que, para dizer a verdade, ele estava sempre com a razão e ainda podia invocar a análise para confirmar o seu ciúme. Na verdade, a sua anomalia reduzia-se ao fato de que fazia incidir sobre o inconsciente de sua mulher uma observação demasiado aguda e que atribuía a isso muito mais importância do que ocorreria a qualquer outro atribuir.

Lembremos que os paranoicos perseguidos comportam-se de forma totalmente análoga. Eles também não reconhecem em outrem nada de indiferente e, em seu “delírio de relação”, pleiteiam os menores indícios que os outros, desconhecidos [étrangers|Fremden], lhes dão. O sentido desse delírio de relação [relation|Beziehung] é precisamente que eles esperam de todos os desconhecidos algo como o amor, mas os outros não lhes mostram nada parecido: riem na presença deles, agitam as suas bengalas e até cospem no chão quando eles passam — e aí está, realmente, algo que não se faz quando se tem, por quem está perto, o menor interesse amistoso. Só se faz isso quando essa pessoa é totalmente indiferente, quando se pode tratá-la como o ar ambiente; e o paranoico, quanto ao intrínseco parentesco dos conceitos de “desconhecido” e de “hostil”,[18] não está errado ao sentir uma indiferença como essa, em resposta à sua exigência amorosa, na forma de uma hostilidade.

Suspeitamos, agora, que talvez seja insuficiente a nossa descrição da conduta [conduite|Verhalten][19] dos paranoicos, tanto do ciumento quanto do (395) perseguido, quando dizemos que eles projetam para fora, no outro, aquilo que se recusam a ver em seu foro interior.

Decerto é o que fazem, mas através desse mecanismo eles não projetam, por assim dizer, nada no ar;[20] não criam coisa onde não tem, mas deixam-se, isso sim, guiar pelo seu conhecimento do inconsciente, deslocando para o inconsciente de outrem essa atenção que subtraem do seu próprio. O nosso ciumento reconhece a inconstância de sua mulher substituindo a sua; ao tomar consciência dos sentimentos dela, deformados e monstruosamente amplificados, ele tem sucesso em manter inconscientes os que lhe retornam. Tomando o seu exemplo como típico, concluiremos que a hostilidade que o perseguido descobre nos outros não passa do reflexo de seus próprios sentimentos hostis para consigo. Ora, sabemos que, no paranoico, é justamente a pessoa do seu sexo que ele mais amava que se transforma em perseguidor; com isso, surge a questão de saber de onde nasce essa interversão afetiva, e a resposta que se oferece a nós seria que a ambivalência sempre presente do sentimento fornece a base do ódio, e que a pretensão de ser amado, não sendo atendida, a reforça. Assim, a ambivalência do sentimento presta ao perseguido o mesmo serviço para se defender da sua homossexualidade que o prestado pelo ciúme ao nosso paciente.

Os sonhos do meu ciumento reservavam-me uma grande surpresa. Para dizer a verdade, eles nunca se mostravam simultaneamente à explosão do acesso — mas, no entanto, ainda sob o jugo do delírio —; eles estavam completamente livres de elemento delirante e davam a reconhecer as tendências [tendances|Regungen] homossexuais subjacentes sob um disfarce não menos penetrável que o habitual. Em minha modesta experiência com sonhos de paranoicos, eu não estava longe de admitir que, comumente, a paranoia não penetra no sonho.

O estado de homossexualidade nesse paciente podia ser captado à primeira vista. Ele não havia cultivado nem amizade, nem interesse social algum; impunha-se a impressão de um delírio ao qual seria incumbido a tarefa de desenvolver as suas relações [rapports|Beziehungen] com um homem, como que para permitir-lhe recuperar uma parte daquilo que havia deixado de realizar. A pouca importância do pai em sua família e um humilhante trauma homossexual em seus primeiríssimos anos de garoto haviam concorrido para reduzir a sua homossexualidade ao recalcamento e para barrar-lhe o caminho à sublimação. Sua juventude inteira fora dominada por (396) um forte apego [attachement|Bindung] à mãe. Dos vários filhos ele era o queridinho confesso da mãe, desenvolvendo para com ela um forte ciúme do tipo normal. Quando mais tarde decidiu-se por um casamento — decisão tomada sob o jugo do mote essencial de trazer riqueza à mãe — a sua necessidade de uma mãe virginal exprimiu-se em dúvidas obsessivas sobre a virgindade da noiva. Os primeiros anos do seu casamento não tiveram rastro algum de ciúme. Ele, então, foi infiel à mulher e engajou-se em um vínculo [liaison|Verhältnis] estável com uma outra. A partir do momento em que o temor de uma determinada suspeita lhe fez romper essas relações [relations|Beziehung][21] amorosas, eclodiu nele um ciúme do segundo tipo, ciúme de projeção, por meio do qual pôde impor silêncio às reprimendas atinentes à sua infidelidade. Ele logo se complicou com a entrada em cena de tendências [tendances|Regungen] homossexuais, cujo objeto era o sogro, formando toda uma paranoia de ciúme.

Meu segundo caso provavelmente não teria sido classificado, sem a análise, como paranoia persecutoria,[22] mas fui compelido a conceber esse jovem como um candidato a esse desfecho mórbido. Existia nele, nas relações com o pai, uma ambivalência de uma envergadura totalmente extraordinária. Era, por um lado, o rebelde confesso[23] que havia se desenvolvido, manifestamente e em todos os pontos, apartando-se dos desejos [désirs|Wünschen] e dos ideais de seu pai; por outro, em um plano mais profundo, era sempre o mais submisso dos filhos — aquele que, após a morte do pai, ficou com a consciência de uma dívida de coração, e proíbe a si o gozo [jouissance|Genuß] das mulheres. As suas relações [rapports|Beziehungen] reais com os homens colocavam-se abertamente sob o signo da desconfiança; com o seu vigor intelectual, sabia racionalizar essa reserva, saindo-se bem em ajeitar tudo de modo que seus conhecidos e amigos o enganassem e explorassem. O que ele me ensina de novo é que as clássicas ideias de perseguição podem subsistir sem encontrar no sujeito nem fé, nem anuência. Ocasionalmente, durante a análise, elas transpareciam, mas ele não lhes atribuía importância alguma; e, via de regra, delas zombava. Pode ser que o mesmo se passe em muitos casos de paranoia. As ideias delirantes que se manifestam quando uma afecção como essa eclode, talvez nós as consideremos neoproduções, ao passo que estão há muito constituídas.

Uma perspectiva primordial me parece ser a de que uma instância qualitativa, tal como a presença de certas formações neuróticas, na prática importa menos que essa instância quantitativa, a saber: (397) qual grau de atenção — ou, mais rigorosamente, qual ordem de investimento [investissement|Besetzung] afetivo[24] — esses temas podem concentrar em nós. A discussão do nosso primeiro caso, da paranoia de ciúme, nos havia incitado a atribuir esse valor à instância quantitativa, mostrando-nos que a anomalia consistia aí, essencialmente, neste superinvestimento afetado[25] das interpretações [interprétations|Deutungen] atinentes ao inconsciente alheio. Pela análise da histeria, conhecemos há tempos um fato análogo. As fantasias patógenas, as ramificações de tendências [tendances|Regungen] reprimidas [réprimées|verdrängte], são toleradas por muito tempo ao lado da vida psíquica [vie psychique|Seelenleben][26] normal e não têm eficácia morbífica,[27] até receberem, de uma revolução [révolution|Umschwung][28] da libido, uma sobrecarga[29] como essa; de saída, eclode então o conflito que conduz à formação do sintoma. Assim, somos cada vez mais levados, com o progresso do nosso conhecimento, a trazer para o primeiro plano o ponto de vista econômico. Gostaria também de levantar a questão de saber se essa instância quantitativa sobre a qual insisto aqui não tende a recobrir os fenômenos para os quais Bleuler e outros recentemente quiseram introduzir o conceito de “ação de circuito” [action de circuit|Schaltung].[30] Bastaria admitir que, a um acréscimo de resistência em uma direção do curso psíquico segue-se uma sobrecarga[31] de uma outra via, e com isso a sua entrada em circuito no ciclo que transcorre.

Um contraste instrutivo revelava-se em meus dois casos de paranoia quanto ao comportamento dos sonhos. Enquanto, no primeiro caso, os sonhos — tal como notamos — estavam livres de todo e qualquer delírio, o segundo doente produzia em grande número sonhos de perseguição, nos quais se podem ver pródromos e equivalentes para as ideias delirantes de mesmo conteúdo. O agente perseguidor — ao qual ele não podia se subtrair, a não ser com grande ansiedade [anxiété|Angst] — era, via de regra, um touro pujante ou algum outro símbolo da virilidade, que muitas vezes, ademais, ele reconhece, no próprio decorrer do sonho, como uma forma de substituição do pai. Uma vez relatou, em tom paranoico, um sonho de transferência muito característico. Ele viu que, em sua companhia, eu me barbeava; e observou, pelo odor, que eu me utilizava do mesmo sabonete que seu pai. Eu estaria agindo assim para obrigá-lo à transferência do pai para a minha pessoa. Na escolha da situação sonhada mostra-se, de forma impossível de ignorar, o pouco caso que o paciente faz de suas fantasias paranoicas e o pouco crédito que a elas atribui; pois uma observação cotidiana podia instrui-lo quanto ao fato de que, em geral, não é o caso de eu (398) me utilizar de sabonete de barbear, e que assim, nesse ponto, eu não oferecia apoio algum à transferência paterna.

Mas a comparação dos sonhos nos dois pacientes nos ensina que a questão por nós levantada — a saber, se a paranoia (ou toda e qualquer outra psiconeurose) podia penetrar até mesmo no sonho — repousa apenas em uma concepção incorreta do sonho. O sonho distingue-se do pensamento de vigília por poder acolher conteúdos (do domínio recalcado) que não têm o direito de se apresentar no pensamento de vigília. À parte isso, ele não passa de uma forma do pensamento, uma transformação da matéria pensável da pré-consciência, pelo trabalho do sonho e suas determinações. Ao próprio recalcado a nossa terminologia das neuroses não se aplica; não se pode qualificá-lo nem como histérico, nem como obsessivo, nem como paranoico. É, ao contrário, a outra parte da matéria submetida à elaboração do sonho; são os pensamentos pré-conscientes que podem ou ser normais, ou carregar em si o caráter de uma neurose qualquer. Os pensamentos pré-conscientes têm chances de ser resultados de todos esses processos patógenos em que reconhecemos a essência de uma neurose. Não se vê por que cada uma dessas ideias mórbidas não deveria sofrer a transformação em um sonho. Sem ir muito longe, um sonho pode também nascer de uma fantasia histérica, de uma representação [représentation|Vorstellung] obsessiva, de uma ideia [idée|Idee] delirante — quero dizer: apresentar, em sua interpretação, tais elementos. Em nossa observação de dois paranoicos, deparamo-nos com o fato de que o sonho de um é normal, enquanto o homem está em acesso; e que o do outro tem um conteúdo paranoico, quando o sujeito, ainda por cima, zomba de suas ideias delirantes. Assim, nos dois casos, o sonho acolhe aquilo que é, ao mesmo tempo, reprimido [réprimé|zurückgedrängt][32] quando da vida de vigília. Em tempo, isso não é necessariamente a regra.

| A homossexualidade – O reconhecimento do fator orgânico da homossexualidade não nos exime de estudar os processos psíquicos que estão na sua origem. O processo típico, bem estabelecido em inúmeros casos, consiste no fato de que, no jovem, até então intensamente fixado à sua mãe, produz-se, alguns anos após o decorrer da puberdade, uma crise [crise|Wendung];[33] ele próprio se identifica com a mãe e procura, para o seu amor, objetos em que possa encontrar a si mesmo e que ele tenha a oportunidade de amar como a sua mãe o amou. Como vestígio desse processo, usualmente uma condição de atração se impõe por vários anos ao sujeito: que os objetos (399) masculinos tenham a idade em que, para ele, a reviravolta [bouleversementUmwandlung][34] se deu. Aprendemos a conhecer os diversos fatores que, com uma força variável, provavelmente contribuem para esse resultado. Antes de mais nada, a fixação à mãe que entrava a passagem a um outro objeto feminino. A identificação à mãe permite sair dos laços [liens|Bindung][35] com ela, ao mesmo tempo que abre a possibilidade de permanecer fiel, em certo sentido, a esse primeiro objeto. Em seguida vem a tendência [tendance|Neigung][36] à escolha narcísica do objeto, que, de uma forma geral, é mais imediata e mais fácil de realizar que a conversão [conversion|Wendung][37] em direção ao outro sexo. Detrás dessa instância dissimula-se uma outra, de uma força totalmente particular; ou quiçá ela coincida com a primeira: o alto valor agregado ao órgão masculino e a impossibilidade de renunciar àquilo que existe no objeto amado. O desdém pela mulher, a aversão por ela (até mesmo o asco [dégoût|Abscheu] que ela provoca) relacionam-se, via de regra, com a descoberta — feita logo cedo — de que a mulher não possui pênis. Mais tarde descobrimos também, como um potente mote de uma escolha homossexual do objeto, a consideração pelo pai ou a angústia [angoisse|Angst][38] experimentada em relação a ele, quando a renúncia à mulher significa que assim se esquiva da concorrência com ele (ou com todas as pessoas do sexo masculino que desempenhem o seu papel). Esses dois últimos motes — o aferramento à condição peniana, assim como a evitação — podem ser atribuídos ao complexo de castração. Apego à mãe — narcisismo —, angústia [angoisse|Angst] de castração: instâncias — aliás, nada específicas — que localizamos até então na etiologia psíquica da homossexualidade. A isso associam-se ainda a influência de uma sedução, que pode responder por uma fixação precoce da libido, bem como a do fator orgânico, que favorece o papel passivo na vida amorosa.

Mas nós nunca acreditamos que essa análise da origem da homossexualidade fosse completa. Hoje estou em condições de indicar um novo mecanismo que leva à escolha homossexual do objeto, ainda que eu não possa precisar em que amplitude é preciso fixar o seu papel na constituição da homossexualidade extrema, daquela que é manifesta e exclusiva. A observação fez-me atentar para vários casos em que, na primeira infância, tendências [tendances|Regungen] ciumentas de uma força singular, oriundas do complexo materno, ergueram-se contra rivais, o mais frequentemente contra irmãos mais velhos. Esse ciúme levava a atitudes intensamente hostis e agressivas para com o grupo dos irmãos, atitudes que puderam chegar até (400) ao voto mortífero [voeu meurtrier|Todeswunsch],[39] mas não resistiram à ação do desenvolvimento. Sob a influência da educação — e também, certamente, em consequência do fracasso a que lhes fadava a impotência —, essas tendências acabavam recalcadas, invertendo-se[40] o sentimento, de modo que os precoces rivais eram agora os primeiros objetos homossexuais. Uma saída como essa do apego à mãe nos mostra relações [rapports|Beziehungen] — interessantes em mais de um ponto — com outros processos que nos são conhecidos. Ela é, primeiramente, a contraparte do desenvolvimento da paranoia persecutoria, na qual as pessoas primordialmente amadas tornam-se odiados perseguidores, ao passo que aqui os rivais odiados revelam-se objetos de amor. Além disso, ela figura uma exageração do processo que, da minha perspectiva, conduz à gênese individual dos instintos [instincts|Triebe] sociais.[41] Em ambos os casos existem, primeiramente, tendências [tendances|Regungen] invejosas e hostis que não conseguem encontrar satisfação, e os sentimentos de identificação — tanto de natureza amorosa quanto social — nascem como formas de reação contra os impulsos [impulsions|Impulse] agressivos recalcados.

Esse novo mecanismo da escolha homossexual do objeto, que brota da rivalidade superada [surmontée|überwundene] e do recalcamento das tendências [tendances|Neigung] agressivas,[42] acaba se misturando, em muitos casos, às determinações típicas que conhecemos. Não raro ficamos sabendo, pela história de vida dos homossexuais, que a viravolta [tournant|Wendung] ocorreu após a mãe ter elogiado outra criança, dando-a como exemplo. Eis aí o que despertou a tendência [tendance|Tendenz] à escolha narcísica do objeto e, depois de uma curta fase de ciúme agudo, transformou o rival em objeto amado. Aliás, o novo mecanismo distingue-se pelo fato de que, nesses casos, a transformação [transformation|Umwandlung] se produz no decorrer de anos bem mais precoces e que a identificação com a mãe passa para segundo plano. De igual modo, nos casos que observei, levou apenas a atitudes homossexuais que não excluíam a heterossexualidade e não acarretavam nenhum horror feminae.[43]

É bem conhecido o fato de que um número bastante grande de pessoas homossexuais caracteriza-se por um desenvolvimento particular dos instintos [instincts|Triebe] de tendência social[44] e por sua dedicação a interesses de utilidade pública. Ficar-se-ia tentado a oferecer a explicação teórica de que um homem que vê nos outros homens virtuais objetos de amor deve se comportar diferentemente quanto à (401) comunidade dos homens, se comparado a um outro que é forçado a encarar o homem primeiramente como rival em relação à mulher. Uma única consideração opõe-se a isso: é que no amor homossexual também há rivalidade e ciúme,[45] e que a comunidade dos homens compreende também esses possíveis rivais. Mas, abstendo-se dessa motivação especulativa, não é indiferente para as relações [rapports|Zusammenhang][46] da homossexualidade e do senso [sens|Empfinden] social o fato de que, efetivamente, não seja raro ver nascer a escolha homossexual do objeto de um domínio [maîtrise|Überwindung][47] precoce da rivalidade para com o homem.

Na concepção psicanalítica estamos habituados a conceber os sentimentos sociais como sublimações de comportamentos homossexuais quanto ao seu objeto. Para os homossexuais dotados de senso social, os sentimentos sociais não teriam operado o seu desprendimento da escolha primitiva[48] do objeto com integral felicidade.


INFORMAÇÕES ADICIONAIS | Em português brasileiro, o texto de Freud encontra-se traduzido diretamente do alemão nos seguintes volumes: S. Freud, Obras incompletas, vol. 5: “Neurose, psicose, perversão”. Trad. M. R. Salzano Moraes. Belo Horizonte: Autêntica, 2016, pp. 193-216; S. Freud, Obras completas, vol. 15: “Psicologia das massas e análise do eu e outros textos”. Trad. P. C. de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, pp. 209-224.



[1] Trauer, aqui traduzido por tristesse [tristeza] em todas as suas ocorrências, para além de uma dor diante de uma perda ou infortúnio — na chave do pesar e da consternação —, denota o tempo de profunda infelicidade que se segue à morte de alguém. É o termo utilizado por Freud em seu ensaio “Luto e melancolia” [Trauer und Melancholie], escrito em 1915 e publicado em 1917. (N. do T.)

[2] A expressão “do sujeito” [du sujet] não consta no original alemão. (N. do T.)

[3] Beziehung denota relacionamento, laço, relação. (N. do T.)

[4] Em tempo, um pequeno anacronismo: futuramente, na tentativa de especificar a “relação sexual”, Lacan irá se valer, para tanto, do termo Verhältnis — o qual, em sua acepção matemática, diz respeito à relação enquanto proporção, razão. Em francês, esse termo será associado por ele à palavra rapport, ao passo que relation será vinculado a Beziehung. (N. do T.)

[5] Para além de tendance, vale lembrar que Regung também é traduzido em francês pelo termo motion [moção]. (N. do T.)

[6] No original alemão, “ou” [oder], e não “e” [und]. (N. do T.)

[7] No original, Freud se vale apenas do termo Hilflosigkeit [desamparo], que Lacan traduz pela perífrase être privé de tout recours [estar privado de todo e qualquer recurso]. (N. do T.)

[8] No original alemão, “de projeção” está escrito com espaçamento entre as letras (dito Sperrdruck) —forma de destaque vertida pelo itálico tanto pela tradução francesa quanto por esta tradução brasileira. (N. do T.)

[9] A expressão “do sujeito” [du sujet] não consta no original alemão. (N. do T.)

[10] Ao pé da letra, “material perceptivo”. O termo “imediatos” [immédiates] não consta no original alemão. (N. do T.)

[11] Comparar com esta estrofe do canto de Desdêmona: “Chamei de enganador ? (sic) E ele disse o quê ? Se eu olho a moça, tu fitas o garoto” [Freud traz o verso de Shakespeare (Otelo, ato IV, cena 3) em inglês, com ligeiras modificações em relação ao texto original: “I called him thou false one, what answered he then? / If I court more women, you will couch with more men”, que traduzimos por “Chamei-o de falso, e o que respondeu? Se deitas com outros, c’outras flerto eu”]. (N. do T.)

[12] Neigung é “inclinação”, “caimento” — daí a ideia de tendência. (N. do T.)

[13] A expressão “do sujeito” [du sujet] não consta no original alemão, assim como o parágrafo não termina aqui: ele continua com o que, na tradução, é o parágrafo seguinte. (N. do T.)

[14] No original alemão, “delirante” [wahnhaft] está escrito com espaçamento entre as letras. (N. do T.)

[15] Freud não utiliza aspas no original. (N. do T.)

[16] No original alemão, “eu” [Ich] está escrito com espaçamento entre as letras. (N. do T.)

[17] Aproximar dos desenvolvimentos do caso Schreber: “Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia [dementia paranoides]” [Lacan cita a tradução francesa, realizada por Marie Bonaparte e R. Loewenstein, publicada na Revue française de Psychanalyse, vol. V, n. 1. (N. do T.)]

[18] Cumpre lembrar que Freud havia escrito seu texto Das Unheimliche [O incômodo] em 1919, dialogando com o ensaio “Psicologia do incômodo” [Zur Psychologie des Unheimlichen], de Ersnt Jentsch (1906), explorando ali justamente a ideia de que: “o tradicional, habitual e ancestral é amado e digno de confiança para a maioria das pessoas; e que elas recebem o novo e o inabitual com desconfiança, desconforto e até hostilidade (misoneísmo). Isso é em grande parte esclarecido pela dificuldade em estabelecer, rápida e plenamente, as conexões de ideias que o objeto se esforça por fazer com o campo representacional anterior do indivíduo — ou seja, o domínio do intelecto sobre a coisa nova. […] Logo, é compreensível que à vinculação ‘antigo-conhecido-familiar’ corresponda o correlato ‘novo-estranho-hostil’”. (N. do T.)

[19] Lacan traduz por conduite [conduta] tanto Benehmen (no início do texto) quanto Verhalten. Cumpre notar, no entanto, que Benehmen é mais próximo da ideia de “modos” e “maneiras”, atribuíveis a seres animados, ao passo que Verhalten pode ser atribuído a objetos: por exemplo, quando dizemos que “o motor se comporta bem na estrada”. (N. do T.)

[20] Lacan cria um paralelismo, que não existe no original alemão, com a expressão “ar ambiente” — por ele utilizada um pouco antes para verter o Luft freudiano. Aqui Freud utiliza Blaue, que poderia ser traduzido por “escuro” — como em “um tiro no escuro” [ein Schuss ins Blaue] — ou “vazio”. (N. do T.)

[21] No original alemão, singular. (N. do T.)

[22] Em latim no original e na tradução. (N. do T.)

[23] Lacan cria um paralelismo, que não existe no original freudiano, com “queridinho confesso” — expressão por ele utilizada no parágrafo anterior para verter o erklärt [declarado] freudiano. Aqui Freud utiliza ausgesprochenst, que poderia ser traduzido, entre outros, por “o mais declarado”. (N. do T.)

[24] O termo “afetivo” [affectif] não consta no original alemão. (N. do T.)

[25] O termo “afetado” [affecté] não consta no original alemão. (N. do T.)

[26] Literalmente, “vida anímica”, e não psíquica [psychisches Leben]. (N. do T.)

[27] No original alemão, Freud se vale do termo pathogene, traduzido por Lacan como pathogène [patógeno] em todas as ocorrências, exceto nessa, em que ele opta pelo termo morbifique. (N. do T.)

[28] “Revolução” no sentido físico do termo: movimento circular ou elíptico no qual um corpo retorna à sua posição inicial. (N. do T.)

[29] Aqui Freud repete o termo “superinvestimento” [Überbesetzung], que Lacan opta por traduzir por surcharge, e não surinvestissement, como nas demais ocorrências. (N. do T.)

[30] Cf. Eugen Bleuler (1921) “Die Schaltungen”. In: Naturgeschichte der Seele und Ihres Bewusstwerdens: Eine Elementarpsychologie. Berlin/Heidelberg: Springer-Verlag, pp. 287-306. (N. do T.)

[31] Aqui Freud repete o termo “superinvestimento” [Überbesetzung], que Lacan opta por traduzir por surcharge, e não surinvestissement, como nas demais ocorrências. (N. do T.)

[32] O verbo zurückdrängen carrega a ideia de “empurrar de volta”, “repelir”. (N. do T.)

[33] Wendung denota “volta”, “virada”. A seguir, em outra ocorrência do termo, Lacan opta por traduzi-lo por “conversão”. (N. do T.)

[34] O termo Umwandlung, que pode ser traduzido como “conversão”, associa-se às ideias de modificação, transformação, reestruturação — como, por exemplo, “a conversão da luz solar em eletricidade” [die Umwandlung von Sonnenlicht in Elektrizität]. (N. do T.)

[35] No original alemão, singular. (N. do T.)

[36] Não está escrito com espaçamento entre as letras no original em alemão. (N. do T.)

[37] Cumpre notar que não se trata do conceito de “conversão” enquanto associado à histeria, para o qual Freud emprega o equivalente latino do termo germânico Umwandlung [conversão], a saber: Konversion (como em Konversionshysterie, “histeria de conversão”). (N. do T.)

[38] Cumpre notar que Angst — aqui traduzido por Lacan ora como “ansiedade”, ora como “angústia” — é também “medo”. (N. do T.)

[39] Literalmente, “desejo de morte”. (N. do T.)

[40] Freud torna a utilizar aqui o termo Umwandlung. (N. do T.)

[41] Ver “Psicologia das massas e análise do eu”, 1921 [Vol. VI das Obras completas ].

[42] No original alemão, singular. (N. do T.)

[43] Em latim no original e na tradução, a expressão significa “ginofobia” — literalmente, “horror à mulher”. (N. do T.)

[44] A construção freudiana é um pouco diferente: durch besondere Entwicklung der sozialen Triebregungen [por um desenvolvimento particular das moções pulsionais sociais] — ou “das tendências instintuais sociais”, seguindo as opções de tradução feitas por Lacan ao longo deste texto. (N. do T.)

[45] No original alemão os termos aparecem em posições invertidas: “ciúme e rivalidade” [Eifersucht und Rivalität]. (N. do T.)

[46] No original alemão, singular. (N. do T.)

[47] Na tradução de Lacan perde-se o paralelismo, presente no original freudiano, entre a “rivalidade superada” do parágrafo anterior e, aqui, a “superação precoce da rivalidade”. (N. do T.)

[48] O termo “primitiva” [primitif] não consta no original alemão. (N. do T.)

terça-feira, 31 de maio de 2022

A constituição do superego : Um enfoque na obra de Melanie Klein no período de 1921 até 1945

 

A constituição do superego : Um enfoque na obra de Melanie Klein no período de 1921 até 1945

The constitution of the superego: An approach to the work of Melanie Klein in the period from 1921 to 1945

SCATOLIN, Henrique Guilherme 1; CINTRA, Elisa Maria de Ulhoa 2

Recibido:28/08/2017 • Aprobado: 25/09/2017


Conteúdo

Introdução

1. Década de 20: o início da construção de sua obra

2. As relações de objetos parciais e o superego primitivo

3. Década de 30 e a Posição Depressiva

4. A Posição Depressiva e suas Características

5. Conclusões

Referencias Bibliográficas


RESUMO:

Este artigo tem como objeto de estudo a constituição do superego na obra de Melanie Klein. A partir de uma pesquisa bibliográfica em sua obra, especificamente entre o período de 1921 até 1945, o autor propõe um estudo sobre a constituição desta instância psíquica a partir das relações objetais parciais. A problemática a que se propõe este estudo seria: como podemos compreender a constituição do superego primitivo a partir das relações objetais parciais na obra kleniana, neste primeiro momento da sua obra? Como resultado, o autor recorre à constituição das relações objetais parciais, recorrendo as heranças de Abraham e Ferenzci (a moralidade esfincteriana, que seria uma espécie de precursor fisiológico do superego) para a construção de sua obra. Os primórdios do superego estariam voltados as primeiras catexias de objeto e identificações, as primeiras introjeções orais. Neste meandro, os mecanismos de introjeção são de extrema relevância para a etiologia desta instância, uma vez que o superego passa a existir durante a fase oral. Como conclusão, o autor propõe que, com o desenvolvimento da sua teoria, a compreensão da formação desta instância foi complementando a visão freudiana, ressaltando o papel das primeiras introjeções (e suas conseqüências) para o psiquismo.
Palavras-chave: relações objetais parciais e totais, superego primitivo, técnica do brincar; posição depressiva; introjeção e projeção.

ABSTRACT:

This paper aims to study the constitution of the superego in the work of Melanie Klein. From a bibliographical search in her work, specifically from 1921 until 1945, the author proposes a study of the constitution of this psychic instance from part-object relations. The question posed in this study would be: how can we understand the constitution of the primitive superego from the part-object relations in Klein’s work, at this early point in her work? As a result, the author refers to the constitution of part-object relations, using the ideas of Abraham and Ferenzci (the sphincter morality, which would be a kind of physiological precursor of the superego) for the construction of her work. The origins of the superego would be oriented to the first cathexis of object and identifications, the first oral introjections. In this path, introjection mechanisms are of utmost relevance to the etiology of this instance, once the superego then exists during the oral stage. As a conclusion, the author proposes that, with the development of his theory, the understanding of the formation of this instance is complementary to the Freudian view, emphasizing the role of the first introjections (and their consequences) for the psychic life.
Keywords: part and whole-object relations, primitive superego, play technique; depressive position; introjection and projection.

Introdução

O superego, na obra freudiana, começa a ganhar destaque a partir da década de 20, quando Freud associa esta instância como o herdeiro do complexo de Édipo. O herdeiro dos valores morais dos pais, como também do contexto onde este sujeito estaria inserido, coincidiria com o início do período de latência. Assim, para os freudianos, o superego estaria associado à resolução edipiana.  

Se a Áustria, no início da década de 20, pulsava conhecimento sobre o Inconsciente, as pulsões e o superego neste primeiro momento, o cenário londrino dava os seus primeiros passos com Ernest Jones. Nesta mesma época, em pleno contexto de pós-guerra, uma autora, de origem judaica, começa a ganhar destaque, pela técnica do brincar, no cenário britânico: Melanie Klein, a grande pioneira da técnica infantil do brincar e da abertura da psicoterapia para psicóticos.

A partir da análise de crianças, Klein vai ganhando cada vez mais espaço na década de 20 e, a convite de Jones, vai até a Inglaterra. Aqui se inicia a jornada contextual deste artigo, a partir desta problemática: como podemos compreender a constituição do superego primitivo, a partir das relações objetais parciais, na obra kleniana, neste primeiro momento da sua obra? Quando este artigo menciona este primeiro momento, esta se referindo aos dois livros clássicos de Melanie Klein: Amor, Culpa e Reparação A Psicanálise de Crianças.

A partir disso, como os conceitos de objetos parciais e da constituição do superego primitivo irão permear este estudo, gostaria de retomar, primeiramente, a concepção de objetos parciais, entrelaçando-o com a constituição do superego.  Para tal, este artigo irá realizar uma breve retomada destes conceitos na teoria postulada por Melanie Klein, trazendo as interpretações dos seus principais seguidores. Para esta retomada será respeitada a ordem cronológica da construção de sua teoria.

1. Década de 20: o início da construção de sua obra

Melanie Klein parte do pressuposto do objeto parcial de Abraham, decodificando-o. Abraham aponta que “enquanto que as observações que conduziram à descrição da organização sádico-oral encontraram uma consideração especial na literatura psicanalítica [...], o primeiro estágio do desenvolvimento da libido, a fase ‘oral’ aguardava novas investigações (1927/1970, p. 54). Foi neste contexto que, ao analisar uma paciente com demência precoce, Abraham ressaltou a questão da incorporação de objeto, apontando que o impulso canibalesco já se faz presente desde o início da vida. Para Abraham (1927/1970), os objetos parciais (como o pênis e o seio) estão associados a este estágio de ambivalência, bem anterior à conquista do amor objetal total (e que na teoria de Klein este amor será alcançado na posição depressiva).

Klein, ao beber na teoria de Karl Abraham, seu primeiro analista, elabora uma teoria única destes objetos, ressaltando “a importância dos estádios pré-genitais e das relações de objeto parcial no desenvolvimento tanto do complexo de Édipo quanto do superego” (SEGAL, 1964/1975, p. 19). As relações de objeto, na remota infância, remetem as relações de objetos parciais, precedendo a existência de objetos totais (já na posição depressiva) na existência do remoto ego. Neste contexto, na divisão do id, um ego ‘não coeso’ está presente e um superego primitivo, pulsional, tem início a partir das primeiras introjeções orais.

Isto significa que, em seus jogos pulsionais, na remota infância, qualquer objeto que traga gratificação para o bebê realça os movimentos de amor. Por outro lado, aquele que venha a frustrar, provoca movimentos de ódio e paranóia. Neste binômio mãe X bebê, Hinshelwood aponta que “essas concepções primitivas são indicadas pelas notações seio ‘bom’, seio ‘mau’; mãe ‘boa’, mãe ‘má’, e , de modo semelhante, pai [bom e mau], pênis [ bom e mau]” (1992, p. 383). 

2. As relações de objetos parciais e o superego primitivo

Na concepção da teoria kleniana, o objeto primeiro de todas as fantasias é o seio materno, momento este em que o bebê procura suas satisfações imediatas, ocasionando os primeiros movimentos de cisão (seio mau – mãe má/ seio bom – mãe boa). Neste contexto, a incorporação do seio é uma metáfora para a incorporação dos demais objetos, como o pênis. São estes objetos que servirão de pilares identificatórios para o bebê.  Assim, desde a remota infância, temos a equivalência simbólica entre seio, fezes, pênis e bebê. E como isso se traduz na linguagem kleniana?

Na linguagem kleniana, para o bebê, a mãe resguarda os demais objetos. Assim, o seio bom pode dar espaço ao pênis bom, como o seio mal pode dar espaço ao pênis mau, tornando indissociáveis. Neste contexto, ainda é necessário relevar que é na  ausência da mãe ( ou da sua equivalente) que um terceiro começa se fazer presente e dar inicio as relações edípicas precoce.

Em 1928, ao escrever o artigo Estágios Iniciais do Conflito Edipiano, Klein aponta que “as tendências edipianas são liberadas como conseqüências da frustração sentida pela criança com o desmame, e que se manifestam no final do primeiro e início do segundo ano de vida” (KLEIN, 1928/1996, p. 216) [3].  Estas seriam frutos das frustrações anais, momento este em que os impulsos pre-genitais estariam repletos de sentimentos de culpa. Neste momento, Klein recorre a Ferenzci, destacando a ‘moralidade esfincteriana’, ou seja, esta seria uma ‘espécie de precursor fisiológico do superego’  associado aos impulsos uretrais e anais.

Ferenzci, ao publicar o artigo Psicanálise dos Hábitos Sexuais em 1925, ressalta que “a identificação da criança com os seus pais passa, como se sabe, por uma primeira fase pré-genital” (1925/2011, p. 365).  Antes de alcançar o plano genital, o menino rivaliza, por meio da identificação pré-genital, com os seus pais por intermédio das “proezas anais e uretrais” (1925/2011, p. 365). Neste plano, “a identificação anal e uretral com os pais [...] parece constituir-se uma espécie de precursor fisiológico do ideal do ego ou do superego no psiquismo da criança” (1925/2011, p. 366).  Neste contexto, a criança pode estabelecer comparações entre elas e os adultos por intermédio de “moral dos esfíncteres muito severa, que não poderia transgredir sem remorsos e escrúpulos intensos”(1925/2011, p. 366). Antes de alcançar o complexo de Édipo, a educação esfincteriana é adotada moralmente pela criança. Essa educação ‘moralista’, de etiologia fisiológica, instintual, seria a mola propulsora da moral do adulto, precursora do superego. Assim, este superego kleniano, respaldado na teoria de Ferenzci, teria uma etiologia mais pulsional, instintiva, e não seria aquele herdeiro do complexo de Édipo, tal como descrito por Freud no início da década de 20.

Se Ferenzci escreve sobre a moralidade esfincteriana em 1925, Klein retoma este postulado em 1928, associando o sentimento de culpa a esta formação precoce, destacando a importância do superego neste contexto, como diz:

A conexão entre a formação do superego e as fases pré-genitais do desenvolvimento é muito importante a partir de dois pontos de vista. Por um lado, o sentimento de culpa se prende às fases sádico-oral e sádico-anal, que ainda são as predominantes; por outro, o superego se forma quando essas fases ainda estão em ascendência, o que explica o seu rigor sádico (1928, p. 217).

Neste contexto, um ego fraco tenta se defender, a custas da repressão, de um superego pulsional primitivo, momento este em que a criança, em sua pré-genitalidade, teme ser devorada pelo seu próprio superego. Por outro lado, as frustrações orais dão origem às ansiedades mais primitivas e ao conflito edipiano mais incipiente.

Neste meandro, a partir da identificação remota com a mãe, o corpo da mãe pode ser compreendido como um cenário de todos os processos de desenvolvimento sexual. Neste há os objetos parciais: o seio bom e mau, as fezes boa e má. A partir do conflito edipiano precoce, a criança quer ser apossar destes objetos devido a sua pulsão epistemofilica, gerando movimentos de agressividade e sentimentos de culpa precoce.

A mãe, que outrora frustrara seu filho oralmente, permite uma nova frustração, mas agora no âmbito da analidade mais remota.  Para Klein “a criança deseja tomar posse das fezes da mãe, penetrando em seu corpo, cortando-o, devorando-o em pedaços e destruindo-o” (1928/1996, p. 218). O grau de alcance para a genitalidade dependerá da intensidade da ansiedade gerada e elaborada neste momento, neste espaço da pré-genitalidade em que os conflitos edipianos já estão presentes. 

É necessário ressaltar que a intensidade das fixações libidinais mais remotas poderão gerar o movimento de ódio que o menino irá sentir em relação a sua mãe, dificultando a ascensão da posição depressiva. “As fixações sádicas também exercem forte influencia sobre a estruturação do superego, que está em processo de formação quando essas fases ainda estão em ascendência” (KLEIN, 1928/1996, p. 219).  Ou seja, quanto maior for a fixação na fase anal-sádica, maior será a intensidade do superego da criança, causando-o temor devido as tendências destrutivas.

O menino, durante a sua pré-genitalidade, também poderá desenvolver um intenso medo relacionado as figuras parentais devido a intensidade da agressividade destinado aos mesmos.  Para Klein, o medo da mãe, que precede o medo do pai, pode estar associado ao desejo “de roubar o pênis do pai (que estaria dentro do corpo materno), os filhos e os órgãos genitais femininos” (1928/1996, p. 220). Assim, a ansiedade seria fruto da tirania de um superego  que pode vir a devorar, mutilar e castrar os genitais do menino como punição, embora  as tendências sádico-anais de roubar, atacar e destruir a mãe  coincide com o processo identificatório mais remoto do menino. 

Segundo Klein:

O menino também deriva da fase feminina um superego materno que o impele, assim como a menina, a criar identificações cruéis primitivas, e ao mesmo tempo, bondosas. Contudo, depois de passar por esta fase, ele retoma [...] a identificação com o pai. Por mais que o lado materno se faça sentir na formação do superego, ainda é o superego paterno que desde o inicio exerce a influencia sobre o homem (1928/1996, p. 223).

Neste contexto, Klein ainda não tinha descrito a posição esquizo-paranoide, mas entendo que as cisões nesta remota fase remontam a esta posição, uma vez que tanto o menino como as meninas poderão criar identificações boas e más nesta fase. Além disso, ressalto a singular percepção de Klein neste momento de construção do superego: embora o superego da mãe tenha o seu devido valor, é o superego paterno que irá exercer a sua influencia nos casos masculinos.

Como o superego apresenta uma condição especial neste artigo, não podemos nos esquecer que Klein já destacava a sua intima relação com a neurose obsessiva. Em sua clínica, vários casos de análise infantil despojaram a sua sensatez e tenuidade desta instância psíquica em suas observações sobre a neurose obsessiva. Ao publicar a Personificação do Brincar das Crianças, Klein (1929/1996) traz o caso Erna, ressaltando sua “grave neurose obsessiva” (1929/1996, p. 229) que ocultava um quadro de paranóia. Em seu brincar, Erna demonstrava um sadismo excessivo do id e do superego, rodeada por perseguidores em suas fantasias lúdicas. Neste mesmo artigo, Klein (1929/1996) ressalta a brincadeira  da pequena Rita, de quase três anos, uma vez que o seu rigor superegoico impedia toda fantasia. Sobre este último caso, diz: “foi só quando o rigor excessivo do superego se tornou menos severo que Rita começou a desenvolver jogos de fantasia”. Assim, o superego de Rita, que anteriormente lhe causava certa inibição, agora, mais brando, possibilitou um avanço na psicoterapia.

Na observação dos casos de Erna e Rita, há dois pilares que precisa ser mencionado: a neurose obsessiva resguardando o quadro de paranóia e o papel do superego sádico, especialmente no caso de Rita que, segundo a nota de rodapé acrescida a este texto, dizia que ela “sofria de uma neurose obsessiva pouco comum a sua idade” (1929/1996, p. 232). Assim, o papel do superego tirânico se constitui com base nas organizações pré-genitais que estão em constituição. Sobre isso, Klein aponta:

Quanto mais o desenvolvimento do superego e o desenvolvimento libidinal avançam em direção ao nível genital, deixando para trás os níveis pré-genitais, mais as identificações fantásticas e realizadoras de desejos (cuja fonte é a imagem de uma mãe que oferece gratificação oral) se aproximam dos pais reais (KLEIN, 1929/1996, p. 233).

 

Neste contexto, Klein ressalta que o abandono da mãe é resultante das frustrações orais que esta impõe ao bebê, propiciando uma cisão entre uma mãe boa, bondosa (que dá atenção, amparo) e uma mãe má, ameaçadora (que frustra) [4], estimulando o sadismo na criança e gerando ansiedade. Aqui a ambivalência, entre amor e ódio, conduziria a uma síntese do superego de suas naturezas contraditórias. Tal fato é ilustrado pela personificação das imagos ameaçadoras paternas de Erna e de Rita em suas brincadeiras [5]. Assim, neste contexto,  a técnica analítica do brincar possibilitava a analise das camadas mais primárias do superego, rodeadas por situações de ansiedade que poderiam gerar ataques ao corpo materno, momento este em que a criança “espera encontrar dentro da mãe o pênis do pai, excrementos e crianças” (1930/1996, p. 251).

São estes ataques que darão alimento as ansiedades mais arcaicas, destinados ao corpo materno. Entretanto, a criança teme receber ataques do objeto atacado. Assim, “é a ansiedade [...] que põe em movimento o mecanismo da identificação” (1930/1996, p. 253), momento este em que o desenvolvimento do ego está diretamente relacionado a sua capacidade  de tolerar as primeiras situações de ansiedade. Neste momento, a criança é rodeada de objetos bons e maus, como os excrementos bons e maus, o seio bom e mau e o pênis bom e mau.

3. Década de 30 e a Posição Depressiva

Como a etiologia do superego é de extrema relevância para a problemática desta pesquisa, gostaria de ressaltar que os textos de Klein escritos na década de 30 apresentam uma singularidade para a compreensão da formação desta instância psíquica.  Em 1933, ao redigir O Desenvolvimento Inicial da Consciência na Criança, Klein destaca que o “superego primitivo é muito mais rigoroso e cruel do que o da criança mais velha ou do adulto, literalmente esmagando o frágil ego da criança pequena” (1933/1996, p. 286). O medo de ser devorado, cortado, está associado às ansiedades mais primitivas, cuja instância psíquica se faz presente. Assim, o superego é formado a partir das imagos paternas e maternas que se voltam contra a própria criança, norteados pelos impulsos agressivos recalcados.

Ressalto que este texto de 1933 traz um avanço, uma vez que Klein traz as questões das pulsões auto-destrutivas para a etiologia desta instância.  Assim, ao se voltar contra o próprio ego, a pulsão de morte cria uma tensão que é deflagrada pela ansiedade, ocasionando a violência excessiva do superego devido as pulsões agressivas que se voltam contra o ego. Aqui o superego teria um componente pulsional, agressivo, que se voltaria contra o ego indefeso da criança, alimentando as fantasias monstruosas das crianças e suas ansiedades ‘persecutórias’, deslocando esta ansiedade para os objetos externos. Assim, o medo, tão freqüente nas obsessões, será proporcional aos seus impulsos sádicos, mediante o deslocamento para o ambiente externo.

Klein aponta que “a formação do superego se inicia ao mesmo tempo em que a criança faz a primeira introjeção oral de seus objetos” (1933/1996, p. 289).  Neste momento da sua obra, o superego começaria a se desenvolver durante o estágio sádico-oral, em íntima ligação com os impulsos edipianos. Entretanto, à medida que a ansiedade vai diminuindo, o sadismo vai sendo amenizado  e as imagos terroríficas vão dando espaço para as imagos  benignas e prestativas. “O superego, que antes era a força despótica e ameaçadora [...] começa a exercer um domínio mais suave e persuasivo, fazendo exigências que podem ser cumpridas” (KLEIN, 1933/1996, p. 289). O superego começa a se transformar na consciência propriamente dita, perdendo seu caráter tirânico e gerando mais sentimento de culpa e valores de sentimento social.

Entretanto, na tirania desta instancia, a fixação da fase sádico-anal é de extrema relevância para a neurose obsessiva. “Nas fantasias uretrais e anais, ela [a criança] procura destruir o interior do corpo materno, empregando as fezes e a urina para atingir esse propósito” (KLEIN, 1933/1996, p. 291).  Os excrementos seriam como substâncias que queimam e corroem, também poderiam simbolizar armas de fogo e etc. Já o sadismo estaria voltado à destruição do corpo da mãe e de todo o conteúdo que estaria ai dentro, como os bebês e o pênis do pai. 

Ao atacar o corpo da mãe, a criança estaria inserida em um mundo hostil, persecutório, mas quando o superego é amenizado, suavizado, um possível ataque poderia desencadear o movimento de reparação que estaria associado ao movimento do desenvolvimento do sentimento de culpa e dos sentimentos morais.

Com base na análise de crianças muito pequenas, Klein (1933) ressalta:

 [...] a análise das camadas mais profundas do superego sempre leva à melhora considerável das relações de objeto da criança, da sua capacidade de sublimação e do seu poder de adaptação social – ela não só deixa a criança mais feliz e saudável, mas a torna mais capaz de sentimentos sociais e éticos (1933, p. 293).

A análise nunca poderia eliminar o núcleo sádico do superego, núcleo este constituído sob a primazia dos níveis pré-genitais, mas poderia suavizá-lo, fortalecendo o seu ego, penetrando  nas camadas mais profundas do superego, alcançando os níveis de ansiedade mais profunda.

Neste contexto, Klein ainda não tinha abordado especificamente a fase esquizo-paranóide, porém, em seus textos, as menções as ansiedades persecutórias começa a criar uma intensidade muito forte. Este contexto é de extrema relevância para este artigo. Por quê? O leitor deve estar se indagando qual seria a relevância destas menções, uma vez que este artigo trata da constituição do superego, tendo como pano de fundo a neurose obsessiva. Ressalto que  as ansiedades mais primitivas formam a base pela qual a neurose obsessiva se apóia, tornando o sintoma obsessivo uma defesa contra os núcleos paranoides, segundo a concepção kleniana.

Assim, a década de 30 e 40 precisa de uma leitura minuciosa, uma vez que, após 1946, segundo Hinshelwood (1992, p. 291). “[...] embora as defesas obsessivas fossem de grande interesse para Klein em seus trabalhos iniciais, como defesas específicas contra sentimentos persecutórios, após a influencia de Fairbain em 1946, elas saem da literatura kleniana”. Assim, vamos ao contexto da posição depressiva.

4. A Posição Depressiva e suas Características

Antes de escrever Uma Contribuição à Psicogênese dos Estados Maníaco-Depressivos em 1935, onde ressalta a posição depressiva pela primeira vez, Klein (1934) destaca a questão das fantasias persecutórias associadas as ansiedades mais primitivas, focando a ambivalência do amor e do ódio, como diz: “através da análise, chegamos aos conflitos mais profundos de onde surgem o ódio e a ansiedade, também encontramos lá o amor” ( KLEIN, 1934/1997, p. 299). Ao analisar a criminalidade, ela aponta que o amor (representante da pulsão de vida) estaria ‘enterrado’ ao lado do ódio (representante da pulsão de morte), sendo a análise a mola propulsora para o seu surgimento.

Essa ambivalência já preparava o terreno para o conceito de posição depressiva, que iria aparecer no ano subseqüente. Assim, os postulados sobre a ansiedade arcaica, a ambivalência, a constituição do superego e as relações objetais parciais são retomados no artigo Uma Contribuição à Psicogênese dos Estados Maníaco-Depressivos, escrito por Klein em 1935.

Neste artigo, clássico de sua obra, pela primeira vez ela traz o termo posição (como já descrito na nota de rodapé da página anterior) [6]. Klein não descarta os princípios das fases descritas por Freud, mas introduz essa concepção, retomando os mecanismos da introjeção e projeção, ressaltando: “desde o início, o ego introjeta objetos ‘bons’ e ‘maus’, sendo que o seio da mãe serve de protótipo para ambos (1935/1996, p. 304). Caso a criança venha possuí-lo, este torna-se um objeto bom; caso venha a perdê-lo, a criança poderá projetar toda a sua agressividade neste objeto, tornando-se um objeto mau, voraz, perigoso, esvaziando o seu mundo interno e ocasionando a destruição promovida pelo seu sadismo. Essa ansiedade, que neste momento ela define como paranóide, pode “ser presa e modificada pelos mecanismos obsessivos, que aparecem muito cedo” (1935/1997, p.304) Assim, as defesas obsessivas recaem no resguardo destes núcleos paranóides.

Com o desenrolar do desenvolvimento do ego, este se torna mais coeso e a ansiedade muda sua intensidade. Ocorre a passagem dos objetos parciais para o objeto total, propiciando o medo da perda como um todo. A identificação com o objeto bom, integral, possibilita  o desenvolvimento do amor e o desejo voraz de devorar o objeto identificado, reforçando a introjeção ( incorporação) do objeto total. A criança poderá preservar o objeto bom em seu interior devido ao medo, a destrutividade, que fora projetada para o exterior e que poderia vir a danificar este objeto.  Caso a criança venha a atacá-lo sadicamente em suas fantasias, este movimento poderá ocasionar a reparação do objeto devido a identificação com o mesmo.

Assim, por intermédio desta identificação com o objeto bom, o ego tem uma noção mais completa da realidade psíquica. Os movimentos reparatórios estão associados ao amor, a pulsão de vida enquanto que os movimentos de ódio estão associados a pulsão de morte, tornando o sadismo e a manifestação da ansiedade arcaica ‘lombadas’ no desenvolvimento mental da criança. Mas como que fica a constituição do superego durante esta posição depressiva?

Para Klein “no que diz respeito à natureza do superego e à história do desenvolvimento individual, minhas conclusões divergem das de Freud” (1940, p. 405). Os mecanismos de projeção e introjeção são fundamentais na constituição desta instância, pois conduzem  ao estabelecimento de objetos amados e odiados dentro de nós mesmos, que se organizam na constituição do ego no decorrer do mundo interior da criança.

Segundo Klein “esse mundo interior é formado por inúmeros objetos absorvidos pelo ego, que correspondem em parte à profusão de aspectos, bons e maus [...]” (1940/1996, p. 405). Na constituição do superego, temos a introjeção das figuras parentais, como também das pessoas reais internalizadas nas diversas situações oferecidas pelas experiências externas.

A constituição do superego é retomada em 1945, quando escreve O Complexo de Édipo à luz das Ansiedades Arcaicas. Neste contexto, segundo a nota do editorial inglês, Klein não associa a frustração oral do desmame como o ponto central da liberação dos impulsos edipianos e “nem que o complexo de Édipo começa principalmente sob o impulso do ódio” (1945/1996, p. 414). Ao contrário dos postulados anteriores, o complexo de Édipo coincide com o começo da posição depressiva, momento este em que ocorre uma diminuição das ansiedades persecutórias  e as tendências amorosas vem a um primeiro plano, norteados pela culpa e pelas reparações.  E como que Klein compreende a constituição do superego neste momento de sua obra?  Ela ainda associa a constituição desta instância a remota infância, associada a presença dos objetos parciais – ao seio, primordialmente.

Para Klein, “em ambos os sexos, o superego passa a existir durante a fase oral. Sob o domínio da vida de fantasia e de emoções conflitantes, a criança introjeta seus objetos - antes de mais nada, os pais -  em cada estágio de sua organização libidinal [...]” (1945/1996, p. 461). O superego é construído a partir destas introjeções que irão alimentar as fantasias primárias das crianças. Estas fantasias, devido a estas incorporações, nem sempre correspondem as pessoas reais no mundo da criança, conduzindo o superego a refletir os vários componentes e características das imagens introjetadas. Assim, todos os fatores que exercem uma influência sobre as relações de objeto da criança estão presentes deste o início da construção do superego.

Segundo Klein “o primeiro objeto introjetado, o seio da mãe, forma a base do superego” (1945, p. 461) Como a relação com o seio da mãe precede a relação como pênis do pai, a relação com a mãe introjetada vem a afetar todo o curso do desenvolvimento do superego.  Muitas das características mais importantes do superego, como as características amorosas ou destrutivas, são frutos dos componentes maternos iniciais do superego.

Em minha compreensão, no deslize do seio para o pênis, podemos encontrar as características sádicas projetadas no seio materno sendo deslocadas para o pênis, interferindo diretamente na problemática identificatória. Para me aprofundar nesta questão da problemática identificatória, especificamente da incorporação do pênis sádico, gostaria de recorrer a compreensão de Hanna Segal sobre os estádios primitivos do complexo de Édipo.

Na compreensão de Hanna Segal:

Tanto o menino quanto para a menina, o primeiro objeto de desejo é o seio da mãe, sendo o pai percebido inicialmente como rival. Contudo, em vista das ansiedades persecutórias e depressivas experimentadas pela criança em relação à mãe e seu seio, o pênis do pai se torna rapidamente, tanto para o menino quanto para a menina, um objeto alternativo de desejo oral, para o qual se pode voltar, afastando-se do seio (1964/1975, p. 124).

Na compreensão desta psicanalista sobre a obra kleniana, para o menino, a aproximação do pênis de seu pai como uma alternativa para o seio da mãe é primariamente um movimento para a homossexualidade passiva, ao mesmo tempo em que a incorporação do pênis paterno, via oralidade, permite a identificação com este, fortalecendo o caminho rumo à heterossexualidade. O desejo oral de incorporação logo dá espaço para a situação genital, em um desejo de cópula e de receber bebês dele.

Entretanto, a relação com o seio materno denota uma outra relação com a agressividade e com o sentimento de culpa. Na compreensão de Klein, os primeiros sentimentos de culpa, tanto nos meninos quanto nas meninas, tem a sua origem nos desejos sádico-orais de devorar a mãe, tendo origem no início da infância. A culpa seria a mola  que propicia o desenvolvimento e afeta o seu resultado.  Isto significa que ansiedade, culpa e sentimentos depressivos são pilares intrínsecos  do desenvolvimento emocional da criança e que estão presentes nas relações de objetos iniciais, que “consistem da relação com pessoais reais e com seus representantes no mundo interior “ (1945/1996, p. 463).

5. Conclusões

Primeiramente, gostaria de retomar a proposta deste artigo que versava sobre a constituição do superego primitivo, a partir das relações objetais parciais, na obra kleniana. A partir desta problemática, podemos trazer algumas características das três décadas estudadas.

Na década de 20, a técnica analítica do brincar possibilitava a análise das camadas mais primárias do superego, rodeadas por situações de ansiedade que poderiam gerar ataques ao corpo materno. Nos casos masculinos, o superego da mãe teria o seu devido valor, mas é o superego paterno que irá exercer a sua devida influencia. 

Nesta conjuntura, a ansiedade seria fruto da tirania de um superego, momento este em que a gênese deste superego primitivo seria um fator de extrema relevância para a compreensão das psicoses. Isto significa que o superego teria um componente pulsional, agressivo, que se voltaria contra o ego indefeso da criança, reforçando as fantasias monstruosas das crianças e suas ansiedades ‘persecutórias’, sendo esta deslocadas para os objetos externos.

Na década de 30, Klein dá um passo a mais, ressaltando a introjeção. Para esta autora, a formação do superego se inicia ao mesmo tempo em que a criança faz a primeira introjeção oral de seus objetos. Se a intensidade da ansiedade ganhou destaque na década de 20, na década de 30 é a sua amenização que chama a atenção de Klein. Ou seja, com a diminuição da ansiedade, as imagos terroríficas vão dando espaço para as imagos benignas e prestativas. O superego começa a se transformar na consciência propriamente dita, perdendo seu caráter tirânico e gerando mais sentimento de culpa e valores de sentimento social. Assim, quando o superego é amenizado, suavizado, um possível ataque poderia desencadear o movimento de reparação que estaria associado ao movimento do desenvolvimento do sentimento de culpa e dos sentimentos morais.

Ainda nesta mesma década, o fato de introjetar imagos mais amistosas, e não tão cindidas, possibilita observar uma mudança no caráter do superego. Isso se deve a superação da ansiedade primitiva, graças ao desenvolvimento da criança em direção ao estágio genital. Assim, as ameaças do superego tornam-se abrandadas por médio de advertências e censuras. Se, de um lado, temos a introjeção, e o papel da projeção na constituição do superego?

A projeção possibilita dissipar a ansiedade arcaica, propiciando a internalização de um objeto bom que vem a fortalecer o superego infantil. Tais mecanismos são retomados no início da década de 40, na constituição do superego, momento este em que temos a introjeção das figuras parentais, como também das pessoas reais internalizadas nas diversas situações oferecidas pelas experiências externas. O primeiro objeto introjetado, o seio da mãe, forma a base do superego. Assim, todo o desenvolvimento do superego vem a ser afetado pela relação com mãe. Como conseqüência, muitas das características mais importantes do superego, como as características amorosas ou destrutivas, são frutos dos componentes maternos iniciais do superego.

Por último, este artigo ressalta que os postulados mencionados acima tecem um olhar impar sobre a formação e a etiologia do superego a partir da visão desta psicanalista, uma vez que a compreensão da formação desta instância foi complementando a visão freudiana, ressaltando o papel das primeiras introjeções (e suas conseqüências) para a formação do psiquismo.

Referencias Bibliográficas

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SPILLIUS, Elizabeth Bott. Melanie Klein Hoje. Rio de Janeiro: Imago, 1990.


1. Pós doutorando pelo Núcleo de Psicologia Clínica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Possui graduação em Psicologia pela Universidade Metodista de Piracicaba, mestrado e doutorado pela PUC-SP. email: henriquescatolin@hotmail.com

2. Supervisora do estágio pos-doutoral. Possui graduação em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Apresenta mestrado e doutorado em Psicologia Clínica por esta mesma instituição.

3. Esta concepção será alterada ao longo da sua obra, associando o início do complexo de Édipo a posição depressiva.

4. Entretanto, na origem do conflito edipiano, o superego teria um caráter tirânico

5. Klein (1929)  destaca que a gênese deste superego primitivo seria um fator de extrema relevância para a compreensão das psicoses.

6. Em 1952, ao final do seu artigo Algumas Conclusões Teóricas Relativas à Vida Emocional do Bebê, Klein afirma: “Escolhi o termo posição em relação às fases paranoide e depressiva porque esse agrupamento de ansiedades e defesas, embora surjam primeiramente durante os estágios iniciais, não se restringem a eles, mas ocorrem e recorrem durante os primeiros anos de infância e, em certas circunstancias, posteriormente na vida” (1952, p. 118).


Revista ESPACIOS. ISSN 0798 1015
Vol. 38 (Nº 50) Año 2017

quarta-feira, 6 de abril de 2022

Gilles Deleuze: Duas questões sobre a droga.



 

Gilles Deleuze: Duas questões sobre a droga.

por Gilles Deleuze | Trad.: Guilherme Ivo

São apenas duas questões. Vê-se muito bem que não se sabe o que fazer com as drogas (mesmo os drogados), mas também não se sabe como falar delas. Ora se invocam prazeres, difíceis de descrever e que já supõem a droga. Ora, ao contrário, invocam-se, causalidades demasiadamente gerais, extrínsecas (considerações sociológicas, problemas de comunicação e de incomunicabilidade, situação dos jovens, etc.). A primeira questão seria: Será que há uma causalidade específica da droga, e será possível procurá-la por esse lado?

Causalidade específica não quer dizer “metafísica”, tampouco exclusivamente científica (por exemplo, química). Não é uma infraestrutura cujo resto dependeria como de uma causa. Antes seria traçar um território, ou o contorno de um conjunto-droga, que estaria entrelaçado, por um lado, ao interior, com as diversas espécies de drogas e, por outro, ao exterior, com as causalidades mais gerais. Pego um exemplo de um domínio totalmente outro, o da psicanálise. Tudo o que pode ser dito contra a psicanálise não anula o seguinte fato: que ela buscou estabelecer a causalidade específica de um domínio, não apenas o domínio das neuroses, mas de formações e produções psicossociais de toda sorte (sonhos, mitos…). Pode-se dizer, de maneira bastante sumária, que ela traçou a causalidade específica como sendo o seguinte: mostrar a maneira pela qual o desejo investe um sistema de vestígios mnésicos e de afetos. A questão não é saber se essa causalidade específica era justa; seja como for, a busca por tal causalidade existia, e com ela a psicanálise fez com que abandonássemos as considerações demasiadamente gerais, mesmo que caíssemos em outras mistificações. O fracasso da psicanálise, relativamente aos fenômenos da droga, mostra muito bem que, na droga, trata-se de toda uma outra causalidade. Minha questão, porém, é esta: será possível conceber uma causalidade específica da droga, e em que direções? Por exemplo, na droga haveria algo de muito particular, nela o desejo investiria diretamente o sistema-percepção. Logo, seria totalmente diferente. Por percepção é preciso entender as percepções internas tanto quanto externas e, especialmente, as percepções de espaço-tempo. As distinções entre espécies de drogas são secundárias, interiores a esse sistema. Parece-me que as pesquisas, num certo momento, iam neste sentido: as de Michaux, na França, e, de um outro jeito, as da geração beat, na América, também as de Castañeda etc. Como todas as drogas primeiramente concernem às velocidades, às modificações de velocidade, aos limiares de percepção, às formas e aos movimentos, às micropercepções, à percepção devindo molecular, aos tempos sobre-humanos ou sub-humanos etc. Sim, como o desejo entra diretamente na percepção, investe diretamente a percepção (daí o fenômeno da dessexualização na droga). Tal ponto de vista permitiria achar o liame com as causalidades exteriores mais gerais, todavia sem perder-se nelas: assim, o papel da percepção, a solicitação da percepção nos sistemas sociais atuais, que faz com que Phil Glass diga que, de todo jeito, a droga mudou o problema da percepção, mesmo para os não-drogados. Mas tal ponto de vista também permitiria dar maior importância às pesquisas químicas, sem o risco, no entanto, de cair numa concepção “cientificista”. Ora, se é verdade que se esteve nessa direção, de um sistema autônomo Desejo-Percepção, por que hoje em dia parece que ela foi abandonada, ao menos parcialmente? Especialmente na França? Os discursos sobre a droga, dos drogados e dos não-drogados, dos médicos e dos usuários, recaíram numa confusão enorme. Ou seria então uma falsa impressão e não há como buscar uma causalidade específica? O que me parece importante na ideia de uma causalidade específica é que ela é neutra e vale tanto para o uso das drogas quanto para uma terapêutica.

A segunda questão seria dar conta do “revertério” da droga, em qual momento esse revertério sobrevém. Será que ele sobrevém tão rapidamente e de tal maneira que o fracasso ou a catástrofe façam necessariamente parte do plano-droga? É como um movimento “acotovelado”. O drogado fabrica suas linhas de fuga ativas. Essas linhas, porém, enrolam-se, põem-se a rodopiar em buracos negros, cada drogado em seu buraco, grupo ou indivíduo, como um caramujo. Mais afundado que chapado. Guattari falou disso. As micropercepções são recobertas de antemão, segundo a droga considerada, por alucinações, delírios, falsas percepções, fantasias, acessos paranoicos. Artaud, Michaux, Burroughs – que sabiam do que falavam – odiavam essas “percepções errôneas”, esses “sentimentos ruins”, que de uma só vez lhes pareciam ser uma traição e, no entanto, uma consequência inevitável. É também aí que todos os controles estão perdidos e que se instaura o sistema da dependência abjeta, dependência a respeito do produto, da dose, das produções fantasmáticas, dependência a respeito do traficante etc. Seria preciso, abstratamente, distinguir duas coisas: todo o domínio das experimentações vitais, e o das empreitadas mortíferas. A experimentação vital é quando uma tentativa qualquer lhe pega, se apodera de você, instaurando cada vez mais conexões, abrindo-lhe a conexões: tal experimentação pode comportar um tipo de autodestruição, ela pode passar por produtos de acompanhamento ou de arrebatamento, tabaco, álcool, drogas. Ela não é suicida, porquanto o fluxo destruidor não se assenta sobre si mesmo, mas serve à conjugação de outros fluxos, sejam quais forem os riscos. Porém, a empreitada suicida, pelo contrário, é quando tudo está assentado sobre este único fluxo: “meu” tiro, “minha” sessão, “meu” copo. É o contrário das conexões, é a desconexão organizada. Em vez de um “motivo”, que serve aos verdadeiros temas, às atividades, um único e raso desenvolvimento, como numa intriga estereotipada, onde a droga existe pela droga e suscita um suicídio estúpido. Há somente uma linha única, ritmada pelos segmentos “paro de beber – recomeço a beber”, “não estou mais drogado – logo, posso retomar a coisa”. Bateson mostrou como o “não bebo mais” faz rigorosamente parte do alcoólatra, pois é a prova efetiva de que agora ele pode voltar a beber. Assim é com o drogado, que está sempre parando, pois é a prova de que é capaz de retomar. O drogado, nesse sentido, é o perpétuo desintoxicado. Tudo é assentado sobre uma linha morna suicida, com dois segmentos alternativos: é o contrário das conexões, das linhas múltiplas entremisturadas. Narcisismo, autoritarismo dos drogados, chantagem e veneno: eles se juntam aos neuróticos, em sua empreitada para aborrecer o mundo, para espalhar seu contágio e impor os seus casos (de pronto, mesma empreitada da psicanálise como pequena droga). Ora, por que, como se faz essa transformação de uma experiência, mesmo que autodestrutiva, porém viva, em empreitada mortífera de dependência generalizada, unilinear? Será ela inevitável? Se há um ponto preciso de terapêutica, é aqui que ele deveria intervir.

Talvez meus dois problemas se juntem. Talvez seja no nível de uma causalidade específica da droga que se poderia compreender por que as drogas acabam tão mal e desviam sua própria causalidade. Uma vez mais, que o desejo invista diretamente a percepção é algo muito surpreendente, muito belo, uma espécie de terra ainda desconhecida. Mas as alucinações, as falsas percepções, os acessos paranoicos, a longa lista das dependências, isso é por demais conhecido, mesmo que seja renovado pelos drogados, que se arvoram de experimentadores, cavaleiros do mundo moderno, ou doadores universais da má consciência. De um ao outro, o que ocorre? Será que os drogados não se serviriam da ascensão de um novo sistema desejo-percepção para tirar disso o seu proveito e fazer a sua chantagem? Como os dois problemas se entremeiam? Tenho a impressão de que, atualmente, não se avança, não se está fazendo um bom trabalho. O trabalho. O trabalho certamente está em outro lugar que não nessas duas questões, porém, atualmente, nem mesmo se compreende onde poderia estar. Os que conhecem o problema, drogados ou médicos, parecem ter abandonado as pesquisas, para si próprios e para os outros.

Gilles Deleuze


Notas

  1. Texto extraído do livro Dois Regimes de Loucos: textos e entrevistas (1975 – 1995). (São Paulo: Editora 34, 2016, pp. 158-62.)
  2. Título do editor francês para o original “Deux questions”, in François Châtelet, Gilles Deleuze, Erik Genovois, Félix Guattari, Rudolf Ingold, Numa Musard e Claude Olievenstein,… Où il est question de la toxicomanie, Alençon, Bibliothèque des Mots Perdus, 1978.
  3. Este texto servirá a Deleuze e Guattari posteriormente, no platô Devir-intenso, devir-animal, devir-imperceptível de Mil Platôs, mais especificamente nas “Lembranças de uma molécula” (Paris, Éditions de Minuit, 1982, pp. 333-51). Edição brasileira, Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia (São Paulo, Editora 34, 1997, vol. 4, pp. 63-81).